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23/09/2017

O divórcio de Viviane para não sociólogos


Minha amiga do peito Susana de Castro, filósofa que trabalha na UFRJ, às vezes se insurge contra Israel. Por razões sentimentais e de formação, ela se alinha fácil a um vício da esquerda brasileira: fazer dos terroristas palestinos um problema inexistente, olhando apenas a população palestina sofrendo com as bombas israelenses. Quando isso começa a ocorrer, uso de uma estratégia rortiana para trazê-la para o meu lado. Digo: “sempre que pensar em Israel, lembre-se antes no nosso amigo filósofo bubberiano que mora lá, o Elie Cohen-Gewert, e não no sionista de direita Pondé, e então você conseguirá ver os israelenses, e não somente os palestinos, como ‘um de nós’”.

Creio que se ela pensa assim, segundo a minha sugestão, talvez possa vir a exercer o que o filósofo judeu Martin Bubber chamou de “instinto de relação”, que todos nós teríamos, para além (ou aquém) da aquisição da linguagem. É com esse espírito que devemos ver o estado de Israel, com olhos menos cheios de sangue, de modo a melhor compreender o filme Gett (“Divórcio”, em hebraico), trazido ao público brasileiro como O julgamento de Viviane Amsalem (Ronit Elkabetz, Sholomi Elkabetz, França-Reino Unido, 2014) (veja a história aqui publicada em jornal comunista do Irã, aliás, bastante objetiva – confesso que estranhei a objetividade; mil vezes melhor que qualquer crítica dos jornais nacionais e blogs).

Por que digo que temos que preparar o espírito para não nos opormos a Israel ao vermos o filme em questão? É que para nós, ocidentais escolarizados e ciosos dos valores do Iluminismo, a laicidade se tornou um valor básico, que nem tem que ser discutida. Além disso, estamos acostumados a lidar com o não-laico vendo-o ou como o “catolicão” ultra-conservador, bem aquém de João XXIII e de Francisco I, ou como os pastores caça-níqueis, tipo Malafaia. Assim, religião para nós, metida em leis, é uma desgraça que nem sequer avaliamos – estamos sempre prontos para dizer “isso não!”. Mas a religião hebraica com todos os seus rabinos convive com uma Israel que tenta seguir, dentro de uma paisagem contrária, o modelo de vida Ocidental. Esse pequeno detalhe é o que raramente é tocado na produção cinematográfica israelense. As relações “religião & indisposição contra a mulher & estado” não são vistas de modo crítico pelo cinema israelense que, não raro, aborda esse assunto sempre colocando tais elementos nas costas dos palestinos. Há filmes israelenses que não tratam os palestinos como bandidos, claro. Mas não conheço filmes israelenses capazes de dizer: “nós aqui em Israel também temos uns probleminhas com a não laicidade, e eles afetam a mulher, principalmente”.

Não há divórcio em Israel aos moldes ocidentais. Em Israel o tribunal do divórcio é composto por rabinos e, no limite, fica a critério unicamente do marido, conceder ou não o divórcio. Assim, a história de Viviane Amsalem (uma história da mãe dos diretores?) é a de uma mulher que comparece seguidamente ao tribunal para ouvir um “não” de seu marido, no pedido de divórcio. O fio condutor do drama é claro: as questões que envolvem um divórcio são de toda ordem, iguais as nossas, só há um detalhe distinto, e esse detalhe faz toda a diferença: a palavra da mulher dizendo que não ama mais o seu marido não é compreendida. Não digo que é desconsiderada. É tolo dizer isso. É que não é compreendida. Claro que há testemunhas que compreendem e, evidentemente, o advogado dela também. Mas no geral o clima é o de não compreensão. É como se em Israel (a parte que parece mais decisiva, ao menos no filme) prevalecesse algo que ainda há entre nós, e muito, a pergunta que se deve colocar diante de uma mulher que quer se separar e que não tem nenhum pretendente em vista tem que ser esta: “por que você quer se separar de um marido que é bom pai, que lhe dá sustento, que não fala alto e que não a agride?” Sabemos que essa pergunta ainda é vigente entre nós!

Talvez alguma feminista de pouco cérebro possa vir com a palavra mágica e roubar o enredo do filme: “machismo”. Pronto, e eis que não é necessário mais pensar, uma vez que um rótulo vazio se aplica ao drama e, fazendo sociologia barata, mata o filme, tanto quanto se pode destruir a película reduzindo-a ao drama da não-laicidade. Mas o inteligente verá que há algo que nada tem a ver com machismo, e que ultrapassa também a questão da laicidade estatal. O marido não dá o divórcio porque ele não gostaria de ver a mulher nos braços de outro homem, não por posse ou poder de um modo banal, uma vez que ele era um “marido liberal”, que não a impedia de viagens, saídas etc., mas única e exclusivamente “por amor”. Ao seu modo ele nunca deixou de amá-la. É aqui que o filme mudo o tom: nada de drama sobre laicidade ou machismo. A questão é bem outra. Não é propriamente sociológica ou política, é filosófica.

