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20/11/2017

Natureza ou construção social? Vocabulários que não cabem mais


O homem é aquele que criou a divisão entre natural e cultural para, em seguida, não saber o que fazer com isso quando uma tal divisão é aplicada a ele mesmo. A moda agora é a direita negar, contra a esquerda, que somos uma construção social. Mas a divisão “cultura versus natureza”, quando apareceu, conquistava o público inversamente.. O Iluminismo defendia o homem como natural, enquanto que o Romantismo, vindo em seguida e com tom conservador, contribuiu para valorizar os aspectos da cultura, da história e das tradições. O século XIX não chegou a negar o homem como ser natural, mas desnaturalizou e historicizou muito do que o século XVIII havia posto na conta do natural.

De qualquer modo, pensar o homem e, com ele, muito mais coisa, sob o crivo “natural ou construção social” é algo que poucos filósofos atuais fazem. Cientistas que sabem pensar também já abandonaram isso. Literatos de calibre também. Uma amiga chegou num bar outro dia e pediu uma “Coca Cola natural” e o moço do balcão entendeu – para meu espanto – o que ela queria, e trouxe uma Coca Cola não-diet, a tradicional. E sexo natural, o que é? Seria um sexo sem camisinha ou um sexo sem Viagra? Ou seria um sexo no mato, na “natureza”? E os filhos já frutos de engenharia genética, seriam “naturais” ou “artificiais” ou “históricos” ou “construções sociais”? Quando olhamos esses exemplos, percebemos que os vocabulários direita e a esquerda, que ainda disputam o entendimento do mundo através da transição do século XVIII para o XIX, é de dar pena.

É engraçado ver pessoas que querem que tudo seja “natural” irem a um psiquiatra por conta de síndrome de pânico ou alguma paranoia qualquer e não quererem tomar remédios. Querem fazer terapia. Freud na cabeceira do divã, ouvindo a linguagem em detalhes; isso seria um método natural, e o remédio seria histórico? As pessoas que acham que somos seres naturais rejeitam tomar remédio porque dizem que não somos um pedaço de biologia, que temos … “espírito”, ou por ordem de um ditame sobrenatural ou por ordem de sermos seres de cultura! Esses exemplos mostram que a caixinhas “natureza” e “cultura” já explodiram faz tempo, e que nosso uso da linguagem está rodando em falso.

Na filosofia contemporânea a disputa entre natureza e cultura foi abolida por Peter Sloterdijk por meio da noção de antropotécnica. Ele fez um bom elenco de atividades que, no âmbito da filogênese, tornaram algum animal das savanas, meio parecido conosco e com o monos e que ficou sujeito a períodos de bonança e possibilidade de mimo, alguém ainda mais parecido conosco. Sloterdijk agiu também no âmbito da ontogênese, descrevendo nossa estadia uterina. Em ambos os casos, claro, Sloterdijk aglutinou antropologia,  mitologia, história, filosofia, literatura, religião e conhecimentos científicos para gerar descrições fantásticas – fantásticas no sentido da fantasia. Afinal, é o que se pode fazer nesses dois casos. Descrevi as antropotécnicas no meu livro Para ler Sloterdijk (Via Vérita, 2017). Não vou repeti-las aqui. Posso lembrar de uma central, a neotenia.

A neotenia é a ocorrência pela qual um indivíduo carrega seus aspectos juvenis para o interior do fluxo genético da espécie. Nós somos o exemplo mais claro disso (o único?). Em algum momento do desenvolvimento da vida de nossos ancestrais remotos, estes geraram filhos que não podiam se virar sozinhos, quase abortos, mas por conta de uma situação favorável ao mimo esses seres tiveram mães antes que simples progenitoras. E eis que esses bebezões foram bem criados e alguns deles passaram para o fluxo genético a característica juvenil. Deram origem a uma espécie que nasce em forma de aborto, que somos nós, seres que demoraram para amadurecer e que carregam traços juvenis para todo o sempre. Afinal, somos animais nunca “acabados”, estamos sempre aprendendo, como crianças, até o último dia de vida. O processo de neotenia não tem como ser descrito como cultural ou biológico e natural, ele é uma antropotécnica ou um conjunto de antropotécnicas. Uma técnica da cegueira ou da visão especial do Universo, uma técnica de criar o antropos.

Se a direita e a esquerda pudessem ler Sloterdijk e absorver essa ideia, muito da discussão de gênero atual sairia dessa conversa em que estamos, meio que emperrada. As pessoas não precisariam ficar dizendo – como eu mesmo digo para efeito didático – que gênero é uma construção social, uma construção de identidade social, enquanto que desejo sexual é algo do âmbito do corpo, sem participação da vontade racional, e que nos vem pela nossa natureza. Dizer isso, dessa maneira, é endossar certas teses da esquerda, ainda que nem todas, para explicar para a direita coisas que os muito à direita não entendem. Mas o fato é que com a noção de antropotécnica não teriam que fazer essa separação. As antropotécnicas nos mostram que o Universo tem técnicas de construção de um antropos que se dá bem com o cupido, o herói que nos faz ter desejos, e se dá bem também com nossos pais, os heróis que nos ajudam a nos vestirmos azul ou rosa, e nos fazem cair nos dois principais gêneros, e assim, “fazermos gênero”.

Mas enquanto não podemos fazer a esquerda e a direita aprender essas coisas, vamos suportando a voz de gralha desse pessoal, e chamando a atenção para os que querem cair fora disso, para as ideias de novos filósofos, Peter Sloterdijk entre eles!

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. Doutor e mestre em Filosofia pela USP. Doutor e mestre em Filosofia da Educação pela PUC-SP. Bacharel em Filosofia pelo Mackenzie e Licenciado em Ed. Física pela UFSCar. Pós-doutor em Medicina Social na UERJ. Titular pela Unesp. Autor de mais de 40 livros e referência nacional e internacional em sua área, com colaboração na Folha de S. Paulo e Estadão. Professor ativo no exterior e no Brasil.

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5 Responses “Natureza ou construção social? Vocabulários que não cabem mais”

  1. Ezequias costa
    03/11/2017 at 14:41

    Muito bom, Paulo.

  2. Eduardo Rocha
    02/11/2017 at 00:22

    Mesmo com essa semântica em decadência. Paulo, seria possível pensar no futuro um gênero ciborgue? E os conservadores o que falarão? Que ciborgues não são “naturais” e que o homem não pode querer ser Deus? A própria ideia do evolucionismo é a transformação e a adaptação onde os transexuais estariam nesse “movimento” do TRANS do próprio homem. É possível pensar que em um capitalismo futuro onde os mesmos conservadores perderão a disputa agora para seus iguais e imigrantes e também para os homens-máquinas? Pensaremos em cotas para um grupo agora excluído da sociedade (empresas, instituições e escola)? Cotas para homens comuns? Teremos algum projeto de lei que vete o uso de próteses, venda de órgãos modificados, engenharia genética e tecnologia para uso humano alegando que esses seres não são humanos e que o homem possui uma coisa chamada alma?
    Assim como temos o racismo e o preconceito com negros e gays, etc., haverá também com os “metahumanos” (piadas como pedaço de lata ou sua máquina!)? O uso do “seu monstro” e “ele é uma máquina” será de cunho positivo. E mais, quem não gostaria de poder ser assim? Isso será uma nova “tendência do mercado” onde as empresas usariam isso como Brands para fomentar o consumo, a tecnologia, a moda e um novo estilo de vida (principalmente no trabalho, esporte e medicina)? Em vez de envelhecer agora estaríamos enferrujando? A marca aí será para se sentir pertencente de uma identidade e um grupo específico. Falarão que a globolixo estará ensinando uma “nova ideologia de gênero” e que Gramsci de alguma forma influenciou essa revolução cultural cibernética? O homem já manipula praticamente seu corpo todo (principalmente as mulheres com cílios, sobrancelhas, xampus, batons, cosméticos, unhas, botox, depilação, dentes mais brancos, alimentos sem gordura, cirurgias plásticas, lentes, afilamento de nariz, retirada de costelas, enxertos nos lábios e retirada de bochechas, vaginas com menos pelancas, etc.). As próprias mulheres agora querem corpos mais finos, secos, com ombros mais largos e robustos, cheios de veias, musculosos (um corpo masculinizado em um tipo de super-herói). Por que não ter uma cauda, olhos que enxerguem mais longe, uma pele resistente ao sol (hoje já existem tratamentos de queimaduras com peles de peixe), força sobre-humana, acessar a internet pelo pensamento, asas que nem anjos? Ou pais atletas já preparariam seus descendentes desde cedo com músculos mais resistente e elásticos, maior absorção de proteínas, um super coração com um super sistema nervoso? E escritores serão barrados em universidades ao falarem da emergência desse futuro chamando-os de pedófilos, esquerdista, cientista louco, eugenista e usurpador de Deus? Um conservador ficará contra isso, caso salve a vida de seu filho?

  3. Matheus
    31/10/2017 at 21:52

    Paulo, estou com dificuldade de entender essa “virada de perspectiva” da antropotecnica é e duas ramificações. Eu já li nos seus livros sobre Rorty e com ele, que essa diferenciação era problemática. Lembro que você citou Darwin como sendo alguém que naturalizou a história, por exemplo. Qual a relação dessa antropotecnica com a concepção pragmática de linguagem sua e do Rorty?

    • 01/11/2017 at 00:00

      Rorty rompe com dualismos apelando para a linguagem, Sloterdijk apela para antropotécnicas. Todos seguem a ideia de romper dualismos, vindas de Hegel.

  4. Matheus
    31/10/2017 at 21:46

    Genial Paulo. Eu vejo que você está à frente da Filosofia, no Brasil. Sorte conhecer sua maneira de pensar e, sobre isso, acho que você está fazendo algo importante no face, com disparadas estarrecedoras. Sua leitura da direita e da esquerda é perfeita. Você parece estar fazendo no face aquilo que o Rorty é você próprio sugerem com a linguagem. Obrigado filósofo por suas intervenções. Vou acompanhá-lo mais.
    Fiquei com vontade de ler o Sloterdigik, e vou começar pelo seu livro.

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