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30/05/2017

O ânus que tudo absorve chegará ao fim


Sem psicanálise. Sem luta de classes. Quero voltar a falar desse buraco famoso, o ânus. 

Para saber se uma pessoa é escolarizada ou não, ou seja, bem escolarizada, basta saber se ela consegue ou não entender uma conversa séria sobre o ânus. Caso não, esqueça, não há lugar para tal pessoa numa roda intelectual. Digo isso por uma razão simples: se há algo no corpo que nos faz pensar e falar é o ânus, e não levar isso em conta quando queremos entender a nós mesmos, os ditos seres humanos que Platão chamava de bípedes-sem-penas, é simplesmente não saber fazer boa pesquisa. Falamos demais do ânus, e isso já há mais tempo do que os que não sabem nada de antropologia podem imaginar. Portanto, se vamos fazer alguma descrição de nossas mudanças éticas, de nossos diversos ethos, é bom que tenhamos algum saber sobre por que falamos do ânus. Qual nosso interesse nisso?

Quando usamos o ânus para defecar, ficamos em uma posição só equivalente a outras duas: a do sono e a do ato sexual. Ou seja, saímos da posição de guarda para a posição de quem pode ser atacado de surpresa. Nossa não-vigília é o perigo maior. O êxtase sexual e o defecar também nos põe, ainda que em menor tempo que o sono, diante de uma não atenção e, portanto, à mercê do perigo do predador ou do inimigo. Isso nos fez pensar muito cedo no sono, no sexo e no defecar. Talvez mais cedo do que as condições pelas quais já podíamos nos ver com hominídios. O ânus apareceu aí de suma importância, pois ele participa de dois desses três atos. Podemos estar defecando ou podemos, na falta do cio da fêmea, estar utilizando do ânus para o sexo, e eis que surge o momento do descuido, o momento do império do predador ou inimigo. Mais descuido para quem está de quatro sendo penetrado do que para quem ainda mantém algum controle a respeito do arredor e da linha do horizonte, aquele que está apanhando o outro por detrás.

Assim, quando estamos expondo nosso ânus, estamos diante de uma situação de não-poder. É fácil inferir que essa situação de não-poder, de vigília baixa, pode muito bem caminhar para o plano simbólico como uma representação de derrota e submissão. Não é tolice, então, imaginar como que o coito anal tenha se tornado alguma coisa tão problemática para nós, além de tudo o mais que se refere ao ânus. Para os gregos antigos, pelo costume que veio dos dóricos, a relação entre homens era alguma coisa bem positiva, e, no entanto, o coito anal nunca foi lá muito incentivado. Sabemos o quanto se educavam os gregos para o comportamento não feminino, ou seja, a manutenção da regra que evitava que o amor entre os homens, o incentivo da pederastia, feminilizasse os guerreiros. Deixar-se penetrar, ficar de quatro, sempre esteve associado ao não-poder, ao feminino, ao que não é responsável pela guarda, enfim.

Em uma sociedade moderna e de mercado, que exige a paz a qualquer preço para funcionar, e que por isso elimina de vez a necessidade da virilidade de tipo antiga, é claro que a simbologia que liga o ânus aos mecanismos de poder podem começar a se desfazer. Não é fácil, mas isso já está ocorrendo. Aos poucos, a sociedade começa a mostrar que o amor gay não é necessariamente amor que se satisfaz por relação anal prioritariamente. A própria ideia, vigente até pouco tempo, de classificar homossexuais em ativos e passivos tornou-se algo ridículo. Também caiu por terra a atitude feminista de ter de ficar por cima do homem no sexo – uma visão americana do sexo que, hoje, está completamente em desuso. Paulatinamente a “sociedade da leveza e do mimo” (Sloterdijk) vai nos tornando mais capazes de nos desvencilhar da simbologia entre posição sexual e poder, entre ânus e humilhação, entre ânus e controle.

