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20/07/2017

O corpo que parece nosso – Heidegger, Nietzsche e Sloterdijk


Heidegger acreditava que Nietzsche não havia se desvencilhado da “metafísica da subjetividade”, uma das etapas, para ele, do trajeto condenável denominado “esquecimento do Ser”. Uma das “provas” fornecidas por Heidegger a respeito desse mal acabamento de Nietzsche foi a visão deste a respeito do corpo. De fato, o capítulo “Os desprezadores do corpo”, do Zarathustra, fala da “pequena razão” e da “grande razão”, sendo esta última o corpo, um agente de comando de nosso destino. Para Heidegger, aí estaria a última expressão da “metafísica da subjetividade”, pois o corpo, em Nietzsche, viria substituir a consciência, mas ainda assim seria um Eu, um sujeito tipicamente moderno, uma entidade unitária completamente humana, ou seja, demasiadamente humana.

A filósofa brasileira Scarlett Marton é quem, pelo que sei, tem a melhor leitura no sentido de complicar essa conclusão fácil de Heidegger. Ela lembrou outras passagens de Nietzsche em que o corpo não aparece unificado, não se mostra um Eu que se põe como sujeito. Nesse caso, ela cita aquelas passagens em que Nietzsche fala do corpo como um campo plural de seres vivos, com “vontades” (bem aspadas) diversas. Essa afirmação de Scarlett Marton sempre teve de ser relativizada como cabendo em uma “biologia” nietzschiana, que também teria de vir delimitada por aspas.

Como um filósofo que há tempos vem lidando com o tema do corpo, às vezes não de modo paralelo, fiquei curioso e entusiasmado a ler o artigo de Agnes Girard, Notre corps est-il humain? Ela recorre a fatos conhecidos, postos aqui e acolá por estudiosos atuais, a respeito da flora intestinal, mas também de como todo o nosso corpo é lugar de milhares de bactérias, se seres vivos que nos são vitais, que decidem muito sobre o que fazemos, representando mais de 80% das células que carregamos. Se pensarmos que vários desses seres são responsáveis pelo que podemos ou não podemos fazer no controle da absorção da serotonina, que é nosso regulador de felicidade, então realmente as questões de uma vontade celular plural, que não nos dá chance de uma atuação unificada e temporalmente fixa na mesmidade de um Eu todo poderoso, deixa de ser uma tese tida como algo do que seria especulação de uma “curiosa biologia de Nietzsche”. De fato, temos de considerar que somos um ecossistema, um campo de trocas e simbioses, alguma coisa feita antes do barro adamítico que da crença de um eu individual, autônomo, iluminista, forjado pelo liberalismo e referendado por Descartes e Kant filosoficamente.

A concepção de corpo fornecida por Agnes Giard, baseada em outros estudos de base, bastante relevantes, nos coloca na tentação de tirar qualquer aspas que poderíamos colocar a respeito de algo chamado de biologia de Nietzsche. Aliás, se começarmos a pensar o corpo a partir dessas disposições, certamente entenderemos melhor melhor a noções de ressonância e de antropotécnica de Sloterdijk, que nos afasta da dicotomia cultura-natureza, aliás, uma dicotomia que mais atrapalha que ajuda no nosso entendimento de nós mesmos.

Mesmo após todo alerta pós-moderno sobre as falhas da filosofia do sujeito, ainda estamos patinando nesta filosofia tradicional, às vezes falando não mais como Descartes, mas ainda falando como Habermas, em intersubjetividade linguística e coisas do tipo. Talvez tenhamos que levar a sério a ideia de que o corpo é um campo de ressonâncias, um sistema de comportas que pode lembrar, às vezes, uma cidadela de paredes tênues, porosas, com aspectos de bonecas russas umas encaixadas nas outras, mas de modo surreal, em que o maior cabe no menor. Começando por essa via, pode ser que consigamos dar passos maiores a respeito daquela desconfiança de Nietzsche quanto à ideia de que somos donos de nosso nariz para além dos gostos do nosso nariz. 

Para terminar: desde o colégio aprendemos  que mitocôndrias foram, no passado, animais com vida própria que, um dia, acabaram sendo incorporados pelo sistema em hoje estão, como meros órgãos.

Paulo  Ghiraldelli, 60, filósofo. São Paulo, 05/07/2017

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2 Responses “O corpo que parece nosso – Heidegger, Nietzsche e Sloterdijk”

  1. silvia
    19/07/2017 at 15:25

    Falando sobre Sloterdijk, eu sei que ele retoma o conceito de “sujeito” que, como o senhor conta no seu livro “Aventuras da Filosofia”, foi deixado de lado pela filosofia continental. Ele está certo em retomar depois das críticas a esse conceito por vários filósofos?

    • 19/07/2017 at 15:29

      Ele está certo, eu avalio, pois ele retoma de uma maneira que não fere o espírito da filosofia contemporânea, ou seja, ele não sai do projeto de desinflação metafísica que é o tom da filosofia contemporânea. O conceito de antropotécnica me parece um dos elementos que ele tem para manter o projeto de desinflação.

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