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20/07/2017

O belo, a mentira e o desprestígio de Deus


A caminho da peregrinação em busca de um quentão de festa junina, Fran e eu paramos diante do jardim da casa de um vizinho para admirar uma flor. Belíssima. Muito antes de ter celular na mão, Fran sempre gostou de fotografia, então, nessa oportunidade, não deixou de registrar o quadro. Ao bater a foto, exclamou: “tão linda que parece de mentira”.

Quantas vezes não pronunciamos essa completa heresia? “Nossa, é linda, parece uma boneca”. “Olha só que paisagem, parece feita à mão”. Já faz algum tempo que nós, filósofos, perdemos a mania platônica de comparar o belo natural com o Belo, a forma pura com direito a status ontológico. Já faz também certo tempo que os não filósofos já não dizem mais o que Santo Tomás de Aquino dizia, que Deus é um artista, o melhor artista. Não! Transferimos o poder de realizar o belo para o homem e, portanto, não mais para a verdade, e sim, declaradamente para a mentira, para o artefato. Continuamos usando a palavra “artificial” como pejorativa, e a palavra “natural” como sendo algo de bom valor. Mas, que não nos enganemos por essa semântica, pois o que vale no nosso vocabulário atual é colocar a verdade do lado oposto da beleza. Platão e  Deus perderam a guerra semântica instaurada desde o Renascimento.

O Renascimento fez o homem acotovelar Deus. Depois, com a modernidade e o advento do mundo da mercadoria, as maravilhas deixaram até a própria mão do homem para virem de algo que, apesar de feito pelo homem, não é individual, e se perde na sua identidade: elas vem da fábrica, da empresa, da genialidade da produção em massa, ou seja, trata-se do fim do artesanato e da assinatura da obra. Foi nessa passagem que a palavra mentira entrou na jogada sem qualquer pudor. Por isso ela veio para a boca da Fran: a bela flor era tão bela que não poderia ser algo verdadeiro, ou seja, algo que correspondesse ao enunciado “é uma flor bela”, pronunciado por Deus na sua confecção, já que Deus é aquele que fala e ao mesmo tempo faz.

Estamos convencidos hoje que aquilo que é belo assim o é por estar longe da verdade. Abolimos de vez a ideia básica da filosofia grega clássica, e também da filosofia cristã na ordem do catolicismo, de que Verdade, Belo e Bem fazem parte de uma trindade unitária. Fomos empurrados para a noção de que frases do tipo “isso é belo” e “isso é verdadeiro” não podem mais ser trocadas uma pela outra, não mais possuem nenhum grau de sinonímia. Essa trindade era, de fato, incômoda. Mas o que temos em mãos hoje, como instrumento de conversação, também não deixa de nos incomodar. Afinal, se “verdadeiro”, mesmo para não pragmatistas, tem a conotação de um juízo de valor, e no caso o juízo de valor positivo, desloca-se agora para a mentira. Ela, a mentira, carrega o dom atual de sobre-adjetivar o belo.

Essa revolução semântica sorrateira é um objeto da filosofia. Estamos só no início da investigação que pode nos fazer entender para onde caminha nossa conversação nos tempos contemporâneos.

Paulo Ghiraldelli, 60, filósofo. São Paulo, 26/06/2017

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6 Responses “O belo, a mentira e o desprestígio de Deus”

  1. Orquidéia
    01/07/2017 at 08:20

    Vejam. Tão exuberantes que parecem de plástico.

    http://asecretforest.typepad.com/.a/6a0133ec89b204970b013484a988f1970c-pi

  2. LMC
    29/06/2017 at 12:09

    Um colunista da Folha perguntou
    porque não tem protestos nas ruas
    contra Temer.É que essa gente
    tem o mesmo pensamento do
    João Doria,achando que vivemos
    numa ditadura comunista do PT
    (??????????).

  3. josé fernando da silva
    27/06/2017 at 12:34

    São diferentes, mas com um vínculo interno. Pelo belo chegamos ao sublime e também à verdade, dependendo de como a conceituemos.

    • 27/06/2017 at 18:09

      Pelo belo NÃO chegaremos a verdade, uma vez que a modernidade é justamente essa desvinculação no interior do máximo da virtude que une Bem, Belo e Verdade. E talvez isso não seja propriamente uma questão de conceituar a verdade, não seja uma questão epistemológica, e sim uma condição ontológica – essa é a tese do texto.

  4. josé fernando da silva
    26/06/2017 at 17:25

    Espero que o uso que tende a aproximar “belo” de fatores superlativos tenha apenas se tornado uma prática linguística periférica, mas ainda efetiva, conquanto enfraquecida. Creio creio o vínculo de “belo” com “sublime”, “verdade” etc. mostra o quanto ainda somos capazes de nos espantar com o mundo e tudo que este subsome. Mas, de fato, “belo” parece cade vez mais ser um produto, elaborado por críticos e estetas, que mimosamente as pessoas compram…

    • 26/06/2017 at 19:38

      Belo e sublime são coisas bem diferentes. Verdade nada tem a ver com sublime, mas com o belo, sim, tinha, e muito.

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