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25/03/2017

O corpo no centro da trama contemporânea


Deixando para trás a utilidade subjetiva de modo a ganhar valor de troca, a mercadoria põe-se como não tendo outra função que não a de se mostrar.  Adquire assim a condição de ser o que se mostra. Cria um mundo de espectadores e, portanto, faz da sociedade uma “sociedade do espetáculo”. Impera como imagem. Essa é a conclusão de Debord.[1] Heidegger diz que a modernidade é a “época das imagens do mundo” ou, mais acertadamente, a “época do mundo como imagem”.[2] O que é imagem ganha estatuto ontológico, definitivamente. O mundo dito real é, então, para os modernos, o mundo como imagem.

O regime da visão impera. O sensório ergue a cabeça. Os sentidos ganham do intelecto. A espaço configura-se no império dos sentidos e o homem torna-se fundamentalmente corpo. Acessa o corpo pelos olhos do corpo, pelas mãos do corpo etc. O corpo acessa o corpo. E se tudo é imagem, também o corpo é para se apresentar como imagem. Visor e visto se complementam e se potencializam. Uma sociedade voyerista se sobrepõe a qualquer outra formação.

Agamben diz que a modernidade é época da biopolítica: entra no campo político um novo componente: a vida. A vida torna-se valor primeiro e último. Mas, trata-se da “vida nua”, isto é, a vida essencialmente biológica. Portanto, falamos aqui do homem vivo que se apresenta fundamentalmente como corpo. Não se trata do homem antigo, fundamentalmente vivo por conta de laços políticos e sociais. Este, é claro, em uma época sem antibióticos e com mil e uma forma de desproteção, não iria colocar a vida biológica como valor. O homem moderno, ao contrário, é mimado – isto é, dedica-se a auto-atenção e assim pode fazer.  Ora, nada melhor para ocupar um lugar que é o “espaço de mimo”[3], como Sloterdijk denomina a invernada moderna ou os lugares de estufa, que o homem como corpo. O mimo é algo do relacionamento com a criança, e esta é antes sensória que intelectual. Nesse caso, a modernidade é a época da celebração do que realmente é o homem, o adulto de traços infantis. O resultado da apoteose da neotecnia.[4]

Eis que vivemos em uma sociedade voyerista que se articula do espelho à Internet, mimada segundo gostos infantis, isto é, gostos sensórios. Desse modo, como sociedade infantil, apresenta-se como um lugar relativamente sem culpa. Uma “sociedade desonerada”[5], no termos de Sloterdijk.

Só agora então podemos entender a razão pela qual, bem antes desse movimento se completar, alguns deram importância para o corpo em um sentido inusitado. Em meados do século XIX, Schopenhauer insistiu na capacidade do corpo de conhecer. Não se tratava de um conhecimento comum, normal, mas de uma função cognitiva de ordem não representacional. Logo depois, veio Nietzsche dizendo que o corpo era a Grande Razão e o espírito a obediente a Pequena Razão.[6] Esses filósofos pressentiram que tinham que munir o corpo de capacidades, pois ele seria, logo, o elemento central da modernidade. Não podiam deixá-lo de fora em uma narrativa filosófica com pretensões descritivas amplas.

Em uma época de conforto, de tempo livre, de internet com proliferação de imagens e de sistemas de cuidados de todos os tipos, fica fácil olharmos para trás e compreendermos as razões de Schopenhauer e Nietzsche terem procurando dar status ao que viria realmente a tê-lo até em demasia. Logo depois veio Dewey, falando em educação por atividade, inclusive corporal.[7] E o passo seguinte, mais atual, foi tirar a hiperatividade do campo exclusivamente médico, e mantendo-a como patologia, dar-lhe a normalidade relativa a ponto de poder ser diagnosticada e tratada por professores. O corpo hiperativo e que aprende antes por imagem que por texto é, assim, quase que um modelo e não mais uma desgraça. Saúda-se o déficit de atenção com hiperatividade em uma sociedade imagética e corporal.

Claro que, em uma sociedade assim, todos tenham que postar tudo na Internet, de modo que as coisas existam e de um modo eu permita que as próprias vidas ganhem aspectos de coisas vivas. Desse modo, a fofoca e a vida particular invadem o espaço público que se descaracteriza completamente. Os limites do público e do privado, heroicamente conseguidos pela burguesia, desabam em todos os países.  A própria política se torna importante, para alguns, se tem a ver com amantes de presidentes, ou roubos espetaculares, e não sobre suas propostas sociais.

Além do mais, se o sensório se exacerba e associa-se a uma educação simplificada pela imagem, também a literatura da auto-ajuda de “cientistas” da “neurociência” ganha lugar de destaque. Fala-se do tal “cérebro” e, então, todos têm a impressão que, por se estar falando de algo físico, se está dizendo mais da realidade de quando se estava falando de algo “psicológico”. Nunca se produziu tanta bobagem em textos como agora, nessa época do “cérebro” tornado herói de histórias que, na comparação, fazem os livros psicografados algo de alto valor literário.

Em mundo assim, do imperativo do corpo e do sensório, a própria atividade artística indica postura física, não mais pensamento. A comédia perde o enredo e é chamada significativamente de “stand up”. Sendo uma pantomima de baixa qualidade e funcionando no registro da perda de limites entre o público e o privado e na desonerada diluição da educação formadora, ela passa a computar como único modelo para o palestrante. Assim, professores e até filósofos são obrigados a se transformar em macacos saltitantes. Há filósofos em colunas de jornais e TV que aceitam esse papel e até se perdem acreditando que ainda são filósofos. Isso sem contar os que não são mesmo e se lançado no espaço da ignorância passam como se fossem.

Nessa sociedade a concentração, o pensamento e a antiga subjetividade ligada à consciência se esvaem de tal modo que as novelas deixam de ter personagens que pensam: todos os personagens, quando tem de revelar pensamentos, o fazem em voz alta. Tornam-se ridículos, pois falam sozinhos na tela ou, então, falam com outro personagem escolhido para ser um tipo de “ponto”, sem qualquer vida própria.  A própria técnica apressada da novela vê tudo isso como apropriado, pois ela tende a favorecer esse tipo de coisa uma vez que colocar o pensamento em voz baixa incluiria editar a trama de modo mais cuidadoso. A sociedade do capricho que é a nossa se vê, então, sem o uso da palavra capricho em seu melhor. O capricho que sobra não é o do fazer as coisas bem feitas, mas o de tornar tudo idiossincrático.

Em uma sociedade em que a subjetividade é arrastada pelo corpóreo o subjetivismo impera, e o vazio faz, de fato, Heidegger ter lá seu momento de auge ao descrever o tédio, é antes de tudo uma sociedade da leveza. Tudo é tão leve que parece nem existir. Tudo parece ser possível quando nada traz o peso da responsabilidade e, portanto, impera o tédio. Essa é a hora da insustentável leveza do ser. O perigo em momentos assim é que uma parcela dos jovens precisa de peso para se sentir real. Eles estarão ainda no campo imagético, para precisam estar nele fazendo algo “sério”. O fundamentalismo religioso abocanham jovens ocidentais exatamente nesse momento. Afinal, sabemos bem, Mussolini dizia que o fascismo odiava a vida sem dificuldade.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo

 [1] Debord, G. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 2000.

[2] Heidegger, M. Caminhos da floresta (Holzwege). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2002.

[3] Sloterdijk, P. O Palácio de Cristal. Lisboa: Relógio D’Água, 2008.

[4] Sloterdijk, P. Sin salvación. Madrid: Akal, 2011, pp. 109-52.

[5] Sloterdijk, P. Esferas III. Lisboa: Siruela, 2009.

[6] Explorei essas conclusões em trabalhos anteriores: Ghiraldelli Jr., P. O corpo de Ulisses. São Paulo: Escuta, 1995 e Ghiraldelli Jr., P. O corpo – filosofia e educação .São Paulo: Ática, 2008.

[7] Para um bom entendimento dos objetivos de Dewey vale a pena consultar Richard Rorty. Veja: Ghiraldelli Jr., P. Richard Rorty – a filosofia do novo mundo procurando mundos novos. Petrópolis: Ática, 1999. Sobre o movimento da escola nova: Ghiraldelli Jr., P. Filosofia e história da educação brasileira. São Paulo-Barueri: Manole, 2007.

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Professora de dança Helena Heyzer

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