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29/03/2017

Nietzsche foi ao velório?


“Deus está morto”[1] – duvido que exista outra frase de Friedrich Nietzsche (1844-1900) mais popular que essa, e também penso que é uma das mais mal utilizadas.

A frase aparece em vários lugares, mas a referência destacada é a que vem da boca de um louco em um aforismo de A gaia ciência. Martin Heidegger (1889-1976) percebeu que até mesmo filósofos profissionais poderiam transformá-la no que não é. Por isso mesmo, em um de seus livros mais instigantes, o Holzwege, ele fez questão de alertar:

“A fala do louco dia especificamente que a palavra “Deus está morto” não tem em comum com as opiniões daqueles preguiçosos e conversadores confusos, aqueles que ‘não acreditam em Deus’.”[2]

Nietzsche não foi um Diderot ou um Feuerbach. Esteve muito além de homens que, ao advogarem o ateísmo, se acharam capazes de dizer alguma coisa que não um grito sujeito pontual, um berro social. Nietzsche foi o filósofo que viu a morte de Deus como um tipo de desinteresse filosófico pelo absoluto suprassensível, e, então, um desprestígio da metafísica como disciplina central da filosofia. Outros elementos menos nobres se colocaram como substitutos fracos do absoluto. Elementos que, neste posto, se tornaram uma caricatura de Deus, mas que deram ainda sobrevida senão à investigação metafísica, ao menos ao um modo de pensar ainda platonizado. Aliás, Nietzsche entendia a forma dual do platonismo como uma forma de senso comum, como um “pensamento popular”.

A morte de Deus anunciada pelo louco foi, para Nietzsche, o sinal para o qual ele quis chamar a atenção: o homem havia se tornado criador e, portanto, sem quase perceber, estava às voltas com o cadáver do Criador. No lugar do absoluto suprassensível, Deus, o elemento capaz de dar autoridade à Igreja na sua missão educativa, veio da autoridade da consciência e da autoridade da razão. Deuses menores, ainda que, claro, também deuses – ou tentativas de algo demiurgo. Nietzsche viveu a época em que a literatura de Augusto Comte (1798-1857) tinha um peso. Segundo este e seus seguidores (que não eram poucos), a própria filosofia nada deveria ser senão uma apologia de um estágio último do pensamento, um estágio pós-metafísico, “positivo” no sentido de cultivar o espírito científico. O espírito científico é positivo, ou seja, não negativo, não crítico, mas afirmador de verdade que, agora, estão à mão, à vista – a positividade das ciências experimentais, então, contadas a partir não das ciências naturais somente, mas então também enquanto “ciências do espírito”, como se dizia antes na Alemanha que na França. Sociologia e psicologia seriam ciências, comporiam relatos capazes de ampliar a previsibilidade sobre nós mesmos, fazendo então o papel de condutoras, justamente o que a existência do absoluto suprassensível conferia por meio da palavra Deus.

A filosofia de Nietzsche se enreda em uma filosofia da história, que nada é senão o desdobrar do niilismo. Este é a desvalorização de todos os valores mais altos. A “morte de Deus” não é seu início e também não é o seu todo, mas é um momento importante. Significa isto: mais um valor importante, grande, talvez máximo, cai por terra. No seu lugar surgem novos deuses, mas não mais capazes de encantar por meio da habitação do suprassensível os olhos e ouvidos dos humanos.

Observando a história do homem como história da luta interna do niilismo, então a metafísica pode ser definida de um modo interessante. Heidegger faz isso ao falar que ela, a metafísica, é o espaço da história que se torna o destino de vários elementos que irão ter sua autoridade esvaziada e seus poderes construtivos confiscados. Eis tais elementos: o mundo suprassensível, ideias, Deus, lei moral, autoridade da razão, progresso, felicidade do maior número, cultura e civilização poderem ser confiscados.[3]

Nietzsche não podia escapar, ele mesmo, dessa história e, portanto, era um homem decadente como outro qualquer, inserido no processo do niilismo. Todavia, como filósofo, tentou de toda maneira encontrar o caminho pelo qual talvez houvesse um final para o processo contínuo de desvalorização. Definindo o homem como um ser que valora, o que viesse a não mais valorar exatamente para não desvalorar, deveria ser tudo, menos homem. Seria o que ele chamou de Além-Do-Homem (Übermensch).

