Go to ...

on YouTubeRSS Feed

23/10/2017

A novela nossa de cada dia, nos dai hoje!


O filósofo americano Richard Rorty gostava da classe média americana, onde vive o chamado cidadão comum estadunidense. Rorty foi um filósofo pragmatista, o cidadão comum moderno (mesmo na França e na Argentina!) é um pragmatista sem ter lido qualquer coisa do pragmatismo de William James ou John Dewey. O cidadão comum moderno é em geral politicamente pragmático.

Para ele, a direita e a esquerda políticas pouco importam caso, uma vez no governo, não atuem no sentido de lhe dar uma vida razoável. O cidadão comum irrita sobremaneira aqueles que querem tomar o mundo de assalto. Irrita principalmente o professor de filosofia ativista que se imagina um Lênin ou, com mais insanidade ainda, um Sartre. E fustiga mais ainda o professor vindo das ciências sociais! Hoje em dia no Brasil, às vezes, fustiga também os neoconservadores de frauda, que querem imitar um Carlos Lacerda ou um Paulo Francis, mas que não sabem onde se pode colocar o ponto e vírgula.

A esquerda e a direita são antes a hiperpolitização que a politização. São posturas que cobram ação, ainda que a esquerda tenha a fama, nem sempre justa, de ser mais intelectualizada que a direita. Então, por sua própria natureza, a função de telespectador, que boa parte do cidadão moderno herdou de certo comportamento da “sociedade de corte” e seu entorno, não agrada os militantes políticos. O mundo do Antigo Regime sempre teve uma população fascinada com o rei. A etiqueta, as danças, os jogos com exercícios de guerra, a vida do palácio e tudo o mais eram o espetáculo para o povo. Quando veio a queda do Antigo Regime, a guilhotinas e forcas substituíram os salamaleques, mas ainda assim tudo se fez para que houvesse audiência, “ibope”. No final do século XIX, quando Napoleão há tempos já havia aburguesado a Europa e espraiado a “nova vida” para rincões aparentemente inalcançáveis para os do Velho Mundo, o espetáculo político passou a dividir as atenções com mais outras formas de entretenimento. O folhetim ou a novela jornalística ganharam aplausos nas casas da burguesia em geral, e alguns dos autores dessas peças eram os mesmos dos romances um pouco mais preparados postos nas bibliotecas da aristocracia. Quando o século XX trouxe o rádio e a TV, a prática do folhetim veio para o âmbito da voz e da imagem, e isso de um modo multiplicado, criando um hábito de entretenimento com hora marcada que somente agora, com a Internet, sente alguma alteração. O século XX deslocou de uma vez a atenção da população, esta deixou de ver os seus governantes e o campo político como atração, a não ser em casos de corrupção, que se parecem exatamente com a novela. A direita e a esquerda se ressentiram. Os políticos já haviam acostumado, desde Alexandre o Grande e os Césares, a serem eles o entretenimento popular. (Talvez façam corrupção apenas para voltar a aparecer!)

Quando a novela surgiu no rádio e na TV e passou a substituir de vez o folhetim, tornando-se algo não só do gosto da mulher, mas também do homem, esses grupos políticos se insurgiram contra a mídia. De ambos os lados foram criadas versões popularescas de “teorias da alienação”, com a função de dizer o quanto a TV poderia ser o fator de “desagregação social”, “desagregação familiar”, “falta de patriotismo”, “manipulação do povo”, “indução ao consumismo” etc. Hoje esse tipo de narrativa que se pretende crítica não mais pertence aos escritores sofisticados do campo da crítica da mídia e da filosofia política, mas ainda permanece vigente em certos setores que chegaram e ainda chegam tardiamente às frases mais populares do que foi o pensamento crítico. Essas pessoas escutaram o eco dos intelectuais que, legitimamente e com sentido diverso, criaram as chamadas “teorias da alienação” com alguma base filosófica, e elas copiam tais vozes, mas em forma de pastiche, de modo a acreditar que estão fazendo algo inteligente. Imaginam que estão desvendando mistérios e se diferenciando dos seus vizinhos que “não sabem nada” e que “estão lá, presos na novela”. Gente assim às vezes arrisca até dizer “prefiro um bom livro”, e aí saca da bolsa 50 tons de cinza e depois nos ameaça com um Paulo Coelho.

A crítica da mídia, já defasada, não raro, passou para o campo da pseudo inteligência. Na universidade funciona por meio de uma versão simplória de frases da Escola de Frankfurt, ditas não só pela boca de gente de esquerda, mas também de direita. Fora da universidade, nas redes sociais, se nota algo um pouco mais amplo. Trata-se da fala da dondoca vinda da manifestação de direita para a manicure, ou do sindicalista que acabou de vir de um palanque de greve pelega para o computador; em ambos os casos escutamos a reclamação a respeito da Rede Globo. “Novela? Deus me livre!” dizem esses gênios de carteirinha.

A esquerda e a direita política reclamam da Rede Globo, principalmente de suas novelas, pela “alienação” que causariam, mas não sabem muito bem o que é alienação e não fazem ideia de que nós manipulamos a TV, e ela nos manipula bem menos do que o senso comum imagina (em uma votação ao vivo Datena esperava um resultado e o resultado começou a ser outro, e ele teve de mudar seu discurso ao vivo – e assim fez, com a maior cara lavada do mundo). Aliás, se há algo pouco analítico e a tal noção de “manipulação”.

Mas, independentemente desse pessoal, paulatinamente a teledramaturgia brasileira se firmou não só como um gênero de entretenimento popular, mas como um gênero de literatura, alcançando em algumas peças o mesmo status que determinados filmes ganharam ao adaptarem livros clássicos. O cinema brasileiro que nunca deslanchou e o teatro brasileiro que sempre foi um pouco caro, viram na novela, então, uma chance de ouro de não perder um grande contingente de atores, diretores, roteiristas e escritores de talento. Peças como “As pupilas do senhor Reitor” e “Antonio Maria”, da Record e da Tupi respectivamente, se imortalizaram e acolheram para a galeria do merecimento peças como “Roque Santeiro”, “Vale Tudo” e “Éramos seis”, as duas primeiras da Globo e a última do SBT.

Essas novelas são escritos clássicos (algumas vindas de livros clássicos), porque acolheram uma experiência de época e de lugar e conseguiram, sem que tal particularidade desaparecesse na abstração, se tornarem capazes de ganhar apreciação pelo “gosto universal”. É isso a função de um clássico. Muitas novelas conseguiram esse feito. Até hoje Lucélia Santos é amada na China e em Cuba, como celebridade, por conta de “Escrava Isaura”.

Ao menos o pessoal da própria TV sabe que precisa distinguir as diretrizes da empresa em que trabalham e o seu próprio trabalho artístico. Os que não conseguem distinguir isso, os militantes da direita e da esquerda ou mesmo alguns atores deslumbradinhos e uma parte dos pseudo-inteligentes que vemos pelas redes sociais, esses continuarão, às vezes, nos fazer ficar com vergonha alheia.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo. Professor da UFRRJ e autor, entre outros, de A filosofia como crítica da cultura (Cortez, 2014).

Tags: , , , , , , , , ,

7 Responses “A novela nossa de cada dia, nos dai hoje!”

  1. Lais
    26/06/2017 at 10:13

    Caro senhor, só você sabe das coisas? Por que, na sua concepção, uma pessoa que não gosta de novelas tem que necessariamente ser pseudo-alfabetizado? Não gosto de novelas, são previsíveis, entediantes e repetem sim, uma ideologia das mais perversas. Novelas são extremamente alienadoras e põem goela abaixo dos tolos “verdades” que convém a quem escreve e a quem veicula. Campanhas “educativas” e “problematizações” que elas abordam, esboroam-se no ar logo depois que elas terminam. Novelas são chatas e seu artigo é preconceituoso, generalizador e você com certeza é mais um daqueles intelectuais que só compreendem o mundo a partir de sua ótica. Odeio novelas. Pra terminar, no trecho “às vezes, fustiga também os neoconservadores de frauda, ” se o senhor quis se referir aos novatos usando a palavra fralda, dá pra perceber que o senhor é também pseudo-alfabetizado. Que raiva dessa gente pretensiosa e que se julga dona da verdade.

    • 26/06/2017 at 10:22

      A novela é um folhetim, se você não gosta de folhetim, de romance, de livro, você é uma pessoa que não passou pela educação comum, e aí, minha filha, você fica aquém de outros. Há pessoas que não passaram por educação musical, educação em artes plásticas e, enfim, há os em piores estados, como você, que sequer passou pela educação que forma o gosto pela literatura e não aprendeu que novela é um gênero literário. Você é daquelas pessoas que não podem apreciar Ciranda de Pedra, novela da Rede Globo, do texto de Lígia Fagundes Telles. Meus pêsames senhora! Não sou dono da verdade, mas você é dona, sim, dona da estupidez. Telecurso prá você. Ajuda. Pegue o da Globo.

  2. 01/11/2016 at 18:58

    Não se esqueça de mencionar a inesquecível “Água Viva, Tv Globo, de Gilberto Braga, levada ao ar em 1980. Já naquela época eu era um noveleiro inveterado, sem ter vergonha de meus colegas, um tanto machistas, naqueles tempos.

  3. Pedro
    05/04/2015 at 16:30

    Concordo em partes com o assunto sobre as telenovelas, mas será que estes folhetins contemporâneos não são prejudiciais à sociedade por fomentarem a criação de estereótipos de que negros são bandidos? ou induzir a sexualização precoce de muitas crianças? ( embora exista as faixas etárias para que jovens não assistam as novelas)
    Me corrija se eu estiver errado

    • 05/04/2015 at 16:32

      Sim, você está errado. Você não vê TV e se vê não entende. Ou seja, você pensa que TV é para dar lição de moral. Não sabe o que é um folhetim. Aliás, o folhetim atual até faz muito do que você pede. VEja ao menos Babilônia, preste atenção.

    • Rafael Costa Sanches
      01/11/2016 at 22:29

      Pedro, você deveria prestar mais atenção em algumas novelas.
      Muitas delas, principalmente as dda nove, tratam de temas cabeludos para a sociedade de uma forma muito mais liberal que muitos setores políticos.
      Babilônia ousou em colocar duas mulheres se beijando, mas não eram as atrizes gostosas, eram duas velhas. Velho pode ter sexualidade e também ser gay.
      A questão do preconceito racial também foi tratada em outras novelas.
      PPermita-se assistir a Globo e afins. Se não, vc perde a oportunidade de se deliciar com um Velho Chico, por exemplo.

    • 02/11/2016 at 08:58

      Rafael quando alguém fala mal de novela, trata-se de pseudo-alfabetizado. O cara não fez o ensino médio direito.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *