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20/11/2017

Nietzsche e a verdade pela vulva exposta


Em A gaia ciência Nietzsche escreve:

“Já não acreditamos que a verdade continue a ser a verdade sem os seus véus – vivemos de mais para isso. Fazemos agora uma questão de decência de não querer ver tudo nu, de não assistir a tudo, de não assistir a tudo, de não procurar compreender tudo e tudo ‘saber’. ‘É verdade que Deus Nosso Senhor está em toda a parte? Perguntava uma rapariguinha à mãe. Acho isso muito indecente …’ Indicação para todos os filósofos! Devia honrar-se ainda mais o pudor quando é certo que a natureza se empenha em se esconder atrás do enigma e das incertezas. Talvez a verdade seja uma mulher que tem as suas razões para não deixar ver as suas razões. Talvez o seu nome, para empregar o grego, seja Baubô”! … Ah! Esses gregos, como eles sabiam viver!”.[1]

Esse trecho traz  referências à história da filosofia. Ficam claras se glosamos esse trecho com o conjunto de seis parágrafos do texto nietzschiano “Como que o mundo verdadeiro se tornou finalmente fábula”.[2] Trata-se de um escrito de uma página apenas, onde toda a história da filosofia se apresenta como regido pelo niilismo que, diga-se de passagem, é uma noção praticamente transhistórica; este podee ser eternamente retornado por cada um de nós a todo o momento em que as fases dos seis tópicos se completam.

São seis passos que vão da verdade platônica tomada como Ideia ao anúncio da abolição da dualidade mundo-verdadeiro versus mundo-aparente, passando quatro outros estágios. Esses estágios denotam a verdade “mais inapreensível” com o cristianismo, a verdade como coisa-em-si do kantismo, o desdém da verdade como o em-si e portanto com o positivismo para quem o fenômeno é tudo, e, enfim, a constatação da verdade como inútil, o que abre portas para a valor da utilidade, no qual pode reinar, por exemplo, o utilitarismo inglês. Nesses passos, a verdade “se torna mulher” e “torna-se cristã” no segundo estágio, porque se manifesta “mais sutil, mais ardilosa, mais inapreensível”. Essa verdade mulher faz contraponto com a verdade mulher de A gaia ciência, que é grega e tem nome: Baubô. Quem é Baubô?

A história de Baubô está na obra homérica em uma passagem sucinta. A deusa da fecundidade e da agricultura, Deméter, está triste por causa do sumiço de Persófone. Não come e não bebe há dias. Eis que Baubô salta à sua frente e levanta suas saias, mostrando uma figura desenhada na barriga, que pode ser a do filho de Deméter ou mesmo o deus Dionísio, que, inclusive, pode mesmo ser seu filho. O gesto faz Deméter sorrir. Finalmente ela dá mostras de vai sair da crise depressiva, e então a própria fecundidade da terra está salva. Na leitura desse episódio, Sarah Kaufman alerta para a semelhança desse mito grego que, por sinal, permaneceu nos tempos romanos e chegou até à modernidade, tendo eco em outros semelhantes em culturas como a japonesa e irlandesa. Levantar a saia e, então, provocar riso torna-se algo com fins de eliminar a má sorte (o equivalente masculino disso é fazer rir ao mostrar as nádegas, levantando vestes ou baixando calças etc.).[3] O gesto está ligado ao retorno da vida, e Baubô também é o nome de kolia, palavra usada para denotar os órgãos sexuais da mulher – a vulva, a entrada para o lugar da vida, o útero. Não à toa as figuras de Baubô na história são as de uma mulher que ou abre a vagina ou que tem um rosto desenhado na barriga, não raro fazendo a boca coincidir com vulva.

Desse modo, se há uma mulher que não é sutil é Baubô. Nada cristã, essencialmente grega, talvez uma anunciadora do deus do êxtase, Dionísio, que nunca vestiu roupa alguma. Baubô faz rir e anuncia a vida. Baubô mostra as partes pudendas com desenhos, faz rir e afasta o azar. Baubô faz um gesto que tem conotações obscenas. Ela é aquela que “tem razões para não mostrar sua razão”. Em outras palavras: a que apresenta algo – a verdade – sem dar fundamentos ou mesmo justificativas. Nenhuma razão. A verdade mostrada sem razão é, sem dúvida, a verdade na concepção de Nietzsche. Aliás, nesse caso a concepção de Nietzsche da verdade se aproxima da de Donald Davidson: a verdade é um conceito primitivo, sabemos usá-lo e, se o sabemos, temos uma linguagem, mas não há possibilidade de reduzir um tal conceito a outros e explicá-lo sem cair num círculo.[4] Quando queremos explicar a verdade recorremos ao significado e para explicar este precisamos da verdade. Talvez se Nietzsche tivesse vivido um pouco depois, ele pudesse gostar de filosofia analítica, ao menos esta não fundacionista de Davidson e Rorty. Uma verdade vista por seus efeitos, pelo seu pragmatismo portanto, e não pela sua profundidade.

