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20/09/2019

O amor justifica tudo


O amor tem sacrossantos poderes. Ou acredita tê-los. A traição de um cônjuge pretende ser justificada com o amor. O sexo da filha no quarto de casa também. Até mesmo assassinatos, se cometidos por amor, podem ser julgados com mais condescendência. Mesmo que não aceitemos essas ocorrências, o amor é lançado sobre nós como o que tudo limpa. Quem despeja esse poder do amor sobre nós em forma de frases do tipo “mas é por amor” ou “mas eu o amo verdadeiramente” acredita, não sem razão, que vamos ter de engolir o que nos contraria. Não está errado ao fazer isso. Não raro, em alguma medida, acerta o alvo.

Deveríamos ter claro para nós que o amor tem uma importância enorme, mas que nada é senão um potencial poço de frustrações. Amor de homem e mulher, amor de pais, amor de irmãos, amor de filhos, amor jovem e amor velho, amor duradouro ou breve, todos esses amores carregam um bomba relógio interna. Um dia, explodirá. A chance de acontecer a explosão é muito mais alta do que a chance de não ocorrer. Lidamos com essa instabilidade e conferimos a ela poder para chamar nossa aquiescência. Ora, justamente algo que não tem característica de verdade, porque esta é, na tradição filosófica, sinônimo do que é perene, ganha sobre nós um domínio imenso, contrariando todas as expectativas. Confiamos no inconfiável, ou seja, no contingente par excellence. Não é estranho?

No entanto, não desistimos dele, do amor. E mais, contra várias fortes evidências, confiamos nele como elemento de mudança e o glorificamos como um fator único que pode justificar tudo aquilo que por outras vias seriam injustificáveis. De onde vem esse poder matreiro que o amor possui?

Conversando com Contardo Calligaris em um Hora da Coruja, ele contou a nós, Francielle e eu, que ele acredita que o amor é de fato a única força transformadora real com que ele conta. Ou seja, na psicanálise tudo se dá, em suma, pelo processo de transferência, e este é um processo que ou envolve amor ou não ocorre.

Fiquei pensando então o quanto a psicanálise depende de um modo tipicamente ocidental de pensar, ou seja, o quanto ela está vinculada, como tantas outras coisas (como a nossa filosofia ou a política ou a pedagogia), aos processos que só confiam em Eros como elemento real da mudança da vida. Não são poucas as nossas práticas que só se fazem por causa da confiança de que a força da união (ou seja, a força do amor,) se põe em movimento, e se isso não ocorrer nada de fato ocorre. Desse modo, ainda que o amor apareça desacreditado, piegas, algo do chove-não-molha, há um elemento dele que nos faz acreditar, há muito, de que se temos que alterar algo só o amor poderá fazer isso efetivamente.

Assim, quando evocamos o amor para justificar seja lá o que for, estamos calçados, é claro, em um processo ideológico. Mas é uma ideologia que, como toda ideologia, tem um elemento de doutrinário de verdade, isto é, um elemento que nos ganhou em determinado momento como confiável. Eros foi importante quando tinha vida própria e manteve importância, ou talvez até tenha crescido de notoriedade, quando deixou de viver por aí e se acomodou no interior do coração humano e, agora, na química cerebral ou na alma.

Do mito Eros ao amor verdadeiro que é, para nós, um mito, estamos sempre sentados nesse campo ilusório de completa verdade.

Não temos encontrado nenhum elemento de justificativa melhor. Não no Ocidente. Aliás, só no Ocidente.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

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4 Responses “O amor justifica tudo”

  1. 28/01/2016 at 19:31

    Bom texto! obrigado Paulo Ghiraldelli, eu amei!

  2. Orquidéia
    20/05/2015 at 06:02

    Um coração partido
    só se cura com a colagem
    das suas partes quebradas
    e na recuperação da temperança
    para continuar a comandar organismos
    e causas
    porque ele é o “dono da verdade”,
    administra os instintos
    e é o único ser vivo
    que pode nos manter ativos
    por causa da esperança.
    _minha autoria.

  3. Pedro de Faria
    19/05/2015 at 17:32

    Belo texto! O poeta português Pedro Mexia diz que o Amor é como o Comunismo. Nenhum fracasso mostra a sua insuficiência, inviabilidade ou maldade. O verdadeiro e puro ainda não foi encontrado…

    • ghiraldelli
      20/05/2015 at 10:11

      Boa Pedro!!!

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