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27/05/2017

Douglas e o direito à revolta


Mel Gibson olha bem por entre as árvores, mira as cabeças de dois soldados ingleses. Zupt! Zapt! Cloc, cloc! Uma machadinha índia em cada testa, e ambos caem durinhos. Do meio da floresta para a cidade corre a lenda do colono fantasma – e terrorista. Cena de O Patriota.

O que faz esse homem, o personagem de Gibson, viúvo e com tantos filhos, cair na ilegalidade e lutar contra o governo? Não qualquer governo! O governo mais forte do mundo, o do Império Britânico!

Mel Gibson faz o personagem do colono americano que adere à revolução americana. Adere e apela para algo muito mais violento do que o simples “teatro da violência” dos black blocs atuais. Ele age assim por uma razão simples: não está inspirado em pensadores mornos, como Marx, Bakunin ou Lênin. Esses pensadores, que assustam meu amigo Pondé, que os amaldiçoa por eles terem lido Rousseau, nunca foram violentos, pois de certo modo estavam envolvidos, ainda que de forma precária, com a política. Mas o padrinho teórico do colono americano matador, este sim, autorizava a violência. O colono americano estava imbuído do ideário liberal de John Locke, justamente um britânico.

Foi Locke quem fez os americanos aderirem à violência. Ele escreveu que um governo se torna despótico quando infringe o direito de propriedade, e se assim faz, pode ser derrubado – é legítimo lutar contra ele. A propriedade para Locke não era só a propriedade material. Antes disso, tratava-se da propriedade da vida, do pensamento, de liberdade de expressão. Locke via de modo amplo a propriedade, e se isso fosse roubado do cidadão, então ele poderia legitimamente romper o contrato pelo qual havia deixado o “estado de natureza” e entrado para a “sociedade civil” (ou estado). Quando o personagem de Gibson se viu pressionado por leis injustas e pela opressão do governo, ele não deu uns tapas em um coronel abusado, como um black bloc qualquer. Ele não fundou um partido político de vanguarda, como um Lênin. Nem mesmo pensou na “ação direta” de Bakunin (a sabotagem e o teatro da violência). O colono americano pensou exatamente nas palavras sugeridas pela leitura de Locke: insurreição.

Um governo pode parecer não despótico para uns e, no entanto, ser despótico para muitos.

Sou branco, tenho olhos verdes, ando bem vestido, tenho identidade e cartão de crédito, curso superior, profissão de professor universitário, paulistano e tenho muitos dentes na boca. Alguns dizem que sou são paulino. Caso eu seja assaltado, posso gritar “polícia! Polícia!”. Há chances de ser salvo pela polícia. Todavia, se alguns desses itens aí forem trocados, minha chance de ao gritar “polícia!” eu ser o alvejado, aumenta bem. Por exemplo, basta trocar a cor da pele. Pele negra. Pronto, se eu gritar “polícia, polícia”, pode ser eu o alvejado, não os assaltantes. Caso eles sejam mais negros e estiverem mal vestidos, talvez eu tome só um tiro e o resto das balas vá para eles. Ao final, sou salvo! Ou quase.

Não tenho razão para achar que a democracia em que vivo é despótica, ainda que aqui e ali existam leis que ainda são do regime militar e que proíbem que eu tenha plena liberdade de manifestação (sim, existem!). Posso achar que a democracia em que vivo concentra renda, é injusta, possui mecanismos que facilitam a corrupção, tem uma legislação partidária meio que anacrônica etc. etc. Mas não acho que, lendo Locke, eu tenha inspiração para uma revolta com algum grau de violência contra o estado. Todavia, basta trocar um item de minhas características, e talvez Locke faça efeito sobre mim do modo que fez efeito sobre o personagem de Mel Gibson.

É isso que muitos de nós, os que têm o direito de serem pacíficos, não percebemos. Não queremos perceber. Mesmo nós, os altamente escolarizados, continuamos com uma mentalidade tacanha em relação às relações entre estado e sociedade. Continuamos aquém do liberalismo de Locke, o liberalismo clássico. Não conseguimos ver que há alguma legitimidade na reação dos que, diante da morte do jovem Douglas, fizeram protestos na cidade de São Paulo.

Douglas tinha feito dezoito anos. Era moreno. Não tinha antecedentes criminais. Um policial atirou nele. Baleado, ele disse: “Por que o senhor atirou em mim?” Foram as últimas palavras de Douglas. Que se note na frase a palavra “senhor”. Morrendo, Douglas não desacatou o policial. Vieram os protestos. Boa parte da imprensa e do Estado reagiu atacando verbalmente os black blocs e prendendo noventa pessoas. Dizem até que houve mais um morto! Decididamente, nós estamos sem ler Locke, que garantiu a todos os noventa presos o direito à insurreição.

Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

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30 Responses “Douglas e o direito à revolta”

  1. catiane
    04/11/2013 at 20:19

    pensei que a sensatez havia morrido, daí achei você no grupo da unifesp!! Que bom que existem pessoas verdadeiramente inteligente, e não esses pseudointelectuais de facebook!!

  2. Lucas
    02/11/2013 at 11:57

    Outra coisa que eu gostaria de colocar aqui para refletir: O autor se encomodou bastante, com um comentário que um usuário fez um comentário bastante sujestivo , dando a entender que o autor é a favor da pedofilia. Eu sei que o autor é pedofilo porque eu sou pedófilo. você é pedófilo giraldellli.

    • 02/11/2013 at 13:46

      Lucas, você se diz pedófilo e me acusa também. O que eu tenho para lhe dizer é o seguinte: antes de tentar ser pedófilo, como você diz que e´, que tal ser alfabetizado? “Encomodou”? “Sujestivo”? Não, não Lucas. Comece se alfabetizando, depois tente a pedofilia.

  3. Eva Célia de Oliveira
    01/11/2013 at 20:07

    Professor Paulo é irritante ouvir as pessoas defenderem a violência do Estado e posicionar abertamente contra aos direitos civis e mais além,o direito à vida.Bom texto para reflexão.

    Lembrando,dei de presente seu livro Filosofia Política para Educadores para as secretarias de educação do município de Santos e Praia Grande e também duas diretoras de escola municipal.Não sei o porquê,mas quando encontro com elas, elas riem.Gostei do livro bem fácil de compreender.

    • 01/11/2013 at 23:20

      Eva Célia, é incrível que nossa formação educacional não consiga dar conta desse problema, o de dar um mínimo de visão sobre os Direitos Humanos para nossa população. Esse livro que você falou é uma tentativa de fazer os professores terem uma formação mínima nesse assunto. Mas eta batalha dura não?

  4. Yuri
    01/11/2013 at 00:27

    Muito sensível o texto, principalmente o parágrafo onde o senhor ilustra e explica a hipótese da polícia atendendo a um crime de roubo em que a vítima é branca, e etc. Apesar de ser um exemplo utilizado à exaustão por inúmeras pessoas, não deixa de ser o que realmente acontece. Além disso, essa reação preconceituosa ao biotipo e classe social não se limita somente aos policiais, ou órgãos públicos, mas também existe na vida privada, onde o Estado interfere menos -como quando observamos a discriminação de cor e classe social interferir em entrevistas de emprego, e em relações interpessoais diversas. Também tal preconceito exposto pelo senhor é muito mais amplo, e ultrapassa os limites da violência física contra os discriminados. Por exemplo, o mesmo indivíduo que seria alvejado pela polícia na abordagem, muito provavelmente também seria visto com muita desconfiança se comparecesse a uma delegacia para registrar alguma ocorrência -mesmo que fosse um Douglas, que não desacata policial algum nem mesmo à beira da morte-, ao passo que qualquer servidor público atenderia bem o mais estúpido e arrogante dos empresários os socialite na frente desse mesmo Douglas. Até que ponto a revolta tem de direcionar-se somente contra o Estado? Isso explica bem a ação dos Black-blocs ao depredarem bancos.

    • 01/11/2013 at 09:06

      Os Black Bloc tem várias causas, mas nossa sociedade não quer de modo algum levar sério a pergunta sobre as causas. Ninguém quer ouvir o Luiz Eduardo Soares. Querem que ele produza roteiros, mas para se entreterem com a violência. Não querem ouvi-lo no que ele tem de perguntas e respostas.

  5. Maria Madalena
    30/10/2013 at 16:37

    Teve um que fugiu de helicóptero pelo telhado, acho que foi o Haddad.

  6. Carlos Rafael Schneider
    30/10/2013 at 15:27

    Olá Paulo, muito bom texto. Gostaria que vc, se puder, desse uma olhada em um vídeo que fiz sobre violência policial que publiquei há alguns dias, ficaria grato se pudesse dar sua opinião tbm, embora que o seu texto vai ao encontro das ideias expostas. Obrigado!

    segue link.

    http://www.youtube.com/watch?v=I6QWu6g95X0

  7. MARCELO CIOTI
    30/10/2013 at 10:36

    Amparo,o problema não é prender manifestantes,o que seria ridículo,mas
    prender quem quebra orelhão ou queima ônibus,por exemplo.Prender quem
    porta um cartaz na mão seria o fim do mundo.Como já disse,a polícia
    ou o PCC podem muito bem infiltrar gente no meio dos manifestantes
    pra justificarem uma ação mais repressiva por parte das autoridades.

  8. Andrei
    30/10/2013 at 01:01

    “Mel Gibson faz o personagem do colono americano que adere à revolução americana.”

    Paulo, você não está se refere ao filme “Coração Valente” (Brave Heart) onde Mel Gibson interpreta o guerreiro e heróico escocês William Wallace na Guerra da Independência Escocesa?

    • Andrei
      30/10/2013 at 01:03

      Ah agora li, é o filme O Patriota, desculpe pelo engano…

  9. ELIANA GONÇALVES
    29/10/2013 at 18:25

    Professor,
    Nós já perdemos nossa casa, o comunismo invadiu, o senhor está vendo sua classe, todos queremos salários iguais, vcs protegem e dão ensinamentos, mas se o senhor que protege sua classe não vê que os policiais que vão as ruas para tentar manter a ordem é mal pago, é morto, é perseguido e só está tentando fazer o trabalho dele não é respeitado, como pode, dois pesos e duas medidas? Todos queremos um país igualitário, mas vejo sua proposta pendendo somente sua classe esquecendo que as demais são necessárias a sociedade como um todo.
    Abraços e agradeço por me recomendar seu artigo, tenho alguma divergência do ponto de vista, sou negra, pobre e em nada me sinto diferente.

    • 30/10/2013 at 15:31

      Eliana, já escrevi sobre isso, mas parece que você chegou só agora ao debate. Outra coisa, polícia e professor não é “classe”.

  10. Maria Madalena
    29/10/2013 at 18:24

    Sabe o que mais me choca? É o fomento nos diálogos na internet validando toda e qualquer ação policial, ‘se levou tiro é porque tava devendo’, era bandido,’. Outro dia um vereador falou publicamente que mendigo deveria virar ração. Em 1941, o pensamento em grande parte dos civis alemães, era semelhante para com judeus e ciganos. E, mais me preocupa ainda, haver pensadores que relativizam a truculência do Estado.

    • 30/10/2013 at 15:32

      Maria Madalena, realmente a violência do estado é inadmissível, pois o estado é o elemento civilizador.

  11. Luís Fernando
    29/10/2013 at 18:23

    Paulo, gostei muito da maneira sensível com que abordou o caso Douglas.

    • 30/10/2013 at 15:32

      Luís Fernando, você não sabe o ódio que as pessoas ficam por eu tocar nesse assunto.

  12. Policarpo Quaresma
    29/10/2013 at 18:01

    E agora que o governo se junta à “oposição” para tentar silenciar ainda mais o clamor popular, seu ministro vai se reunir com os secretários de segurnaça dos estados do Rio e de São Paulo para medidas que visam trucidar as manifestações. Já não foi suficiente a medida de Lei sancionada pela presdidente em agosto criminalizando os protestos decorrentes de junho e julho? E a lei maluca das máscaras no Rio?
    A prévia já vinha sendo exposta no abraço solidário, juntinhos na tv, Alckmin e Haddad, PT e PSDB, no discurso contra a manifestação do MPL em São Paulo. Lembro: “Não vamos tolerar vandalismo, e não iremos baixar a passagem dos coletivos!”
    Em que mundo esse pessoal vive, será que é mesmo no Brasil?

    • 30/10/2013 at 15:33

      Policarpo, o governo não está entendendo os black bloc. Tá confundindo tudo. Vai fazer bobagem.

  13. Amparo
    29/10/2013 at 15:50

    Excelente, Paulo!!! Veja Marcelo, o ato de prender os manifestantes é muito grave, é uma ação ditatorial e violenta, que deixa sérias marcas nos jovens presos, além de divulgar uma ameaça explícita aos demais manifestantes e à sociedade. Paulo, estou repassando seu texto para meus contatos. Precisamos fomentar o debate e reagir ao silenciamento acadêmico sobre esses acontecimentos. Mais uma vez, obrigada por nos presentear com sua lucidez.

    • 29/10/2013 at 16:19

      Pois é Amparo. É uma guerra fazer valer algum direito entre nós.

  14. Danilo Henrique
    29/10/2013 at 15:19

    Existe legitimidade em saquear pertences alheios? Como o discurso de Locke, que defendia a propriedade particular, poderia chegar na aberração de defender o roubo, que na prática, é a quebra do direito da propriedade?

    Protestar, insurgir-se, é claro que é legítimo! Mas até aonde?

    Não existiriam maneiras mais inteligentes e racionais desse protesto, em um sistema que não é efetivamente democrático, mas já não é despótico, como o nosso?

    • 29/10/2013 at 16:19

      Danilo seu maluco, quem falou que Locke defendia o roubo? Onde você leu isso no meu texto?

    • Danilo Henrique
      30/10/2013 at 16:24

      Ora quando nos apossamos de Locke para justificar a revolta temos que deixar explicita certa diferença para a insurreição e para o vandalismo, o roubo e a violência gratuita que são realizadas por alguns (alguns somente, bem claro)dos manifestantes que vemos!

      Penso que estes estão andando por caminhos incoerentes e desnecessários. Existe direito a revolta, mas não como a mesma vem sendo conduzida!

      De toda forma professor, não explicitando a diferença que existe entre aquele que se indigna de seu governo e entre saqueadores e vândalos, podemos acabar inferindo essa justificação em seu texto.

    • 31/10/2013 at 03:32

      Danilo, acho que você não está entendendo o que lê. Meus textos não são militantes.

    • Danilo Henrique
      31/10/2013 at 10:33

      Bem, se você o diz, relerei e interpretarei sob nova ótica. Afinal, quem que vai falar melhor de um texto do que a pessoa que escreveu?

  15. MARCELO CIOTI
    29/10/2013 at 11:20

    PG,naquela confusão dos black blocs prenderam noventa pessoas,é verdade,
    mas todas foram soltas.Como você sabe,sou de Atibaia(SP)e acompanhei
    todo aquele sururu na Rodovia Fernão Dias,tanto pela TV,quanto na
    estrada mesmo.Mostraram tudo durante quatro horas ao vivo e a Polícia
    Rodoviária Federal não apareceu.Não sei se essa situação se repetiria
    nos EUA,por exemplo.

    • 29/10/2013 at 11:28

      Marcelo, há gente presa, e a questão não é soltar, é que algumas receberam acusação.

  16. Paulo Heakton
    29/10/2013 at 11:19

    Ótimo texto Prof. Paulo. O direito a insurgir-se é legítimo.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo