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20/11/2017

“O corpo utópico” de Michel Foucault


O que é o corpo? Foucault tem uma boa resposta: é lugar. Assim começa o texto “O corpo utópico” (uma versão aqui). É como se Foucault tivesse voltado à vida e consultado Peter Sloterdijk, um filósofo que insiste em ler Heidegger e aproveitá-lo para falar antes do espaço que do tempo.

Foucault se mostra nesse texto um autêntico bom leitor de Sloterdijk, pois ao tratar do corpo como lugar, toma a noção de espaço de um modo que não é o dos físicos e geômetras, mas a de quem lida com homens. O espaço beira o surreal.

Assim,  o texto “O corpo utópico” já de início honra seu título. “Basta eu acordar”, diz Foucault, “que não posso escapar deste lugar (…)”. Espaço e lugar. Eis o corpo. Ele, corpo, me coloca no meu devido lugar. Utopia é o não-lugar ou o lugar-nenhum. E se falo de corpo utópico, necessariamente falo de corpo em associação a lugar e espaço. Mas, Foucault faz isso para lembrar que “o corpo está aqui, irreparavelmente, nunca em outro lugar”. Desse modo, ele não pode estar no não-lugar ou no lugar-nenhum. Por isso, ele afirma em seguida que “meu corpo é o contrário de uma utopia, é o que nunca está sob outro céu, é o lugar absoluto, o pequeno fragmento de espaço com o qual, em sentido estrito, eu me corporizo”. “Meu corpo é o lugar irremediável a que estou condenado”, insiste Foucault. Corpo é lugar e por isso mesmo não é utopia. Essa é a tese do texto.

Essa é a tese? Mas, então, se o corpo vai para um lado e a utopia para o outro, por qual razão o título “corpo utópico”? Bem, a tese vale e é defendida até o parágrafo seis, inclusive. No parágrafo sete Foucault, dialeticamente, começa o movimento da antítese.

Até o parágrafo seis, Foucault dedica-se a mostrar como que o corpo é anulado pelas utopias que são a sua própria anulação. Por exemplo, o mito da alma, ou seja, aquilo que permite que deixemos o corpo, é também o que nos faz se esquecer do corpo, subalternizá-lo. Ele mostra várias outras formas de anulação. No parágrafo sete, provoca a inversão do caminho do texto – antítese. O corpo é utópico. A utopia nasce dele. Ela está nele. Ou seja, o não-lugar está no lugar-nenhum.

Há três elementos aí na antítese: cabeça, espelho e morte. Três elementos que mostram que a utopia emerge do corpo, e talvez para ele volte.

A cabeça funciona como uma caverna com janelas, os olhos. A pergunta de Foucault é capciosa: “e nessa cabeça, como acontecem as coisas?” Ou seja, dentro da cabeça acontecem coisas, há ali um lugar, mas é um lugar estranho, pois as coisas entram na cabeça e vão ao cérebro, mas, ao mesmo tempo, essas coisas reais ficam de fora, sei que elas entraram e ficaram de fora ao mesmo tempo. Foucault não utiliza aqui a palavra pensamento, exatamente para não forçar o leitor a entrar por vocabulários dicotômicos, caracteristicamente metafísicos. Mas, se quisermos ilustrar, devemos lembrar que Hannah Arendt[1] perguntou “onde estamos quando estamos pensando?”, algo perguntando também por Sloterdijk[2], e a resposta a tais perguntas é: estamos não estando, pois estamos alhures, ou seja, no não-lugar, no lugar-algum. Um conceito, sabemos bem, é um lugar-nenhum.

Desse modo, a utopia aí se instala. O não-lugar ganha lugar que, enfim, é o corpo.  O corpo já não é a anti-utopia. É sim a anti-utopia, mas convivendo com a utopia uma vez que se mostra ponto de partida e chegada de utopias, talvez de todas as utopias.

No caso do espelho há o fantástico fenômeno de se estar onde o corpo não está. O espelho recolhe o corpo, mostra-o, mas lá no espelho não estou. Não posso ter essa vivência de me mostrar a mim, como no espelho, senão com o espelho. No cadáver lá está o corpo, mas também nesse caso, não estou. A experiência de estar ali no cadáver não ocorre. Nesses dois casos, o lugar-nenhum efetivamente se põe como lugar, pois depende do corpo que, enfim, é lugar.

Assim, Foucault mostra que “para que eu seja utopia, basta que seja um corpo”. Isso o faz transitar para os poderes utópicos do corpo. Surge o corpo como um “grande ator utópico”. A máscara ou a tatuagem ou os adornos e a vestimenta jogam o corpo, por ele mesmo, para outros lugares, inclusive para o lugar-nenhum. “O enfeite coloca o corpo num outro espaço”. “Alguém será possuído pelos deuses ou pela pessoa que acaba de seduzir”. Os gregos viveram, antes do teatro, o tempo em que seus enfeites os faziam não representar os deuses, mas serem apresentados os deuses enquanto tinham seus corpos como o que os podia jogar para outros lugares. Por obra dos enfeites, ou seja, dos próprios corpos, ir para os lugares que não eram lugares se fazia possível. Assim também, posso exemplificar, dizendo que um padre ou um pai de santo devem ficar ofendidos se chamarmos a Missa, no momento da Consagração, ou o ritual do terreiro, no ato da incorporação, como representações. Não o são. São situações de lugares, de coisas processuais que devem ser tomadas literalmente, e que dependem dessa capacidade do corpo ser o local do nenhum-local.

O texto poderia então acabar em 17 parágrafos, mas Foucault não fica na dualidade da tese e da antítese. Ele busca uma síntese que, hegelianamente falando, não encerra os momentos de tese e antítese. Essa síntese é espantosa e bela. Trata-se do amor. Ele mostra que pelos dedos do outro, lábios do outro e olhar do outro, o corpo vai sendo constituído, vai se fazendo presente, e ao mesmo tempo abrigando nele próprio o lugar-nenhum. O olho se fecha e não é o espelho que está mostrando a pálpebra que não podemos ver, mas é um outro olho, que funciona como um eu ou em um eu, que dá garantias de como que a pálpebra é quando se fecha. Também uma boca que serve para abrir e falar, repentinamente tem, então, um reconhecimento dos lábios na medida do toque do lábio do outro. O morrer do amor, que é gozo, faz a experiência do cadáver, que parecia não se poder ter, surgir sem que se morra. O lugar-nenhum do cadáver se faz presente no corpo, que é um lugar. Foucault termina dizendo que o amor é tão bom, que gostamos tanto dele, porque ele faz a utopia do que vai à cabeça, no espelho e no cadáver poderem se fazer, exatamente no aqui do corpo. O amor faz o corpo, enquanto não utopia, trazer para si a utopia. Eis a síntese, exatamente no último parágrafo.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo

[1] Essa ideia em Arendt: A vida do espírito. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.

[2] Essa ideia em Sloterdijk: Morte aparente no pensamento. Lisboa: Relógio D’Água, 2012.

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8 Responses ““O corpo utópico” de Michel Foucault”

  1. Safira Reis
    21/06/2016 at 17:10

    o que você acha que Foucault diria sobre o aborto?

    • 22/06/2016 at 19:15

      Safira “o aborto”, assim dito, não existe. O que existe é uma longa e complexa história de se lidar com o corpo e com a infância.

    • Safira
      22/06/2016 at 21:31

      Se Foucault vivesse nesse século o que você acha que ele diria sobre o aborto?

    • 22/06/2016 at 22:30

      Safira, eu respondi, senão para você para alguém aí.

  2. Vítor Mazzuco
    04/05/2016 at 02:37

    Podemos dizer que, na relação erótica, possuímos, na verdade, não o corpo do outro, mas o nosso próprio?

    • 04/05/2016 at 03:03

      Foucault não fala em relação erótica, e sim amor. Propositalmente. E trata-se aí de uma situação em que a questão da posse não entra.

  3. William
    03/05/2016 at 14:41

    Poderia falar um pouco sobre a pergunta “onde estamos quando estamos pensando?” ou recomendar alguma leitura que ajude na compreensão de sua importância.

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