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21/08/2017

O encontro secreto entre Marx e Nietzsche é descoberto


Marx não leu Nietzsche e vice versa. Até ontem pensávamos assim. Mas na pequena cidade de Vaderna,  em Liechtenstein, surgiram agora os documentos que mostram que ali mesmo eles se encontram, um ano antes da morte de Marx, em 1882.

O mais interessante desse encontro, do que até agora foi revelado pelos scholars que compraram o material de uma moradora local, é que eles, os dois filósofos, tiveram uma conversa sobre “a morte de Deus”. Ambos concordaram que “Deus estava morto”, que a crítica à religião era coisa do passado, que ser ateu não era importante. Mas o problema é que Marx tinha um outro Deus – a Ciência – justamente aquele que Nietzsche também havia feito morrer, justamente por que a Morte de Deus era a morte do Absoluto, de qualquer candidato a absoluto. Marx tentou ganhar Nietzsche para a ideia de que a ciência tinha um peso, que teríamos que prestar a ela certa reverência, contanto que fosse uma ciência sem ideologia, sem metafísica. Mas Nietzsche insistiu que o positivismo, ainda  que interessante, não correspondia muito bem ao que ele entendia como a necessária morte do platonismo, era ainda uma busca por um Céu Estrelado com verdades fixas. Nietzsche alertou Marx para algo que este quase compreendeu: o materialismo ou é só negativo, só crítico, ou não existe. Um materialismo positivo abre espaço para que  a “matéria”, mesmo que sejam relações sociais e não o físico puro, se torne um novo absoluto.

Marx havia feito a crítica da economia política. Tinha clareza de que não havia feito uma crítica dos fatos, mas dos textos. Sabia da mediação da linguagem, necessariamente pondo-se entre ele e o mundo, ou a mediação da teoria, mas, ainda assim, entendia que o seu modelo sobre a sociedade era verdadeiro em um sentido não simplesmente relativo. Marx acreditava, e isso deixou claro a Nietzsche, que ele tinha chances de conquistar a “realidade como ela é” por causa de estar no interior da visão da classe social que podia desvendar as ideologias. O proletariado não tinha nada a perder e, portanto, podia aceitar ideias não ideológicas. Podia ver mais longe. Ser intelectual e adotar tal perspectiva classista era um ganho epistemológico e lógico, explicou Marx. E por isso, O Capital tinha uma verdade verdadeira.

Nietzsche reiterou: mas então, o seu livro é um substituto de Deus, é a volta do absoluto, é o absoluto entrando pelas portas do positivismo? Não seria melhor – Nietzsche voltou à carga – tomar os textos como textos, sem qualquer ambição de se chegar a um texto último (ou primeiro)? Não seria mais justo com o nosso tempo, com o que sabemos da história da cultura, entender que só temos interpretações? Nietzsche apontava, sem o saber, claro, para o que depois veio com Wittgenstein, Quine, Davidson, Rorty, Derrida e Foucault. Marx parecia apontar para aquilo que veio depois com Carnap, e com  derrota deste diante de Quine. O salto que é entender a sociedade como classista não valia a pena, para Nietzsche, se fosse para atrelar a isso uma epistemologia e, então, uma metafísica. Por que cavocar no túmulo de Deus? Estaria Marx achando que Deus havia sido sepultado de modo errado, como aqueles que são tomados por mortos e então enterrados vivos? Abrindo o túmulo de Deus, o encontraríamos de bruços?

Nietzsche fez essa pergunta para Marx: “Deus estaria de bruços no túmulo?” E mais esta: “para que trazer a ciência da história como ciência em um sentido de um novo deus?” “O que ganhamos com isso?”

Infelizmente, os documentos surgidos nessa cidade quimérica de Vaderna, pelo que foi investigado até agora, param aí. Mas os scholars que adquiriram a relíquia vão continuar o trabalho.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo. São Paulo, 28/07/2016.

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15 Responses “O encontro secreto entre Marx e Nietzsche é descoberto”

  1. Cléberton
    01/04/2017 at 17:18

    Sensacional! “Tomar os textos como textos”. rsrs

  2. Rafael
    30/03/2017 at 02:14

    Existem provas de que este encontro foi real?
    Não achei nada em inglês sobre isso..

  3. Emisson
    03/08/2016 at 12:07

    Estou perplexo com este fato.Só fiquei assim quando descobrir que Arendt tinha um caso com Heidegger.Muito bom paulo.Parabéns pelo excelente texto.

    • 03/08/2016 at 12:17

      O fato, claro, é na cidade indicada! Conhece?

    • Emisson
      03/08/2016 at 12:36

      A cidade não,o estado sim.A cidade deve ser muito pequena,porque o estado Liechtenstein é um dos menores estados independentes do mundo.

    • 03/08/2016 at 12:49

      Procure-a! Só assim irá entender!

  4. Rafa
    03/08/2016 at 10:29

    Essa notícia é seria ou é “zueira”? Rsrsrs

    • 03/08/2016 at 10:31

      Rafa. Seríssima. E só vale para alfabetizados.

  5. Orquideia
    30/07/2016 at 07:07

    Fiu de antena! [minha expressão de espanto]

  6. 29/07/2016 at 10:46

    Muito bom! Qual será o próximo encontro secreto? Estou ansioso!

  7. 28/07/2016 at 19:25

    Ótimo Paulo, você poderia escrever sobre aqueles registros que três arqueólogos italianos encontraram na Áustria de uma conversa entre o Heidegger e o Wittgenstein sobre linguagem e ontologia.

    • 28/07/2016 at 20:04

      Três italianos é? Vou entrar em contato com eles já já.

    • Daniel Mota
      29/07/2016 at 01:48

      Bacana e cômico! Show, parabéns Paulo

    • 29/07/2016 at 03:27

      Obrigado!

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