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25/07/2017

O debate político brasileiro é pobre? Mas como seria, se o PT é o centro?


Uma cientista política bastante amiga do Luis Nassif (esse dado é relevante!), Esther Solano, inventou agora de dizer que o debate político do Brasil é pobre. Ela é espanhola e professora da Unifesp. Então, como todo estrangeiro com saudades de casa, começa a desgostar do lugar que está. Mas, para além da indisposição dela para com o Brasil em geral, para com os trópicos, há verdade no que diz?

Claro que há. Quem disser que o debate de Pondés, Bolsonaros e Kataguris de um um lado, confrontando o outro lado que tem um Sader, um Simbá Machado e um Duduvier, é alguma coisa que poderia ser produtiva, só pode estar em situação febril, delirante. Esse tipo de gente amplia seus microfones em momentos como os que estamos vivendo, e a imprensa não tem como não lhes dar ouvido, pois nessa hora é o barulho aquilo que vende jornal, vende propaganda na TV etc. O Jornal Nacional da Globo recuperou audiência com a Lava Jato. Em um momento de crise financeira, toda a imprensa, vendo que barulho dá “ibope” e, portanto, dinheiro, acaba cedendo para as vozes mais simplórias. Mas nem tudo é tão intersubjetivo assim.

Há situações objetivas que determinam a pobreza do debate, e é exatamente aí que a análise da Solano escorrega, tornando-se ela própria pobre. É que o debate é pobre porque o fato político criado pelo PT é pobre. É roubo, banditismo simples. Então, casos que seriam do Datena, para ela dar show, vão para as páginas da política. Não à toa, ele próprio, Datena, tem dedicado mais de um terço de seu programa a tais fatos da esfera política.

Esther Solano

Esther Solano

Lula conseguiu transformar não só a agenda do país em uma fantasia mentirosa de 14 anos, empobrecendo tudo a ponto de nos deixar na situação de crise em que nos  encontramos, e que certamente não foi culpa da oposição como oposição, pois, aliás, esta compactuou com ele mais do que o necessário; mas ele também tornou o cotidiano atual, agora, mais pobre mesmo. Pois o que fez é algo ridículo: roubou e ao invés de ficar quieto, se achou herói a ponto de querer ser aplaudido porque ao roubar deu um prato de comida (e alguma mortadela em dia de festa) para miseráveis. Uma vez denunciado por Moro, uma vez descoberto, ao invés de ficar mais quieto ainda, passou a falar e afrontar todas as instituições e bater pé, como um príncipe, um reizinho diante de uma multidão que não gostou de sua afronta. Ora, o que temos na política é isso. Quer coisa objetivamente mais pobre que isso? 

Agora, dá para a análise não ser tão pobre quanto o fato?

Creio que a filosofia pode dizer algo assim: o drama do PT como partido que encarnou as esquerdas é um drama moral antes que ético. Ou seja, há pessoas no PT, e não são poucas, que são gângsters. Todavia, há algo na teoria das esquerdas, que atraia essa gente, mais do que para qualquer outro lugar? Em outras palavras: Marx & Cia. são responsáveis pelo PT tanto quanto se quis fazê-los responsáveis pela URSS? Ou ainda: Stalin bandido é alguma coisa que tem a ver com Marx não bandido?

Há gente que diz sim. Diz que a  teoria pela qual Marx trilhou tem um problema grave, que faz com que justiça social e justiça comum se estranhem. Justiça social compõe a plataforma liberal geral que procura fazer com que os mais poderosos não humilhem com facilidade os menos poderosos. Justiça comum faz com que os indivíduos que cometem crimes, que roubam, sejam julgados e punidos segundo alguma legislação pertinente. Há quem culpe Rousseau por uma certa não clareza a respeito disso, e que tal feito teria comprometido senão Marx no todo, ao menos o marxismo leninista e social-democrata.

Rousseau

É que Rousseau colocou a culpa da desgraça humana no cercamento da terra, a criação da propriedade privada, e deu então vazão à prática do cultivo de uma mentalidade compensatória em amplo sentido, forjada no contexto mais popular – ou mais ressentido – do Terceiro Estado. Assim, se a propriedade é inicialmente um tipo de roubo, o que se pode fazer para que exista compensação e, então, justiça social e justiça comum, é punir o ladrão por meios indiretos. Nessa hora, liberais e social democratas querem que os impostos façam tal compensação pelo crime original, pelo pecado original da propriedade. Comunistas preferem uma solução mais drástica, expropriar todo mundo e impor um regime de nacionalização dos meios de produção. Nos dois casos, há certa confusão entre a natureza do pecado original: trata-se de algo da justiça social ou trata-se de algo da justiça social fundida à justiça comum? Em outras palavras: a propriedade é um roubo em um sentido histórico, amplo, filosófico, ou ela é mesmo um roubo como qualquer outro, que deve receber punição pela justiça que pune bandidos? Essa indistinção pode levar a certos elementos de esquerda a simplesmente dizer: o roubo do que é roubo não é roubo. Ou: ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão.

Lula pensa um pouco dessa maneira, ou seja meio que na confusão desse drama. O meio sindical tem sua mentalidade de muitos anos ligada à mentalidade leninista ou social democrata e, nos dois casos, existe uma certa indistinção entre o quanto é legítimo falar em “meu”, “seu” e “nosso”. Há um frouxidão no entendimento do que é justiça comum por conta de achar que o crime em justiça social é o único crime realmente criminoso, e que este foi o roubo inicial, do primeiro homem que cercou a terra e disse “isso é meu”, como contado na ficção de Rousseau.  No limite isso desemboca no problema do gansterismo de toda a atividade sindical no mundo inteiro.

Todos nós bípedes-sem-penas sabemos que sem sindicatos não podemos viver. Mas também sabemos, como Robert Kennedy sabia, que sindicato é lugar de pelego, mafioso e bandido comum. Partidos oriundos daí carregam essa marca. Quando os sindicatos são semi livres, ou seja, quando se aproximam do estado, então a teoria de base rousseauísta até acaba alimentando um pouco o Estado corporativo de caráter não mais de esquerda, mas de direita mesmo. Partidos de esquerda atrelados ao estado podem, desse modo, se sentirem bem fazendo práticas políticas de direita, populismo sórdido e, claro, perseguição política contra os que querem manter separados, sem contaminação, o que é justiça social e o que é justiça comum. 

Pensando assim, podemos mostrar para a Esther Solano que ela está bem errada ao dizer que o debate político no Brasil é pobre. Ele não necessariamente é pobre. É que às vezes, por questão de se saber abordar algo ou não, não se vê as partes mais complexas e ricas do que está envolvido. 

Paulo Ghiraldelli Jr., 58, filósofo.

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24 Responses “O debate político brasileiro é pobre? Mas como seria, se o PT é o centro?”

  1. William Calderon
    25/03/2017 at 03:15

    Gostei da coragem e da interpretação analítica feita da Prof. Esther, infelizmente ela posa de intelectual absoluta e irrefutável…
    Pobre na Espanha de onde ela é oriunda não é diferente dos pobres brasileiros, partindo desse ponto fica difícil qualificar o debate e de certa forma ela desconstitui qualquer critica se segurando em respostas prontas.
    Parabéns pelos comentários e pelo posicionamento, o Brasil precisa de críticos sérios e com postura profissional.

    • 25/03/2017 at 09:29

      Esther é antes militante que professora. Isso estraga.

  2. denis
    27/11/2016 at 21:38

    SABE PQ O DEBATE POLITICO AQUI É POBRE??? É FEITO SIMPLESMENTE PRA NÃO SAIR NADAAAAAAA, PRA FICAR EXATAMENTE COMO ESTÁ, WELCOME TO THE JUNGLE!!! KKKKKKKK

  3. Jonas
    11/10/2016 at 18:19

    O nível do artigo, da sua teratológica tese implícita, bem como dos comentários, são indícios muitos fortes que o debate realmente não é qualificado. Espero que em outras plagas exista lucidez e esclarecimento… Rs

    • 11/10/2016 at 19:47

      Jonas cuidado, às vezes as palavras se voltam contra nós, quando somos sabidões. E quando se usa o nome Jonas, todo cuidado é pouco. Para ser engolido pelo que não se conhece e pensa conhecer, é um destino nesse caso.

  4. Ricardão
    22/03/2016 at 18:41

    Consegue me explicar por quê M. Temer não é pego? Só sei que tem a ver com a maçonaria no alto Judiciário!

    • 23/03/2016 at 02:38

      Ricardão, no Brasil de hoje há uma conversa de gente meio esquisita que diz “meu vizinho roubou um coelho e o Moro ainda não pegou ele”. Tá assim.

    • Ricardão
      23/03/2016 at 19:12

      Me diga, vc está de qual lado?

    • 23/03/2016 at 20:01

      Ricardão, tenho tanto dó de gente como você. E olha, ultimamente apareceu monte de gente assim, que não sabe que a Terra é redonda, e então vê lado em tudo.

    • Ricardão
      23/03/2016 at 20:05

      Mas se apareceu tanta gente assim ,é porque vc deve explicações, né?

    • 23/03/2016 at 20:15

      Ricardão, eu não devo nada. Só uma pessoa completamente fora do mundo das letras pode viver de plebiscito.

  5. VALMI PESSANHA PACHECO
    21/03/2016 at 12:02

    É ,meu caro Professor PAULO, toda vez que se tenta por um adjetivo no substantivo Justiça e também no substantivo Democracia, dá na MEDIOCRIDADE em que vivemos, na qual a Hermenêutica dos jurisconsultos lembra o Rigoletto de Giuseppe Verdi:
    La donne è mobile
    Qual piumma al vento;
    Muta d’accento
    E de piensiero.
    Abraços
    Valmi Pessanha.

  6. Silvia
    21/03/2016 at 11:32

    Professor, podemos fazer uma comparação da situação atual com o filme “Sindicato de Ladrões”, com Marlon Brando?

  7. Ricardão
    20/03/2016 at 20:52

    Então por que tu não assume logo que é tucano? Não dói. Ninguém pega eles!

    • 21/03/2016 at 09:25

      Nossa, quanta inteligência: quem critica o governo e´ tucano! Termina o ensino fundamental cara, nem artigo simples você consegue entender.

  8. Fraga
    20/03/2016 at 13:37

    Paulo, ótimo texto. Confesso que fico impressionado com coelho que vc consegue tirar da cartola, coisas que a gente nem imaginava, daí vc vai lá e consegue tirar. To com teu livro do Sócrates, o livro é muito bom. Gostando muito. Muito bom mesmo. Aprendo muito com teus textos. É uma aula em cada um. eu não sei como os grandes jornais não te dão voz….kkk. Talvez seja pelo fato de que não querem filósofos verdadeiros, pois filósofo verdadeiro não tem “rabo preso”. Ninguém gosta de gente assim.

    • 20/03/2016 at 13:51

      Fraga os grandes jornais me dão voz, escrevo em todos eles. Não me leu na Folha ou Estadão ou Jornal do Brasil ou Globo? Mas, claro, não sou empregado deles. Nem posso, sou professor com dedicação exclusiva. Não sou picareta como outros que trabalham em vários lugares. Agora, é claro que não vou ficar escrevendo no jornal o que eles querem. A Veja queria uma entrevista COMIGO contanto que eu dissesse que professor de história de colégio é doutrinador marxista. Recusei-me.

  9. Eduardo Rocha
    19/03/2016 at 17:39

    Muito bom professor. Excelente quando você cita Rousseau. Aprenderia muito com vocês.Tentarei ir para o próximo encontro do CEFA. Dia 26 e 27 não poderei comparecer.

  10. Lula
    19/03/2016 at 17:08

    Belo texto Paulo!

    Mas ela é das “Ciências Sociais”, você vai ter que desenhar….

  11. adriano
    19/03/2016 at 15:11

    Muito Obrigado!

    Que esclarecedor!

  12. Matheus Kortz
    19/03/2016 at 14:10

    Paulo, vc realmente faz um excelente trabalho que creio eu que ninguém mais faça no Brasil que é i de procurar a inteligibilidade até quando parece que não há mais. Certamente esse argumento/defesa sobre as açoes do PT decorrente de um desentendimento ou confusão dos tipos de Justiça deve rondar a cabeça dos “petistas mais inteligentes ou cultos” (se é que essa expressao anterior é possível). Ao externar e elucidar esse ponto você não apenas eleva o nível da discussão do Brasil, e do momento que vivemos, como exprime a derrocada última do PT.

    Por favor, me diga que há colegas seus, nao apenas intelectual, mas tbm virilmente, capazes de analisar o Brasil dessa maneira, dentro do ambito da filosofia ou pensamento social!

    Porque às vezes acho que o sr.é unico!

    • 19/03/2016 at 15:02

      Matheus Kortz eu sou da old school. Tive bons mestres. Mas o segredo é que amo mais a filosofia que a política.

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