A verdade como Baubô. Eis uma verdade que nada tem a ver com adequação, mas como o que produz efeitos como o fazer rir, isto é, a verdade como o que satisfaz, dá alegria e nos levar a se livrar da má sorte. Não tem razões? Pode ter, mas está dispensada de mostra-las, melhor, demonstrá-las. Ou seja, se autodispensa. A verdade como noção nietzschiana é exatamente isso: o que entendemos sem explicar. Sabemos usar a noção e pronto. É tudo. Ser nietzschiano é, então, se acostumar com o uso de “verdadeiro” de modo a ter um expediente para lidar com determinadas situações, sem querer ver tudo, sem querer ser indecente. Ver tudo é deixar a garota de nove anos apavorada com a indecência de um olho que não quer ser perspectivista porque tem todas as perspectivas de uma só vez, que é “a perspectiva do Olho de Deus”, na frase de Thomas Nagel. Nós terráqueos não temos essa indecência. Podemos ter desejado tê-la. Podemos ter acreditado que a teríamos, mas ao nos encontrarmos com Nietzsche optamos por algo que a filosofia analítica veio chamar de “desinflação” metafísica. O conceito de verdade é o conceito de verdade, e nada mais. Como Baubô, eu mostro a verdade, o lugar do útero que é o lugar da verdade, e não preciso de nenhuma explicação para tal. Um útero que é local de verdade e que permite que adentremos nele de modo cuidadoso, de modo a descrever a jornada sem ter de explica-lo, é um útero à espera de Peter Sloterdijk – o homem que fez do útero o primeiro lugar da verdade.

Falar em verdadeiro e falso tendo abandonado a noção da verdade que se explica é a posição do ironista Richard Rorty.[5] De certo modo, é a doutrina anunciada por Nietzsche, se é que ele tem uma teoria da verdade. Ser irônico é exatamente isso: admito algo como verdadeiro (ou falso), mas já dei passos filosóficos em um sentido que não permitiria eu falar em verdade e falsidade se isso fosse depender do que até então dependia, de possuir uma visão “da perspectiva do Olho de Deus”, porque não lido senão com os usos linguísticos da palavra verdadeiro, e não como uma metafísica capaz de nos dar A Verdade.[6] A discrição é a marca dessa teoria da verdade de Nietzsche – e Peter Sloterdijk afirma exatamente isso.

Fica aí o convite para pegar o Para ler Sloterdijk, meu livro pela Via Vérita.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 16/06/2017

[1] Nietzsche, F. A gaia ciência. Lisboa: Guimarães Editores, 1987, pp. 14-5.

[2] Nietzsche, F. Crepúsculo dos ídolos. São Paulo: Cia das Letras, 2006, pp. 31-2.

[3] Kaufman, S. Baubô: Theological perversion and fetichism. In: Oliver, K. Feminists interpretations of Friedich Nietzsche. University Park, Pennsylvania: The Pennsylvania State University Press, 1998, p. 44.

[4] Ghiraldelli, P. Introdução à filosofia de Donald Davidson. Rio de Janeiro: Luminária, 2010.

[5] Davidson analisa as teorias de verdade. Seu trabalho é o de construção de uma teoria que mostre o que pode ser ou não aceitável como uma teoria do significado e, então, da verdade. Mas a verdade, e não a teoria desta, para ele nada é senão um conceito primitivo, com o ponto o é para a geometria euclidiana. Richard Rorty, por sua vez, expõe a noção de verdade como noção do uso de verdadeiro. Elenca então três usos, e com isso trabalha a verdade a partir da linguagem, sem conotação metafísica. O leitor pode encontrar isso no primeiro volume dos Philosophical papers de Rorty, e de modo comparativo com o que fazem outros filósofos em: Ghiraldelli, P. A aventura da filosofia. Barueri-SP: Manole, 2011, vol. II, pp. 71-82.

[6] Ghiraldelli, P. Richard Rorty. Petrópolis: Vozes, 1999.

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2 Responses “Nietzsche e a verdade pela vulva exposta”

  1. Ana Paula
    16/06/2017 at 23:30

    Paulito gostei muito. Mas sabe que algumas coisas me intrigou no seu texto. Como relacionar o olho de deus e a filosofia de Nietzsche que é antimetafísica pra cassete? A mãe parteira de Sócrates e a mulher que faz ri são descrições da verdade? posso ta misturando lé com cré mas e a eva da bíblia, o que fazer com ela

    • 16/06/2017 at 23:53

      Paulo Ghiraldelli, é meu nome. Sobre o resto, não entendia nada.

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