Além disso, numa sociedade de mercado, completamente ligada à abundância e ao mimo como a nossa (criamos a eletricidade, reduzimos a jornada de trabalho, cuidamos de mães e pobres, somos capazes de tornar tudo um jogo e um divertimento etc.), à medida que os mecanismos simbólicos de poder abandonam suas fortes ligações com as posições corporais ou então criam outras mais desligadas da imagem da virilidade tradicional, mais o próprio comércio pode se aproveitar disso. A cena de sexo entre homens na novela Liberdade Liberdade  (Rede Globo) mostrou um grande audiência. Isso logo vai fazer aqueles ainda relutantes mudarem de opinião. Nós veremos várias igrejas cederem ao amor homossexual, até mesmo veremos esse tipo de amor e sexo ser recomendado em nossa vida moral e religiosa. E isso ocorrerá ainda nessa primeira metade do século XXI, em todo o Ocidente.

Ao terminar o século XX, teremos terminado uma revolução corporal. Terá sido uma revolução anal, uma revolução sobre a importância do ânus. Peças como a dos Macaquinhos não chamarão a atenção de ninguém, talvez. E se existirem restolhos de reacionarismo velho lá no final do século, eles estarão se escandalizando com outra coisa. Os dias de prestígio negativo do ânus estão com os anos contados (com o perdão do trocadilho). Depois, também o prestígio positivo desaparecerá. O século XXI será visto historicamente como um século de redesenho do corpo humano. Será o século do último cantar de galo do ânus.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo

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11 Responses “O ânus que tudo absorve chegará ao fim”

  1. Lucas
    20/07/2016 at 19:47

    Se de um lado falar em “ativo” e “passivo” tende a se tornar um anacronismo simbólico para a sexualidade que venha a medrar, de outro, sou dos que acreditam que os sintomas, no plano do suporte biológico, tendem a permanecer, com a maioria dos homens e mulheres de pupilas dilatadas (me parece que há um tal sintoma) mais pelo sexo oposto que pelo mesmo sexo , independentemente do comportamento sexual, tal como crianças no maternal, que se mordiscam, se babam e se esfregam com distintas taras para com crianças do mesmo sexo e do sexo oposto.

  2. Luiz Elesbao Maciel
    20/07/2016 at 12:16

    Parabéns! Caríssimo Paulo,
    Muito bem escrito, esclarecedor… Bem legal utilizá-lo no ensimo médio , assim como na universidade para dialogar, tabu.

    • 20/07/2016 at 12:54

      Luiz escrevo para inteligentes. Para gente que quer pegar o touro na unha.

  3. Felipe
    20/07/2016 at 03:42

    Texto muito bem escrito e claro. Acredito também na superação desse tabu em breve.

    Esses dias vi um crentelho dizendo que se isso fosse bom, Deus teria criado “Adão e Ivo” e não “Adão e Eva”.

    Eu nem falei nada.

    • 20/07/2016 at 09:22

      Felipe, há buracos que nos fazem cair neles.

  4. Valmi Pessanha Pacheco
    14/07/2016 at 12:37

    Prof. PAULO

    No fundo, no fundo mesmo (sem trocadilho) tudo é uma questão de esfínctéres: dos volitivos e daqueles que não estão sujeitos à nossa vontade.
    Valmi Pessanha

  5. Pr. Bosco
    14/07/2016 at 11:30

    Repugnante ler isso! Toma vergonha na cara

    • 14/07/2016 at 13:07

      Repugnante é ver no Brasil, em pleno século XXI, um adulto desescolarizado!

    • 21/07/2016 at 15:28

      O texto do filosofo Paulo Ghiraldelli é para os escolarizados e politizados.

  6. LMC
    14/07/2016 at 10:34

    Beijo gay na TV do padre Marcelo Rossi.
    É o Brasil,minha gente!!!!

  7. 13/07/2016 at 15:29

    Muito interessante!!! Amaria fazer parte da roda!!

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo