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24/06/2017

Os que não sabem estudar


Há quem saiba estudar? No Brasil, é difícil. Qualquer forma de estudo, melhor ou pior, no Brasil, não é ensinada de modo algum. Além disso, a forma efetiva de estudo – a verdadeira e boa – é quase que desconhecida em uma sociedade de tradição escravista, autoritária, como a nossa.

Do que sei (e olha que não sei pouco disso), a educação como autodidatismo é alguma coisa que só no Brasil é alardeada como tendo algum valor maior ou até igual ao que se faz na escola. No Brasil as pessoas querem diploma, e só por isso procuram a escola. Mas quando falam que aprenderam alguma coisa, remetem a si mesmas, em forma de autodidatismo. Talvez por isso não saibam nada mesmo, e nosso país consegue os mais baixos níveis de performance em exames internacionais, de todo tipo.

Não existe aprendizagem na relação livro-leitor. Há contato entre o leitor e a informação, mas não mais que isso. A aprendizagem, qualquer ela, é um ato dinâmico, socrático, que depende de alguma variação do elenkhós, e por isso a filosofia é que ensinou ao homem a realmente aprender. Aliás, ela foi inventada exatamente por conta dos homens que começaram a ver que o “amor ao saber” (philo + sophia) é o que se exerce e se faz em confraria, em dinâmica conversacional a partir da parrhesia (o falar franco) e do jogo “de dar e pedir razões” (Robert Brandon), e que é aí e só aí que se faz conhecimento e se adquire conhecimento. Mas, em nossa sociedade, ainda é vigente o mito do produtor solitário de saber e do estudante solitário. Aqui se acredita que há quem aprende algo sozinho, ou na relação entre o estudante e um livro.

Aqui é o lugar que aluno de Matemática faz listas de exercício sem discutir o exercício com o professor e o colega. Aqui é o lugar em que História é um aprendizado dito de “decoreba”. Aqui é o lugar em que o aluno de Letras não treina fazer textos. Aqui é o lugar que o professor de Filosofia imagina que a prática dele pode ser diferente da prática do professor de Medicina. Não pode. O professor da Filosofia deveria ver como que um bom médico leva os estudantes para uma sala de operação. Aqui é o lugar em que o professor da Medicina deveria ver como que o bom filósofo encaminha o saber confrontacional em um grupo.

O aprendizado solitário com o livro é um falso aprendizado. O que se consegue com o livro é uma primeira abordagem de um assunto. É algo como background. Mas os que não sabem o que é saber algo acreditam que aprenderam ao lerem alguma coisa. Não! Foram informados, ganharam alguns procedimentos de ação, talvez uma técnica, tiveram o chamado “básico”, mas não aprenderam a ponto de poderem falar “eu sei”. Isso fica claro quanto a saberes complexos, como é o caso da própria filosofia. O conhecimento aí depende da confrontação dinâmica e, como Sócrates dizia, o livro sempre dá as mesmas respostas.

Claro que o livro é necessário. Fundamental. No Brasil o livro é desprezado, inclusive pelos que se dizem autodidatas que, enfim, não leem nada do que dizem. Mas o contato solitário com o livro, sem que a investigação conjunta se faça, é um engodo. O aprendizado se dá a partir de problemas que conjuntamente queremos resolver. Só um  tolo se acha um verdadeiro aprendiz nessa situação que é a da solidão, mas há tolos no Brasil o suficiente para dizer que aprenderam assim. Não aprenderam. E quando escrevem sobre o que dizem que sabem mostram bem isso, que não aprenderam. Vejo isso em colegas da filosofia que, diante da mínima objeção, ou não respondem ou respondem a mesma coisa que já disseram – errada. E isso fica patente não só entre professores de filosofia, mas nos filósofos metidos a jornalistas, que agora virou moda. Viraram papagaios ou, então, gente que acha que saber é “pregar” posições doutrinárias.

Todos os grandes filósofos trabalharam coletivamente. Kant reunia seus amigos para jantares filosóficos. Até ele, que todos citam como pensador solitário. Mas só quem experimentou o saber na lida dinâmica sabe do que estou falando.

Paulo Ghiraldelli Jr., 57, filósofo.

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13 Responses “Os que não sabem estudar”

  1. João Paulino
    28/01/2016 at 13:54

    Como já fora dito em outros comentários muitas vezes o problema é das próprias universidades, que praticamente empurram os alunos para “solidão”. Isto é algo que se constata rapidamente. Então como “burlar” isso? Será que só teremos aprendizagem realmente quando isso mudar? Se sim, o que fazer com “tudo que está aí”? Outro ponto é: ainda que o aluno queira essa dinamicidade, a discussão, como fazê-lo se quem está ao redor não quiser, pois já estabeleceu sua própria verdade incontestável e intocável? Isto, por mais contraditório que pareça, é bem comum no meio jurídico por exemplo, principalmente nos períodos iniciais. Acredito, que o problema da construção solitária depende da forma como é feita. Se nesse iter, se levar em consideração as divergências, e principalmente estudá-las com a devida seriedade, se se constrói a capacidade de si mesmo questionar aquilo que pensa, estar sempre aberto à discussão e etc., acredito que seja possível uma aprendizagem. Ter sempre em mente que alguém pensa diferente e que seu pensamento pode estar errado, já é uma abertura ao diálogo que faz buscar além. Por exemplo, isso que falta, na minha opinião, entre alguns “marxistas” que acham que já têm todas as respostas e que o “resto é resto”. Acho que esse pode ser um caminho enquanto as coisas não mudam. Mais trabalhoso, mas um caminho. Parabéns, excelente texto!

    • 28/01/2016 at 16:30

      Os marxistas possuem esse defeito, Paulino, mas há mais professores não marxistas no mundo, e eles estão com esse defeito. Mas que dá para fazer o certo, dá. No CEFA fazemos o certo. Pergunte para quem frequenta.

    • João Paulino
      29/01/2016 at 01:28

      Com certeza dá para fazer o certo. Mas nem sempre quem quer fazer o certo encontra uma “circunstância” que possibilite isso, sendo a única alternativa a solidão dos próprios devaneios. Daí refletir sobre a possibilidade de se fazer o certo solitariamente.Para quem sabe, isto ser o “marco zero” de um modelo diferente do posto, ou seja, fazer do jeito certo. E é super importante essa discussão, sobre o modelo de ensino, principalmente para as séries iniciais. Vlwww!

  2. Mateus dos Santos
    24/09/2015 at 21:53

    Professor Paulo, o que fazer diante das instituições de ensino onde não há comprometimento com o ensino-aprendizagem entre professor e aluno?
    Onde as universidades estão criando, não todas, é claro, mais pessoas solitárias, no que diz respeito a leitura e o autodidatismo ignorante. Obrigado

  3. João
    26/06/2015 at 00:26

    Meu problema com relação ao estudo é a disciplina, ou melhor, a falta dela. É possível adquiri-la depois de crescido?

    • ghiraldelli
      26/06/2015 at 08:13

      João aí sim é uma atitude inteligente. Ler a Bíblia como quem não leu um texto do Machado de Assis, lá no colégio, uma aula pulada, entende. Leia.

  4. Matheus Kortz
    06/06/2015 at 18:43

    Nem me fale, Paulo, e as universidades brasileiras, se até a USP está, imagine as outras, estao indo pro buraco. Professores que só queriam ser pesquisadores e deixam os alunos se virarem sozinhos com os livros, isso quando a referência é livro, pq agora referência é paper. Não que professor universitario tenha q levar na mão, somos adultos ou queremos ser, mas nao tem dialogo, discussão nem nada, só provas, que provam o quao burros todos são alunos e universidades

    • ghiraldelli
      07/06/2015 at 07:41

      A nova geração de professores universitários que está aí teve mais condições que outras, mas peca pela incapacidade de fazer filosofia socrática.

  5. Wagner Santos
    06/06/2015 at 15:40

    Há a mitologia do intelectual solitário, distante das rotas e convívios comuns, que dialoga com os moleques através de enigmas escritos em suas obras. O moleque agarra o livro depois de já ter agarrado a imagem que criou do autor, o seu autor ideal, e o torna seu pai, ou melhor, o pai que queria ter. Os jovens agarram os autores, ora como amantes, ora como pais, e tiram deles o que lhes sugere as respectivas faltas, as carências.
    O autodidata não quer ver a imagem que construiu sequer conhecida, muito menos contestada. Ele se isola, pois carrega segredos, e a relação original entre o livro e o leitor, entre o leitor e a conversação, entre os debates sobre os embates, se perde para suprir carências afetivas. Não há amor pelo conhecimento, há desejo de suprir suas carências.
    Depois que se torna adulto, talvez também autor, este que se isolou durante maior parte da vida começa a externalizar o mundo em que esteve recluso e a obter o retorno de suas exposições. Se autor, forma seu público, seu grupo existencial, de pessoas que, como ele, leem para suprir suas carências e não por amor ao conhecimento. Toda descoberta, por eles assim considerada, é na verdade um chamado disfarçado para o reforço do isolamento, para a distinção…
    Eles não querem conhecer, pois o conhecimento pode e certamente nos revela como enganados.

    • Leonard Domingos
      07/06/2015 at 16:53

      fantastico!!!!!!!!

  6. Ricky
    06/06/2015 at 13:43

    Texto brilhante! Parabéns!

    • ghiraldelli
      07/06/2015 at 07:42

      Obrigado Ricky! Espero ter ajudado.

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