Go to ...

on YouTubeRSS Feed

22/10/2017

O aborto e o argumento da “propriedade do corpo”


“Meu corpo, minhas regras”. Essa frase tem aparecido em cartazes e mesmo no corpo das novas feministas. A chamada “Marcha das vadias” tem repetido isso. A ideia básica é a seguinte: “se eu digo não, então é não, ou seja, não quero sexo”. Ou então: “visto a roupa que eu quero e isso não lhe dá o direito de me abordar sem meu consentimento prévio”. Essas frases, não explicitamente e sim de modo indireto, fazem parte de um conjunto maior a respeito da apropriação do corpo da mulher pela mulher.

As frases são novas. O tema do aborto é velho. Mas o tema do aborto é, agora, também caudatário dessa maneira de conversar.

“A mulher e só a mulher é dona de seu corpo”. Eis aí uma frase das feministas e da maior parte dos movimentos ditos de esquerda. Na sequência dessa frase há sempre a bandeira da descriminalização do aborto. O argumento desses grupos é o mesmo há décadas: primeiro, só a mulher pode decidir se ela vai ser portadora de um filho e deve dar a luz ao garoto ou não; segundo, há mulheres morrendo por causa do aborto clandestino, e a quantidade não é pequena.

Os dois argumentos são frágeis. Aliás, se olharmos bem, o primeiro é um argumento libertário de caráter conservador. O segundo é um argumento que beira um arremedo de utilitarismo inglês.

Brevemente, abordo ambos.

Primeiro. Do ponto de vista individual, dizer que a mulher é proprietária de uma criança por causa de que um bebê está como que um órgão no seu corpo é, para muitos, um erro. Vamos supor que um bebê não seja um ser vivo, ainda assim a frase não convence muito. É fácil encontrar quem nos lembre, não sem razão, que ninguém pode sair por aí arrancando seus órgãos. Estamos conscientes, é claro, e não de maneira tola, da tese de que se o indivíduo é individual isso não equivale à afirmação de que ele pode ser irresponsável socialmente. Podemos sair por aí sem cinto de segurança na base de dizermos que “a vida nossa”? Ninguém mais acredita nisso, fora aqueles que dizem que querem ter “o direito de ser idiota”.

Segundo. Do ponto de vista da coletividade, para endossar uma prática qualquer levando em conta o que é feito, ou seja, o que “já acontece na realidade”, é necessário estar realmente convencido que o que é feito é efetivamente menos mal do que o que se pede em troca. Ora, muitos entre nós, e que são razoáveis, não se sentem confortáveis em dizer que podemos ficar arrancando órgãos de nosso corpo por aí, legalmente, porque do contrário as mulheres vão arrancar mesmo, ilegalmente, e então morrer.

Assim, a partir de uma argumentação dentro de uma ética laica, e mesmo com um tom pragmático, ou seja, a partir de uma ética que não está discutindo metafisicamente quando a vida começa, é difícil assimilar “meu corpo, minhas regras” quando tal frase quer servir ao “deixe-me arrancar um rim ou um pulmão ou um feto” no hospital público, porque se você não me deixar fazer isso no hospital público eu vou arrancar em casa! Ou então: “eu corto minhas unhas e meus cabelos, por isso posso cortar outras coisas do meu corpo”.

Mas há mais ainda contra essa argumentação que pede a liberação do aborto, e que em época eleitoral se transforma na expressão evasiva “aborto é uma questão de saúde pública”. Trata-se da constatação de que os tempos são outros. Não estamos lidando com a situação da gravidez inexorável. O número de métodos anticoncepcionais cresceu muito. Há até as pílulas pós-coito, e para mais do que um ou três dias após o sexo. Financeiramente, o estado e a sociedade gastaria menos energia em campanhas de distribuição de tais pílulas e de uso de camisinha que por meio de qualquer outro procedimento. Sem contar que, no caso do uso da camisinha, a questão de se prevenir doenças tornou tal campanha um imperativo. Não há como não fazê-la. Desse modo, a própria não concepção já é exigida pelo uso de camisinha em uma sociedade como a nossa, que não pode deixar de não só fazer a campanha pelo seu uso como ampliá-la a cada ano. Uma sociedade que faz campanha para que as meninas antes do início da vida sexual tomem vacina que irão protegê-las um ou dois anos mais tarde, quando se iniciarem sexualmente, está pronta para fazer campanhas mais fáceis, capaz de instruir sobre tudo o mais a respeito de prevenção de filhos, doenças etc.

Esse último argumento é decisivo em relação ao tema do aborto. Muitas feministas, diante dessa argumentação, ficam desarmadas. Agem então como aquele que quer justiça social e, para tal, nunca abre mão do nome “marxismo” e “socialismo”. Quer ver sua doutrina vencer no mercado de doutrinas mais do que quer ver a justiça social sendo implantada. Assim agem tais feministas. Querem o aborto hoje porque as feministas de ontem queriam. Elas não podem pensar diferente do que já foi pensado! Sentem que estariam “traindo a causa” ao se tornarem mais inteligentes. Sentem-se derrotadas mesmo se obtiverem uma vitória por outros meios.

Agora, se o argumento pró-vida voltar à baila, então mais ainda as feministas não poderão falar. E isso não porque os que vierem a fazer objeção a elas poderão lançar mão da divinização da concepção. Nada disso. Poderão simplesmente falar porque qualquer nietzschiano sabe que, de um ponto de vista nada religioso, a afirmação da vida é algo que tem nos conquistado atualmente.  Somos cada vez mais a favor da vida dos animais, da vida feliz para as crianças enquanto são crianças de qualquer idade, da vida saudável da mulher, da vida dos que não mereciam viver. Afirmar a vida como Nietzsche nos coloca, hoje em dia é, em grande medida, uma reafirmação da vida, em um sentido social, como Marx também nos sugeriu. O cristianismo pode ser um desvalorizador da vida. Os não religiosos não.

Desse modo, parece que as feministas precisam se tornar mais criativas. Do modo que fazem para querer liberar o aborto, não ganharão das forças mais progressistas que podem até estar com elas, mas que, nesse quesito, não creio que as acompanharão. É difícil hoje para o pensamento esclarecido achar que podemos falar para as mulheres coisas como: “vocês são todas umas vítimas, umas ignorantes, umas pobres e burras, e por isso nós vamos arrancar tudo que vocês colocam no útero, dado que não sabem nem mesmo fazer um coito direito”. É isso que as feministas estão dizendo para as mulheres quando começam a divinizar o aborto como um símbolo de liberdade. Ora, nós não temos o direito de ofender as mulheres assim – temos?

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

Tags: , , ,

5 Responses “O aborto e o argumento da “propriedade do corpo””

  1. Fabio
    06/10/2014 at 01:46

    A “liberdade” sempre anda junta da responsabilidade, ainda mais hj que há muito meios de se evitar uma gestação. Uma liberdade sem responsabilidade é como diriam uns libertinagem. A não aceitação de parametros metafísicos, e a busca por parâmetros científicos para mim não resolve muito, Cientistas como Carl Sagan quando tentaram abordar isso, só fizeram c…, a ciência não trabalha com certezas, e possibilidade do incerto(da ciência não estar certa naquele momento) como agente faz? E se é pra responder com Nietzsche : O remorso é indecente, que não abandonemos nossos atos uma vez que foram consumados”. Sejamos fortes com nossos atos, e aceitando a vida no que tem de bom e no que nos desagrada. Pois muitas vezes quando se opta pelo aborto só esta pensando nas conseqüências ruins da gravidez, de forma egoísta. E próprio Nietzsche percebe que um absoluto moral focado na liberdade é ilusório. Por isso ele coloca este absoluto moral na vida.

    • 06/10/2014 at 08:40

      Fábio, tudo isso que você falou é conversa para boi dormir, moralismo disfarçado. Essa coisa de libertinagem, responsabilidade etc. E transformar Nietzsche em um absolutista, um tipo de religioso, foi o pior.

  2. Cristiano
    28/09/2014 at 17:24

    Saindo da questão do feminismo, que achei muito bem colocada, será que chamar as pessoas pra dialogarem sobre o que desejam, nesse caso, o aborto, tratar o assunto com parcimônia, com prudência e com franqueza, não há como se tomar uma decisão melhor e mais madura, independentemente do tempo, do ultimato? Penso que, se se dá 3 dias para a decisão final, não há como que trabalhassem com 1, 2 ou 3 meses, desde que se não negligenciassem aspectos científicos à vida da mulher.

  3. Logan
    26/09/2014 at 20:33

    Onde é o link de curtir? Há tempos eu não encontrava uma opinião tão bem argumentada, com argumentos que eu mesmo gostaria de ter mas nunca soube encontrá-los ou criá-los. Posso não concordar com algumas outras opiniões suas, mas esta está de parabéns.

    • 26/09/2014 at 22:55

      Logan eu NÃO DISSE que sou contra o aborto. OK? Cuidado. Não embarque comigo fácil.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *