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28/06/2017

O estupro ganha de nós, quando quer e como quer!


As meninas da foto estão mortas. Todas brasileiras, estupradas recentemente.

No mundo todo o estupro se mantém alto. O Brasil não figura entre os dez países grandes com número avantajado de estupros, ainda que uma tal lista varie por informações desencontradas e por conta de critérios distintos sobre o que é qualificado como estupro. Mas se sabe que países desenvolvidos não deixam de estar na cabeça da lista que avalia a agressão contra a mulher. O Brasil teve 47,6 mil casos de estupro de mulheres em 2014, 7% a menos que em 2013. Mas o problema é que isso significa um caso de estupro a cada 11 minutos, em média. Além disso, sabe-se bem, o estupro não é um crime comumente relatado.

O que é mais certo nos estudos sobre estupro no mundo, levado a cabo por universidades americanas, é que a estimativa é de que em mais de 50% dos casos o crime não é revelado, não há queixa alguma na polícia. Outro dado certeiro dessas pesquisas é sobre a proximidade do estuprador. Só uma pequena quantidade é de pessoas desconhecidas da vítima. Um terceiro detalhe é que, no mundo todo, há mais negras estupradas que brancas. E mais: o estupro seguido de morte não é pequeno, e se incluirmos nisso o abuso sexual com violência, as moças jovens, inclusive em meios universitários, vão fazer parte gorda nas estatísticas.

A filosofia e a história mostram bem que a violência sobre a mulher é alguma coisa milenar. A arte não deixa de registrar tal coisa. Não se pode fazer um relato simples desse retrato. Todavia, essa simplicidade é sempre esperada. Deseja-se chegar à fácil conclusão de que o grau de civilização de um povo, medido por riqueza e educação, mostrem um quadro menos drástico. Isso não ocorre. Muito menos a pena capital ou castração faz o número de estupros diminuir. Mas há ainda um outro elemento importante, e aí eu ponho minhas cartas na mesa: toda vez que há um crime bárbaro em um país, e o Brasil não foge à regra, desdobra-se uma eletrização da nação e, então, são feitos protestos de todo tipo. Os protestos ajudam a acordar as autoridades, mas alguns protestos embarcam em “campanhas contra o estupro”, e estas são inúteis e, em certo sentido, até prejudiciais. Campanhas a respeito do estupro são negativas, claro, e campanhas negativas, não raro, mais prejudicam que ajudam. Podemos ter sucesso em campanhas de vacinação ou aleitamento materno ou doação de comida etc. Mas quando fazemos campanhas do tipo “não mereço ser estuprada” ou “contra a cultura do estupro”, às vezes o ganho é um terrível tiro pela culatra. Ao invés de despertar o que há de melhor no país, desperta-se forças vingativas, às vezes de caráter barbárico, até fascistas, que não visam proteger as mulheres ou encontrar soluções políticas para a violência, mas apenas fomentar a vingança, o linchamento, a acusação barata e irresponsável, a caça às bruxas, o aumento de mulheres e homens se solidarizando com políticos reacionários que, nessa hora, surgem de todo lado, como urubus, para ver a carne de todo mundo ao sol aberto. Campanhas contra práticas milenares não são como campanhas atuais de vacinação. Leis contra a violência da mulher não tem a eficácia de leis para proibir cigarros e determinados lugares.

Outro detalhe importante são os modos pelos quais, ao se constatar que o problema é milenar e que campanhas não funcionam, opta-se então pelo uso de uma palavra que parece explicar tudo, mas que não explica nada: machismo. Essa palavra, uma vez pronunciada, parece fazer a mulher, principalmente a feminista, entender toda a história e toda a sociedade, e ao se ver dominando o que de fato não dominou, tranquiliza-se. Toda vez que ocorre uma violência, essa militante vai até o local com a sua bandeira ideológica,  e então diz com força de doutora no assunto: “é o machismo brasileiro”.  Pronto, com isso, deixamos de investigar o que ocorreu. Há palavras que possuem o dom de nos tornar estúpidos, burros, incapazes de averiguar mais. Machismo é uma delas. Atualmente, no caso da prática feminista, é a principal e a pior (igual a neoliberalismo para a esquerda atrasada). Claro que os jargões podem ser complementados: “tudo culpa da sociedade patriarcal”. “Machista e patriarcal” – maldita seja tal sociedade. Pronto, o rótulo funciona como explicação teórica para o militante que mais procura palavra de ordem, e por isso mesmo não consegue pesquisar, não aguenta ler, não consegue colocar dúvidas e questões para entender a violência. Uma palavra mágica como “machismo” ajuda a militante a fazer o que ela quer fazer: livrar-se da concentração do trabalho teórico para compreender caso a caso o que ocorreu. Ou então a bota no trabalho teórico para copiar jargões, que ela repete mudando a fonte que falou a mesma coisa.

Outro detalhe ainda é o simbolismo do estupro. Por ele mesmo, ele avança como ideologia. O estupro é uma desgraça tão ruim quanto uma facada. Mas um facada deixa medo, não humilhação moral. Então, por conta dessa marca moral, o estupro tem uma simbologia que, não raro, o faz se sobrepor à nossa capacidade de ter paciência para ver, caso a caso, como ele funciona. Ele nos impacta e paralisa, e eis que então nos vence. Pois ele é feito para nos paralisar, ele é da família do terrorismo. O terrorismo não visa ganhar um guerra, mas apenas mostrar a fortaleza moral do Terror diante da fraqueza moral dos indefesos. O estupro ganha de nós a cada campanha histérica que fazemos contra ele.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

Vídeos sobre o estupro, clique: 1) Machismo e estupro não ligam; 2) Campanha errada contra o estupro; 3) Direitos humanos e estupro; 4) Adolescente estuprada por 30

 

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17 Responses “O estupro ganha de nós, quando quer e como quer!”

  1. José D. Sampaio NT
    30/05/2016 at 09:24

    Estimado Professor Paulo.

    Pelo conhecimento que você tem, qual seria a melhor saída para solucionar esse problema do estupro?

  2. José D. Sampaio NT
    30/05/2016 at 09:09

    Estimado Professor Paulo.

    Com relação ao estupro que acontece no Brasil e como em todos os demais Países do mundo, o que precisa ser feito é rever a educação familiar para que possa eliminar as falhas que são geradas dentro do âmbito familiar.

    • 30/05/2016 at 09:17

      José se isso fosse possível seria bem simples e já teria melhorado. A violência contra a mulher é milenar.

  3. Brendo.
    28/05/2016 at 20:58

    Essa menina não era nada santa. Procurou e achou. Já tinha a prática da coisa.

    • 29/05/2016 at 02:38

      Brendo, acho que você tem problemas graves, os mesmos que atingem Bolsonaro. É um tipo de demência.

    • Orquideia
      29/05/2016 at 08:08

      Brendo [ hehehe! ], você é um monstrengo…

    • Orquideia
      29/05/2016 at 08:13

      …bicho bêsta…

  4. Carlos Perez
    28/05/2016 at 14:38

    Foi você, Paulo Ghirdardelli, professor universitário e educador, que falou que a nordestina Rache Sheherazade deveria ser estuprada urgentemente?

    • 28/05/2016 at 14:40

      Carlos eu nunca acreditei que alguém pudesse estuprar a Sherazade. As pessoas cada vez mais estão sendo contrárias à zoofilia.

  5. Henrique
    28/05/2016 at 14:37

    Todos os intelectuais que tenho visto tem falado bastante em sociedade machista e falocentrica, inclusive ontem vendo o Jornal da Cultural o Karnal se referiu a isso. O senhor é o único a apresentar uma outra perspectiva de pensamento.

    • 28/05/2016 at 14:38

      Henrique esse pessoal só repete, não investiga, não estuda. Trabalham em função de Casa do Saber e palestrinha para a midia.

    • LMC
      28/05/2016 at 19:11

      No Jornal da Cultura,o Karnal respondeu ao
      Oscar Schmidt,que é favorável a pena de
      morte pra estupradores que é contra a
      pena de morte pra qualquer crime.
      Machista e falocêntrico mais que o
      Lobão,não existe.kkkkkkk

    • 28/05/2016 at 20:44

      Karnal é imitação barata de showman

  6. João Neto
    28/05/2016 at 14:22

    Viva, Paulo!
    Ouvi os videos e chorei de rir com a tua determinação em ensinar os burricos.
    Não acha que faltou falar da punição que sempre vem à baila após um crime hediondo? A pena de morte seria um tema legal e que eu gostaria de ver quem sabe no Hora da Coruja.
    Grande abraços, cheios de gratidão pelo discernimento com que escreves e falas.
    Beba água.
    J

  7. Arina Fonseca Alba
    28/05/2016 at 01:31

    Já que nem campanhas nem o feminismo ajudam em nada, o que se pode fazer para, pelo menos, deter as diversas formas de violência contra a mulher?

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