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28/06/2017

O encontro de Feliciano e Almodóvar


O encontro de Feliciano e Almodóvar

Disse e repito: dos movimentos sociais de minorias o “LGTTTS” (antigo GLS) é o mais afinado com os instrumentos eficazes nas lutas por seus objetivos. O movimento negro e o movimento feminista guardam um certo ressentimento que não tem equivalente no movimento gay. O episódio no avião com o deputado e pastor Feliciano mostrou isso mais uma vez. Feministas e minorias étnicas não teriam como atingi-lo ali, naquela hora, sem causar algum transtorno que poderia ser revertido a favor do deputado. Um grupo de gays presente puxou um “Mamonas Assassinas” e eis que vários passageiros – gays e não gays – engataram um “Robcop gay” durante a viagem. Ao final da viagem Feliciano estava visivelmente irritado. Sabia que havia perdido mais ou round.

Esse modo de agir do “LGTTTS”, que tornou possível tantas edições da “Parada do Orgulho Gay” no mundo todo, é o combustível de alterações de vocabulário e de comportamento em geral que têm propiciado uma das mais fecundas mudanças morais do mundo contemporâneo. O movimento gay conseguiu sair do combate ao preconceito, sem precisar ficar atavicamente no conceito, desembocando rapidamente no pós-conceito. O que é isso? Não é difícil entender.

Explico a coisa toda por meio de alguns filmes. Filadélfia foi um filme gay de combate ao preconceito, no fecundo espírito – para a época – do “politicamente correto”. A AIDs serviu como ponta de lança para uma mais radical luta por direitos civis. Os direitos civis deveriam olhar para as novas minorias, para a humanidade dos humanos de grupos minoritários. O segredo de Brokeback Montain foi um filme levemente conceitual: o amor gay em suas especificidades ou, melhor dizendo, um filme que poderia ser sintetizado na frase: “o romantismo de casal também é gay”. Felizmente, esse momento do conceito passou rápido. Café da manhã em Plutão trouxe a baila os temas de Filadélfia e Brokeback Montain, mas desembocou em novo espírito, antes descritivo que conceitual, pois integrou os temas trágicos e românticos na trilha daquele bom humor que já havia aparecido antes, bem antes, por exemplo, em Gaiola das loucas. Ou seja, em menos de vinte anos o movimento gay conseguiu fechar um círculo e partir para uma espiral.

Ora, a alteração no âmbito da linguagem, e que estou associando a uma revolução moral contemporânea, tinha agora realmente de dar mais um passo. Esse passo não poderia ser dado por outro que não Pedro Almodóvar. Os gays podem ser gays, agora, pós-conceitualmente. Ou seja, eles podem ser descritos como gays, como o que é engraçado, amoroso e, agora, só muito levemente dramático. Desse modo, podem integrar novamente as narrativas de puro entretenimento. Os gays não precisam mais servir à militância, como em Filadélfia, nem munir o trabalho técnico acadêmico de elaboração conceitual, de Brokeback Montain. Gays podem ser gays, sem problemas. Ou melhor, com problemas como os de qualquer outra pessoa. É assim que são apresentados os personagens do mais recente filme de Almodóvar, Os amantes passageiros.

Observando o movimento cerebral de Feliciano, creio que esse é o único filme de toda a obra de Almodóvar que o deputado-pastor conseguiria, de certo modo, entender a trama. Por coincidência, ele teve lá o seu “vôo de amante passageiro” justamente no momento em que o filme é exibido nos cinemas brasileiros. Ele merece.

Paulo Ghiraldelli Jr, 55, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

PS: repare o leitor que a maior parte da crítica (brasleira) não entendeu o filme enquanto mais uma peça na obra de Almodóvar (sim, ele não está produzindo filme por filme, ele está construindo uma obra!). Por não entender a história do movimento gay e seu caminho no cinema, a crítica não conseguiu ver a razão de Almodóvar fazer um filme de puro e mero entretenimento, suave e como se ele estivesse iniciando no cinema. A crítica não viu, também, o número de personagens gays no filme. Ou seja, hoje, todo mundo é gay. Nem mesmo Almodóvar dando a dica, no início, ao colocar Bandeiras e Penélope como pontas, e dando o início ao filme – o que é uma dica clara – a crítica foi capaz de sacar do que se tratava. Putz!

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14 Responses “O encontro de Feliciano e Almodóvar”

  1. Alexandre
    24/05/2015 at 17:54

    Muito bom esse filme, muito engraçado e leve, o filme até conseguiu me tirar um pouco do estado de depressão em que estou imerso,não acredito que demorei tanto para assistir…gosto muito de um outro filme dele chamado Má Educação.

    “Nem mesmo Almodóvar dando a dica, no início, ao colocar Bandeiras e Penélope como pontas, e dando o início ao filme – o que é uma dica clara”
    Eu NUNCA sacaria essa dica se você não tivesse dito isso.

    • ghiraldelli
      24/05/2015 at 22:46

      Bom ouvir isso.

  2. BENJAMIN
    05/09/2013 at 23:38

    Vários passageiros apoiaram aqueles gays? Não vi nada disso. Vi foi um passageiro pedindo eles para pararem pois estavam incomodando. Agora, se fosse o contrário? Se fosse uma turma de evangélicos que estivesse incomodando o deputado gayzista Jean Willis? Os “progressistas” estariam chamando eles de homofóbicos, intolerantes, preconceituosos. Artistas estariam provendo um novo beijaço e Daniela Mercury iria casar com mais outra mulher. No mínimo.

    • 05/09/2013 at 23:51

      Benjamin, eu não vou comentar. Você é digno de pena. Você e Feliciano são piadas no mundo todo. Vocês são conhecidos como homofóbicos gays enrustidos. E você sabe disso, não? Você sabe que você é gay, não sabe?

  3. Eduardo Silva
    16/08/2013 at 02:08

    Paulo, esses dias estava vendo umas notícias sobre a ação do Estado contra os gays na Rússia, como a proibição de que eles adotem filhos. Além disso, ainda existem ações de grupos extremistas que filmam e divulgam torturas a homossexuais e ficam impunes. Fiquei pensando como ainda tem gente que fala em “ditadura gay”.

    • 16/08/2013 at 10:05

      Os nossos casos, Eduardo, aparecem aos russos também assim.

  4. andre
    16/08/2013 at 00:57

    E a bancada evangélica só aumenta no congresso…

    Exelente texto professor..

  5. Murilo Pacheco
    13/08/2013 at 13:51

    Muito bom o texto. Realmente dinossauros como o Feliciano vão ficar na história, pois é facilmente visível a mudança da mentalidade da população geral sobre “ser gay”. Lembrei-me do Filadélfia, filme que um professor de Medicina Preventiva passou na faculdade para minha sala. Mudou totalmente nossa visão sobre esse assunto. Parabéns, professor!

    • 13/08/2013 at 17:43

      Murilo, claro que a visão dos letrados é diferente da visão dos menos cultos. Mudamos nossa visão, mas os crimes contra gays acontecem ainda, por que o “iluminismo gay” não caminha de modo uniforme, nenhum iluminismo caminha.

    • Murilo Pacheco
      13/08/2013 at 18:14

      Sem dúvida ocorrem! E por isso que o movimento gay deve continuar agindo!

    • Rafael
      21/08/2013 at 04:53

      Antigamente era a visão da nobresa que era diferente da plebe agora é a visão dos cultos para os menos cultos.

    • 21/08/2013 at 11:44

      Rafael, cuidado com essas simplificações. (detalhe: nobreza, com z)

  6. Lucas
    13/08/2013 at 13:47

    Das duas, uma: ou o filósofo é míope e não viu que todos estavam visivelmente contra a intimidação causada pelos militantes,tendo alguns, inclusive, acionado a polícia; ou o filósofo entrou na universidade através de cota e não é tão filósofo assim.

    • 13/08/2013 at 17:45

      Lucas, de duas uma: ou você é gay enrustido e homofóbico (o que é comum) ou é burro. Talvez as duas coisas. Agora, sobre cotas, não sou do tempo delas, você sim, mas você nem com cota para jumento consegue fazer alguma universidade. (pessoal, deixei o comentário do Lucas aqui, mas ele não é meu leitor não, eu não tenho leitor burro. Ele é apenas um carinha que passou por aqui e vomitou a mágoa).

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