Claro que se pode dizer: “ora, se ele a amava, deveria desejar a sua felicidade, dar-lhe o divórcio e, no limite, deixá-la ter um outro homem no futuro”. Mas o amor é engraçado, esquisito. Ele se parece com a posse brutal às vezes, mas ele também tem a face daquele que quer a posse sutil, efetivamente doce. Há pessoas que não sabem transformar o amor de um divórcio em amor da memória dos momentos bons vividos, como em uma viuvez, e então precisam do amor ciumento para que possa curtir o amor, mesmo não tendo mais o objeto de amor. É exatamente o caso do marido de Viviane, só entendido por ela ao final, no desfecho do filme. Infelizmente os críticos não dão importância ao desfecho do filme.

Segundo os gregos antigos, bem diferente dos romanos, Eros não se caracterizava por ser o Cupido. Este é o dono da flecha repentina da paixão. Ao contrário, Eros era o fomentador do desejo, da tensão para se ter o que não se possui. Nesse caso, amar sempre seria, em alguma medida, a busca de uma posse. Ter o belo que se avizinha motiva o desejo, e isso é o erótico, o amor que não é nem Ágape e nem Philia que, afinal, nem são deuses! A imaginação, a lembrança e os sonhos são os elementos que permitem que Eros habite em nós, de modo grego, mesmo quando não temos nas mãos ou nos braços o que desejamos. Mas o marido de Viviane nunca soube suprir essa necessidade de Eros com recursos tais como estes, que em geral se aprende a cultivar na viuvez. Nesse sentido, o drama de Viviane tratado no filme não diz respeito ao drama da religião e do estado ou do “machismo”, mas simplesmente um retrato filosófico que faz a pergunta socrática: “quem é Eros”. Quem é o deus que está desenhado no escudo de Alcibíades, o homem erótico que nunca compreendeu a profundidade de Eros?

Interpretar o amor, quando se manifesta como posse excessiva, como “machismo”, é não entender que mulheres sentem a mesma coisa. Há sociedades que já incorporaram direitos das mulheres de modo bastante razoável, e também apresentam desejos de posse avassaladores, de todos os lados, protagonizados por mulheres. A sociologia feminista não pode se encontrar com Eros, por uma razão simples: toda sociologia é desencantamento (no sentido de Weber), e os deuses e/ou daimons (Eros é as duas coisas no mito de Hesíodo e nas histórias platônicas) são da ordem de um mundo encantado, do mundo da veracidade dos mitos. Antes que filósofos e, claro, escritores, sociólogos são mais tendentes ao positivismo, o desencantamento máximo, como regra de conduta. Gett não é um filme para sociólogos. Será um filme só para filósofos e escritores? Gett é um filme somente para os que já deram de cara com Eros.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

OS: o caráter possessivo de Eros, em oposição ao caráter doador do thumos, é explorado em Peter Sloterdijk no livro Ira e Tempo e também em livros dele sobre taxação de impostos versus solidarismo. Veja: A utopia de Nozick e Sloterdijk (sobre impostos); e também A inveja chega aos pensadores europeus (sobre divergências entre Sloterdijk e Zizek).

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4 Responses “O divórcio de Viviane para não sociólogos”

  1. Cesar Marques
    23/08/2015 at 18:53

    Uma dúvida que ficou no ar: Se o oposto ocorrer em Israel, ou seja, se uma mulher de modo sistemático, não quiser dar o divórcio para o seu marido, o que ocorre? Os rabinos fazem como no filme, ou ignoram o desejo da mulher, e concedem o divórcio ao homem?

    • 23/08/2015 at 23:44
    • Cesar Marques
      24/08/2015 at 00:20

      Obrigado pelo link. O artigo meio que complementou o texto do senhor. Eu jamais desconfiei que houvesse essa situação das Agunot em Israel, país tido como a ponta de lança do Iluminismo no Oriente Médio. Eu li num outro artigo que já existe no parlamento israelense uma proposta para a criação do instituto do Casamento Civil, pois lá como o senhor bem frisou, só existe o casamento religioso. Mas o projeto estaria engavetado, mofando em alguma comissão, por pressão dos judeus ortodoxos e dos coxinhas de Israel.

      Abraços.

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