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22/09/2017

O drama da verdade em filosofia a partir de Tocquevile


O pragmatismo é uma corrente filosófica que a América reivindica, com razão, como sendo de sua propriedade criadora. Seus três grandes heróis nasceram no século XIX: Peirce, Dewey e James. Os escritos desses homens construíram uma parte da história da filosofia no século XX, encorpando trabalhos sobre lógica, epistemologia, teoria moral, política da democracia, estética, psicologia e pedagogia. Todavia, quando Tocqueville aportou na América para estudar o sistema de presídios dos Estados Unidos, nenhuma corrente propriamente filosófica havia despontado. Estava-se nos anos trinta do século XIX. Assim, em Democracia na América, Tocqueville não faltou com a verdade ao dizer que não havia especulação filosófica entre os americanos, que eles não eram afeitos a uma tal coisa:

“Creio que não há, no mundo civilizado, país em que o povo se ocupe menos de filosofia do que os Estados Unidos. Os americanos não têm escola filosófica própria e preocupam-se pouquíssimo com todas as que dividem a Europa. Mal sabem o nome delas. É fácil ver, contudo, que quase todos os habitantes dos Estados Unidos dirigem seu espírito da mesma maneira e o conduzem de acordo com as mesmas regras; ou seja, eles possuem certo método filosófico comum a todos, sem nunca terem se dado ao trabalho de definir suas regras” (A democracia na América. São Paulo: Martins Fontes, vol II, capítulo 1, p. 3)

Tocqueville continua o texto falando das virtudes do pensamento prático americano: não esperava que esse espírito, ele próprio, banhado em Hegel, pudesse originar uma filosofia da conversação democrática, o pragmatismo. De certo modo, o pragmatismo veio como uma espécie de comunitarismo hegeliano para temperar qualquer individualismo neokantiano. De certo. Mas, na época de Tocqueville, o que foi notado por ele tinha a ver com aquilo que ele próprio  entendia como filosofia: Descartes. Ou talvez o que ele não cita: Kant. Filosofia para ele nada era senão tomar todas as coisas pela própria razão. Ele escreve:

“A América é, pois, um dos países do mundo em que menos se estudam e em que melhor se seguem os preceitos de Descartes. Isso não deve surpreender. Os americanos não leem as obras de Descartes, porque seu estado social os desvia dos estudos especulativos, e seguem suas máximas, porque esse mesmo estado social dispõe naturalmente seu espírito a adotá-las.( (Idem, ibidem, pp 3-4).

Claro que Tocqueville fala como francês, e está correto. Mas nós, hoje, tenderíamos a vê-lo como remetendo mais diretamente ao texto de Kant sobre a saída da menoridade. A filosofia foi por ele definida como esse arranque da razão que se puxa pelos próprios cabelos. O americanos, segundo Tocqueville, assim se fizeram por conta dos “tempos democráticos” que, neles, não era só questão de tempo, mas de geografia. A ideia da igualdade traz a ideia da possibilidade da individualidade. Eis o raciocínio: se somos iguais, ninguém tem qualquer dom especial que eu não tenha e, portanto, se tenho que decidir alguma coisa, posso fazer isso por mim mesmo – pela minha própria razão. Em geral pensamos que é a liberdade que traz a individualidade. Mas, para Tocqueville, o individualismo foi fruto, antes de tudo, do igualitarismo, da questão central da democracia como força que resulta da quebra das hierarquias da sociedade do Antigo Regime.

Essa igualdade da democracia, associada ao seu fruto, o individualismo, volta para o tecido social de uma forma bastante curiosa. Pois é justamente a individualidade, ou melhor, o individualismo, que, para Tocqueville, rege o perigo do totalitarismo no seio da sociedade americana. Sua exposição deixa claro esse aparente paradoxo:

“À medida que os cidadãos se tomam mais iguais e mais semelhantes, a propensão de cada um a crer cegamente em certo homem ou em certa classe diminui. A disposição a crer na massa aumenta, e é cada vez mais a opinião que conduz o mundo. Não apenas a opinião comum é o único guia que resta para a razão individual entre os povos democráticos, como possui, entre esses povos, uma força infinitamente maior do que em qualquer outro. Nos tempos de igualdade, os homens não têm nenhuma fé uns nos outros, por causa da sua similitude; mas essa mesma similitude lhes proporciona uma confiança quase ilimitada no juízo do público, porque não lhes parece verossímil que, tendo todos luzes idênticas, a verdade não se encontre na maioria. Quando o homem que vive nos países democráticos se compara individualmente com todos os que o rodeiam, sente com orgulho que é igual a cada um deles; mas quando encara o conjunto de seus semelhantes e se situa ele próprio ao lado desse grande corpo, é logo sufocado por sua própria insignificância e por sua fraqueza. Essa mesma igualdade que o toma independente de cada um dos seus concidadãos em particular entrega-o isolado e sem defesa à ação da maioria.” (Idem, ibidem, p. 11).

O monstro chamado opinião pública ou opinião da maioria aparece aí como vindo da confiança de cada um em si mesmo e da constatação que cada um, sozinho, é alguém que sabe o que fazer. A reunião de mais pessoas sozinhas funciona como um super sujeito. O número aparece naturalmente na mesa das decisões em uma sociedade de império daquilo que lida bem com este, ou seja, uma sociedade de igualdade entre os elementos em jogo. É interessante notar como que é justamente este o procedimento pelo qual, depois, William James aplica para formular o conceito de verdade da filosofia pragmatista.

James disse por diversas vezes que o pragmatismo nada era senão um método para a verdade. A verdade seria como que um tipo de procedimento, isto é, um expediente para a avaliação de um enunciado intelectual, como o bom é um expediente para a avaliação prática ou moral. Esse expediente nos faz ir por aquilo que nos é útil, o melhor de se acreditar. Suponhamos que perguntamos numa cidade onde é a casa de João .Queremos a informação correta, verdadeira. Dez pessoas dizem para seguirmos a rua na direção reta, e só uma diz que deveríamos virar à esquerda. Em quem apostamos que está a verdade? Ora, vamos pela opinião da maioria. Ir pela maioria é ir pela informação que nos é útil, que é razoável considerar a mais útil, a que será verdade – assim veremos ao chegar no destino. Esse procedimento de James, de ir por apostas na maioria, é exatamente a ideia detectada por Tocqueville como sendo o procedimento geral americano por conta do igualitarismo e de seu fruto, o individualismo. Tocqueville alertou para o perigo totalitário dessa situação. Ora, James nunca acreditou nessa ideia de que seu método era totalitário. Ao contrário, para ele o totalitário seria abandonar a maioria e procurar seguir uma única informação dada por alguém com autoridade. Seria insano, irrazoável, fazer isso.

O que o pragmatismo fez foi requalificar a definição de opinião da maioria. Podemos tomar uma maioria como simplesmente numérica, mas James nunca pensou em fazer isso. Ele sabia muito bem que a opinião da maioria não pode ser numérica, formal, mas distinta e qualitativa. Podemos ter dez pessoas dizendo que a frase ” ‘A casa do João está no final da rua’ é verdadeira”, e somente uma dizendo que essa frase é falsa, pois a verdadeira seria “A casa de João está na rua à esquerda”, e isso não nos faria acolher a frase aprovada pelos dez se estes fosse todos bêbados ou todos tão turistas quanto você, ao lado de um sóbrio morador da cidade, um parente do João. Ou ainda: se este um fosse o próprio João!

Esse drama da verdade e da aprovação social não é tão fácil de se resolver. É ele que tensiona o mundo moderno do Ocidente hoje, e se manifesta de modo agudo, sempre, onde de fato foi gerado: A América, esse grande laboratório humano, esse parque humano que se desdobra aos nossos olhos há dois séculos.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 10/01/2017

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3 Responses “O drama da verdade em filosofia a partir de Tocquevile”

  1. 29/01/2017 at 16:13

    Professor, por falar em Verdade, estaríamos, nesse início de século, uma “era da pós-verdade”? Surgiu essa conversa ultimamente em nossa imprensa.

    • 29/01/2017 at 21:39

      Não se está numa época a partir de jornalistas e palestrantes. É preciso olhar os filósofos.

  2. 25/01/2017 at 10:20

    O drama da verdade ficou chocante com a eleição de Trump. Interessante é que a maioria votou na Hillary, mas o establishment votou em Trump. O paradoxo é que Trump promete entregar todo o poder ao povo e se diz divorciado do establishment. O cinturão do meio oeste votou maciçamente em Trump, mas agora vão sofrer diretamente com a quebra do acordo do TPP para o transpacific. Ou o exercício da democracia em larga escala, tal qual a pressão gravitacional faz com o tempo e o espaço, deformou a verdade a tal ponto que se tornou ininteligível?

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