Mas o que seria o Além-do-Homem?

Estaria este Além na ordem da pergunta de Sócrates, que se via como não deus e não monstro? Caberia a este Além do homem qualquer tarefa como a do “conhece-te a ti mesmo”? Não! Alguma coisa com funções cognitivas como as nossas, fatalmente viria valorar e fazer perder valor. Seria algo “humano, demasiado humano”, e então contaria, novamente, apenas em mais uma fase do niilismo.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

[1] Nietzsche, F. O insensato. A gaia ciência. Lisboa: Guimarães, 1987, p. 145.

[2] Heidegger, F. Holzwege. Frankfurt: Vittorio Klostermann, 1977, p, 219

[3] Idem, ibidem, p. 220.

velório

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13 Responses “Nietzsche foi ao velório?”

  1. julia
    20/09/2015 at 17:08

    Que relação se poderia estabelecer entre a crítica à moral de Nietzsche e os valores adotados na gestão pública brasileira?

    • 20/09/2015 at 17:39

      Júlia essas ligações assim, entre filosofia e prática política, não são para qualquer um. É necessário que elas se faça em textos cuidadosos, não essas bobagens que a gene vê do Safatle e do Pondé. Filosofia não é política. Veja sobre esse seu assunto o que tenho no livro “Filosofia política para educadores” (Manole). Combinado?

    • julia
      21/09/2015 at 10:58

      Vou procurar o livro.
      Mas a política poderia ser analisada pela filosofia já que alguns filósofos estudaram a democracia, política?

    • 21/09/2015 at 12:50

      Sim, a filosofia política é uma área ampla, e de certo modo a filosofia nasce com a política, sem pensarmos em Platão como o criador da filosofia como a conhecemos hoje.

    • Julia
      22/09/2015 at 01:18

      Entendi.
      Professor , a pergunta que fiz é o tema de um projeto de IC que elaborei e vi nos comentários que você é bem sincero. Será que eu podia mandar o projeto no email pra você analisar?

  2. Luh
    22/09/2014 at 15:51

    Texto muito legal!

    Nossa, tinha outra interpretação para o “super-homem” de Nietzsche. Inclusive nunca tinha visto com esse nome: “Além-do-homem”. Super-homem dá ideia de um homem super forte.

    • 22/09/2014 at 16:19

      Luh – Übermensch. Leia A aventura da filosofia, dois volumes.

  3. Gabriel
    16/09/2014 at 14:10

    O que é a vontade de poder(ou potência) para Nietzsche e o que mesmo quer dizer com “existo ,logo penso”?

    • 16/09/2014 at 14:47

      Gabriel por favor pegue os livros básicos, dois volumes, a Aventura da filosofia (Manole)

  4. Ana Paula
    14/09/2014 at 21:45

    Boa Noite Paulo! Me corrija se eu estiver errada, mas, quando o Nietzsche disse essa frase “Deus está morto”, na realidade ele teve a intenção de despertar as pessoas a metafísica? A pensar no sentido de provocar? E, com isso tomar a posse de criar?

    • 15/09/2014 at 00:49

      Não Ana Paula, veja a bibliografia do texto. Ou pegue meus volumes do A aventura da história. A frase é de constatação, como está explicado no texto.

  5. Rodrigo
    14/09/2014 at 18:51

    O próprio Nietzsche buscou uma forma de ideal para fugir de suas moléstia quando assistiu uma das peças de Wagner. Renegou! O pensamento de Schopenhauer sobre a ideia de que as artes nos fazem sair de uma situação do cotidiano, não dirigida pela razão por ser caótica, não funcionou para Nietzsche. A morte de Deus está inteiramente ligada ao positivismo e a negação das Coisas em Si.

  6. Rodrigo
    14/09/2014 at 18:46

    Muito bom texto. Nietzsche é o filósofo do niilismo chamando atenção de que a metafísica deveria ser uma filosofia, e não uma existência impregnada no mundo das Ideais como uma forma de garantir uma vida pós morte. Será o Iluminismo a causa maior da fuga da realidade para um futuro que a Ciência prometeria? Teve o seu papel, sim. Mas o que mais impressiona é deixar de investigar a metafísica como sendo uma ferramenta capaz de nos ajudar a entender não apenas uma filosofia, mas uma Teologia em uma interpretação conotativa, literária.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo