Go to ...

on YouTubeRSS Feed

16/12/2017

O estupro imaginário


Do que se está falando quando conversamos sobre estupro? Sobre roupa curta e sexo? Sobre desejo sexual? Pesquisas dúbias levam a resultados tortos e favorecem o conservadorismo ou desviam nossa visão. Dá no mesmo. 

Uma pesquisa pergunta para o brasileiro se ele concorda com a frase “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”. O resultado é que 65% diz que concorda. A mesma pesquisa conta que 91% das pessoas entrevistadas concordam total ou parcialmente com a prisão do marido que bate em mulher. Os organizadores da pesquisa deveriam ter cuidado com esses dados, pois, para quem entende de como se dá o estupro, esses dados apontam para sentidos distintos. Mas, não creio que os pesquisadores foram prudentes. Saíram por aí com conclusões apressadas. Os meios de comunicação embarcaram nisso afoitamente, desconsiderando essa diferença de julgamentos. Os ativistas de internet, então, se lambuzaram no descuido!

Na novela da Rede Globo, Vida em família, Helena comenta com o marido: “mas como assim, quer dizer que o homem não consegue conter seus impulsos sexuais?” Helena toma gato por lebre: acha que a pesquisa está dizendo que o estupro vem de impulsos sexuais masculinos. Helena erra porque tudo foi montado na imprensa para ela, leitora, errar.

Se a tal pesquisa que chegou às mãos de Helena diz algo de válido, o faz apenas quanto às confusões próprias do senso comum, e assim mesmo só se tivermos boa vontade para com o que foi divulgado. Levando em conta o grau de dificuldade de nossa população em interpretar textos, já atestada por órgãos internacionais de pesquisa, deveríamos entender que a palavra “merece”, na frase “mulheres que usam roupas mostram o corpo merecem ser atacadas”, pode muito bem ser interpretada não como uma condenação à mulher, mas simplesmente como uma constatação válida. Quem pensa que estupro é algo oriundo única e exclusivamente do que popularmente chamamos de tesão recolhido, pode muito bem dizer que mulher que mostra o corpo demais vai acabar mesmo recebendo algum tipo de ataque.

estupro sexo e violênciaNo entanto, vamos sair das imagens do senso comum e suas reiterações pela mídia. Vamos às informações de quem pesquisa efetivamente o estupro. No Brasil, só 7% (mais ou menos) dos estupros são de responsabilidade de uma pessoa que a vítima não conhece. E entre estas, nem todas atacam as vítimas por razões de desejo de sexo de uma maneira que não doentia. Em geral são pessoas presas às fixações de fantasias pré-adolescentes, que deveriam ter sido sublimadas. Todo o resto é composto por estupradores que são maridos, ex-maridos, namorados e ex-namorados e, é claro, tios, pais, amigos, amigos da família etc. Essas pessoas, como se vê, não desconhecem o corpo da mulher atacada. Muitos já as tiveram na cama ou já a conhecem em situações variadas com pouca roupa. O ataque surge aí de modo quase que totalmente desligado de desejo, mas vinculado ao fato de quem deveria obedecer pode não estar obedecendo.

Nisso tudo, há mais mandonismo que “machismo”. Aliás, “machismo” é uma palavra que não tem mais servido para nada. Antes esconde coisas que revela. Esse mandonismo, essa ideia de que há quem deva ser subjugado, também é exercido contra o homem que deve ser servil. Na cadeia, por exemplo, nenhum chefe se impõe sobre seus servos senão com o estupro, e não com um murro na cara. No lar ou nas imediações, primeiro vem o tapa ou murro na cara, depois o estupro, para mostrar para o serviçal que, no limite, seu corpo vai obedecer sem que o cérebro ou o coração  sejam consultados. Coincidentemente o serviçal, nesse caso, é a mulher. Mas ela pode ser substituída como objeto de humilhação, sabemos bem disso.

Há uma distância entre a imagem do estupro e suas causas e o estupro que ocorre. Qualquer pesquisa boa sobre o assunto deveria, antes de tudo, ter ficado atenta a essa distância. Os militantes feministas também deveriam ter notado isso. Não o fizeram.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo. Autor do recente A filosofia como crítica da cultura (Cortez, 2014).

Post Scriptum. Note que essa ligação entre desejo sexual, roupa e estupro, que as ativistas fizeram, acaba sendo a mesma ligação feita pela extrema direita, alocada na Veja, só que com sinal contrário. O blogueiro da Veja que diz que “mulher direita não é estuprada” pensa igualzinho a ativista que diz que “meu decote não é convite para estupro”. Só o sinal de valoração é invertido. Ambos erram.

Tags: , , , , ,

8 Responses “O estupro imaginário”

  1. manoel lucas
    17/05/2014 at 19:03

    Mandonismo. A linguagem do mandonismo, creio, flui, é produzida e irradiada a partir de três espaços principais: Casa, escola, trabalho. Os lugares menos produtores de violencia são as ruas e avenidas. Aliás, se tornam violentas, a partir dos fluxos de linguagens produzidas em casa, no trabalho… Mas a grande usina de violência é a casa.
    Mas apesar desta questão cair até em concursos públicos, falar na casa, é tabu.
    Faz -se o concurso, acerta a questão, depois volta pra casa e colabora para a reprodução do mandonismo.
    As sementes semeadas do mandonismo, são plantadas antes da porrada ou das vias de fato, qualquer violência. Mas mexer com isto é mexer com o que?
    Parece que o mandonismo é um valor muito bem protegido.

  2. Tadeu Sarmento
    31/03/2014 at 16:26

    Para a vítima, pouco importa se o estupro foi motivado por desejo sexual, domínio, poder, traumas de infância, mau humor ou possessão de “encostos”. Importa que ela não se enxergue como culpada nem sinta vergonha em denunciar seu agressor (conhecido ou desconhecido, dá no mesmo). A lógica binária de qualquer pesquisa visa a produzir rapidamente um conjunto de dados que atenda a uma demanda preestabelecida. Uma pesquisa não precisa “aprofundar-se” em nada – a discussão com base no material coletado que sim, de modo que a ressonância social da pesquisa em questão cumpre seu papel: difundir a ideia de que a vítima não deve sentir a mínima parcela de culpa pelo crime que sofreu. Contra fatos não há inversões terminológicas possíveis, salvo como paixão recreativa de alguém sem talento sequer para ser polêmico. Provavelmente o senhor gosta de polemizar para fisgar mais leitores para o seu blog. Mas vim, li, não gostei e nunca mais retornarei. Boa sorte na próxima pescaria.

    • 31/03/2014 at 17:18

      Tadeu, seu raciocínio é errado e leva a mais erro ainda. Para a vítima e para nós todos importa sim tudo isso. Pois é conhecendo quem somos que podemos nos fazer melhor. Para a vítima, que pode ser vítima outra vez, e para seus próximos, que ela quer evitar que sejam vítimas. O meu blog é para inteligentes. Não deu para você. Não dá mesmo, não é só para você. Há outros assim, de cabeça curtinha. Mas gostei de você, lindo, pois disse que não voltará mais. Isso é bom. É horrível leitor burraldinho.

  3. Diego Michel
    31/03/2014 at 14:58

    Paulo, penso eu que a própria legislação penal erra ao inserir a expressão “ato libidinoso” no delito de “estupro”. Pode-se até considerar que, estritamente, dentro dos limites legais a coisa funcione, mas, do ponto de vista especulativo, ato libidinoso é algo que gera dubiedade, tendo em vista que tal expressão nos remete a psicanálise freudiana, o que leva ao sentido de impulso sexual, o que entra em descompasso com o estupro.

    Abraço.

    • 31/03/2014 at 15:07

      Quando uma sociedade faz mal filosofia, e péssimo ensino público, o direito paga o pato.

    • Guilherme Gouvêa
      01/04/2014 at 09:02

      Nesta óptica, até mesmo um beijo roubado pode ser enquadrado como “estupro”, dependendo do acusador, invertendo a lógica de produção probatória (na prática, é o acusado que terá de provar sua inocência, embora digam o contrário…). A nova redação do artigo nos subtraiu um pouco mais de segurança jurídica e acrescentou um tanto mais de paranoia no nosso cotidiano.

  4. Afonso
    31/03/2014 at 14:11

    Para além da ‘dubiedade’ dessa pesquisa, parece não restar dúvida que se trata de violência e dominação – mas a confusão, o barraco ‘virtual’ está armado… veja, por exemplo, esse link: http://riodejaneiro.ig.com.br/?url_layer=http://odia.ig.com.br/noticia/brasil/2014-03-30/jornalista-presta-queixa-e-acirra-campanha-na-rede.htm – note essa frase: “Em um dos relatos de vítimas da violência, uma mulher conta que foi estuprada aos 17 anos, ao sair da escola: “Eu estava usando calça jeans e blusa de frio, e não fui poupada. A roupa não define o direito do homem tirar a dignidade da mulher” – parece que confirma o que foi dito em seu artigo, ainda que ao final no aspecto do ‘sinal de valorização invertido’.

    • 31/03/2014 at 15:08

      Afonso, temos medo de falar sobre o que nos mostra iguais, todos, a monstrinhos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *