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24/04/2017

Nova peça: Macaquinhas


Não é o mesmo grupo de atores. Nem a produção é a mesma. Mas já está sendo preparada em alhures a pantomima “Macaquinhas”. Só mulheres. Todas nuas, explorando ânus e vagina. Na apoteose da performance, haverá degustação. Ou seja: o público poderá ver as atrizes na experiência de lamber ânus e vagina.

Tenho certeza que quase todos os que odiaram a peça “Macaquinhos” e, claro, os que vieram aqui escrever contra os meus textos, uma vez que não conseguiram ter a mínima ideia sobre o que escrevi, vão amar “Macaquinhas”. Sim, sei que haverá mulheres xingando, e caso as atrizes apresentem um corpo bonito, mais ainda. Mas, uma boa parte dos homens que exibiram a cultura-aquém-do-supletivo de ensino fundamental, que apareceram aqui para espernear, vão querer ver a peça.

Para quem não entendeu meus textos sobre “Macaquinhos” e para quem nem mesmo conseguiu fazer uma leitura própria da pantomima, o problema todo foi a questão do ânus. Colocar o dedo no ânus é, para boa parte dos homens, “coisa de viado”. Uma boa parte desses homens (foi visível ver pelos comentários aqui), não tem qualquer preocupação nitidamente moral, mas preocupação com os seus próprios sentimentos dúbios. Ver outro homem em uma posição que ele gostaria de estar, mas que ao mesmo tempo teme cair exatamente por saber que pode gostar, é o grande problema! O verdadeiro problema!

Claro que “Macaquinhos”, na minha leitura, não tem nada a ver com cu. Não especificamente. Qualquer outro orifício poderia ser usado. Escolheu-se o ânus. Ora, o ânus foi bem escolhido, pois é a parte que pode nos conduzir ao “dentro” sem que exista qualquer capa médica ou pop que amenize a situação ou que desvie o assunto. A boca levaria ao dentista e ao beijo. Os ouvidos levariam ao cantor e seu público, ou também ao médico e, talvez, à propaganda de cotonete. O ânus é neutro. Ao menos do ponto de vista da cultura mais sofisticada, ele é escondido e com pouca pré-significação. Claro que, nesse caso, ao dizer isso, pressuponho que não se quer que alguém que vê penetração anal caracterizando homossexualidade, seja o tipo da pessoa ideal para ver a pantomima. Esse tipo de pessoa está descartada desde o início como público. Aliás, talvez descartada para a vida em sociedade!

A pantomima é um desafio. Desde a Grécia antiga, seu serviço sempre foi o de empurrar o outro a redescrever o que vê e tentar colocar o que notou em um jogo de linguagem apropriado, de modo que este possa fornecer alguma semântica. Os oráculos nunca fizeram outra coisa. Não faziam profecias, mas, de modo diferente, davam frases que precisavam ser interpretadas. Aliás, toda a cultura antiga pauto-se por tal prática. O caso da Esfinge é famoso. O Livro dos Mortos também. Quem é capaz de estar atinente às requisições da pantomima é sempre aquele que pode, em outras atividades, jogar com várias interpretações de tudo e, então, estar mais disposto a mudar, ser criativo, ser capaz de olhar um problema de vários ângulos e dar novas soluções. Ou seja, ser inteligente. A inteligência é efetivamente a capacidade de escapar de preconceitos para formular novas linhas de investigação e solução de problemas.

Uma performance “Macaquinhas”, como disse, preparada em alhures terá um público chulo, capaz de tomar a peça como “pornografia lésbica”, e, sem qualquer possibilidade de brincar com semânticas possíveis, não entenderá nada, mas reclamará bem menos. É fácil calar a burrice.

Paulo Ghiraldelli Jr. 58, é filósofo e escritor. Tem doutorado em filosofia pela USP e doutorado em filosofia da educação pela PUC-SP. Tem mestrado em filosofia pela USP e mestrado em filosofia e história da educação pela PUC-SP. Tirou sua livre-docência pela UNESP, tornando-se professor titular. Fez pós-doutorado no setor de medicina social da UERJ, como tema “Corpo – Filosofia e Educação”. É bacharel em filosofia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (S. Paulo) e é licenciado em Educação Física pela Escola Superior de Ed. Física de S. Carlos, hoje incorporada pela Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar). Foi pesquisador nos Estados Unidos e na Nova Zelândia. É editor internacional e participante de publicações relevantes no Brasil e no exterior. Possui mais de 40 livros em filosofia e educação. Trabalha como escritor e cartunista e tem presença constante na mídia imprensa, falada e televisiva. É diretor do Centro de Estudos em Filosofia Americana (CEFA). Atua junto com Francielle Maria Chies no programa Hora da Coruja, FLIX TV. É professor de filosofia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

Para mais detalhes ver CV Lattes.

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7 Responses “Nova peça: Macaquinhas”

  1. Mozart Pinto Miranda
    05/01/2016 at 15:25

    Boa tarde Doutor Ghiraldelli, moro em Belo Horizonte e tenho interesse em assistir a peça macaquinhas . Ë possivel acontecer em terras mineiras? e se não , onde acontecerá ? Li o termo “alhures” , em tempo no texto é sobre ser em algum lugar por ai? Embora podia ser sobre a marcha dos animais em texto de Aristóteles sobre o titulo da peça! Desculpe por tantas duvidas e perguntas , sou um curioso e gosto de pantomimas . Abraços e parabéns por seu trabalho !

    • 05/01/2016 at 15:39

      Mozart “Macaquinhas” não existe. Só “Macaquinhos”. Os atores estão no facebook. Entre em contato.

  2. Pedro Henrique
    09/12/2015 at 02:35

    Paulo, o que raios é essa Ideologia de Gênero que tanto falam que é o fim do mundo? Você já comentou a respeito, onde? E Lenin escreveu ou não escreveu aquele Decálogo que muitos dizem que o PT está seguindo à risca. Eu estou preocupado com os rumos da nossa sociedade, encontrei um pouco de refúgio aqui,heheh.

    • 09/12/2015 at 11:04

      Pedro, temas como gênero pertencem aos chamados estudos culturais, de influência americana. Sobre Lênin, há bibbliografia por aí que é boa. Sobre o PT, mais ainda, agora, não se informe sobre isso com quem pensa que sabe e não sabe: Pondé e outros da direita. Mais inventam inimigos do que qualquer outra coisa. OK?

  3. Tiago
    27/11/2015 at 08:01

    Acho fascinante o interesse que essas performance causaram nas pessoas. Parece que se incomodaram com a lembrança que todos temos um cu.

  4. ekos
    26/11/2015 at 17:36

    Hum…essa peça ja me apetece mais, Doutor Guiraldelli.

    • 26/11/2015 at 18:14

      ekos, você ganha um ingresso se conseguir escrever Ghiraldelli ao invés de Guiraldelli. Conseguir copiar é bom.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo