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24/10/2017

O que não gosta de mulher


Os homens podem ser de qualquer tipo. As mulheres não. Há um tipo de mulher, e se não se está acolhida nele, não se é aceitável como mulher, talvez nem mesmo como vivente.

Isso não tem nada a ver, ao menos não em um primeiro momento, com a palavra que se esvaziou, “machismo”, ou com o movimento de mil faces e uma história complexa, o feminismo. Antes de tudo isso tem a ver com uma disposição semântica. Vamos só a uma tradição, para não complicar demais: a tradição judaico-cristã.

Nesse caso, homem vem de húmus, ou seja, da terra, e daí vem também a palavra humildade, o que se põe de modo simples. Mas e a mulher? Nessa cultura, a mulher não vem da terra, do simples, do humilde, mas do interior do ser vivo, das entranhas daquele que veio da terra, Adão. Essa semântica bíblica, ou seja, dos textos mais antigos que temos do lado judaico-cristão, deveria ser mais bem observada. Ao que é da terra, o húmus, o simples, o humilde, não é necessário classificação, tipologia. Mas os seres vivos, os complexos, só são entendidos por alguma taxonomia. O filósofo que fez o nosso dicionário moderno, Aristóteles, tinha bem certo isso na sua cabeça. Os padres da igreja também. E por isso gostaram da Bíblia, por conta desse espírito: não classificar o simples, mas classificar os seres complexos para torná-los inteligíveis.

Foi assim que a mulher sempre necessitou de uma semântica tipológica. Não um único tipo, mas um tipo. Mulher-mãe, mulher-guerreira, mulher-bruxa, mulher-oráculo, mulher-prostituta, mulher-tecedora, mulher estrangeira, mulher viúva, mulher casada, mulher-moça, a mulher santa, a mulher e Balzac, a mulher da moda e assim por diante. Não se pode tirar alguém do interior de um ser vivo e não lhe especificar lugares e funções. Seria um enorme erro de biologia não agir assim!

O que é barro? A única vez que Platão definiu algo foi nesse caso: argila mais água é barro. Mas argila é argila (terra) e água é água. Os quatro elementos da cosmologia grega tinham a fama de simples: água, terra, ar e fogo. Junto de amor e ódio, ou seja, de forças de unificação e forças de repelência, criavam a possibilidade do cosmos se impor sobre o caos. Essas formulações gregas caíram como luva nas mãos do saber judaico-cristão. O saber bíblico não se fazia tão diferente. Nesse sentido, o homem sempre foi simples, genérico, enquanto que a mulher sempre esteve do lado do que já nasce do complexo. À mulher, por uma questão lógico-semântica, é necessário criar tipologias. Fazemos isso até hoje com a mulher. O homem é um tipo como homem. A mulher é mulher se é um tipo.

É por isso que há os que não gostam de mulher. São aquelas pessoas com pouca capacidade para o complexo. Os antifeministas em geral possuem um raciocínio tosco tanto quanto o que pode haver de pior no feminismo. Os misóginos às vezes beiram os antifeministas. Diante do inusitado do complexo, eles ficam como baratas tontas, como hienas histéricas. Quase como quando se deparam com o homossexualismo. Desesperam-se uma vez tendo de enfrentar aquilo que, em uma tipologia, ainda assim não é apreensível ou, mais exatamente, por isso mesmo não é apreensível para os que só sabem contar até três. Mulher-mãe, mulher-esposa, mulher-irmã. Três nomes para uma só entidade: mulher-serva. Os que não gostam de mulher, principalmente os filósofos que implicam com mulher, são os mais magoados. São aqueles que vivem escrevendo de modo a tentar encaixar a mulher em um tipo que eles trouxeram de uma infância complicada. Filósofos assim são desesperados: eles, os que foram eleitos socialmente como inteligentes, caem diante da complexidade da tipologia feminina, que os exibe como não conseguindo contar mais do que três. Isso os mostra como jornalistas imbecilizados, não como filósofos ou sábios. Até o médico ginecologista de Serra Leoa é capaz de fazer melhor.

É nessa hora que a mulher se torna ainda mais um elemento para o qual o ódio se dirige como o ferro vai ao imã. Pois só sua presença, só sua capacidade de cair sob um tipo que ultrapassa o número três, irrita aquele que até então imaginava saber contar quase até dez.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

Post Scriptum. Talvez o grande desafio do feminismo ainda seja o de quebrar tipologias consagradas permitindo não adoção de um modelo, mas de uma diversificação tão ampla que possa atarantar ainda mais a idiotia masculina… e feminina. Talvez seja também esse o grande segredo novidadeiro do movimento gay.

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8 Responses “O que não gosta de mulher”

  1. 02/10/2015 at 17:35

    o interessante, professor, é que os teóricos e pensadores, quando escrevem, referem-se com frequencia ao “homem”, praticamente subentendedo-se que a humanidade=homem [palavras sinonimas, inclusive etimologicamente]. seria um trabalho homérico [de novo, uma referencia ao homem] tentar escrever sobre esse mais belo universo chamado mulher.

    • 02/10/2015 at 19:49

      A referência está correta, agora que já se tornou comum. Mas isso não impede de ser uma pista de reflexões.

  2. Kleber
    29/09/2015 at 13:15

    É triste ver um professor terminar no ostracismo de um blog na internet.

    • 29/09/2015 at 13:39

      Kleber há um problema grave com você. Grave mesmo. Você está se remoendo. Não tem nada para oferecer, nunca fez nada, sua vida passa e resta de você isso aí: uma linha de rancor num blog de um professor de filosofia. Um aviso: não terminei, tenho 58 anos. Na filosofia, isso é o começo. Esse próximo ano tem mais livro viu. Mas não é para você, só para iniciados. E sobre o CEFA, também não é para você. Só para inteligentes. E o Hora da Coruja, também não é para você. Kleber … quem?

    • Guilherme Picolo
      30/09/2015 at 08:41

      No ostracismo estão aqueles filósofos que se fecham numa concha e sequer se dignam ao diálogo com o público, ou são avessos às novas tecnologias. São cuspidores de textos-prontos, uma espécie de copidesques dos grandes autores e muitas vezes nem pra isso…
      *
      Em tempo: não sou fã e nem concordo com muitos posicionamentos do Paulo, mas quanto à produção dele a crítica desse Kleber é leviana e desprezível.

    • 30/09/2015 at 14:20

      Guilherme acho que Kebler pensa que nós, professores, temos que estar no Faustão toda noite. Acham que porque lançamos livro no Jô ou fomos entrevistados pelo Abujamra, então somos artistas que têm que toda semana estar na mídia. Eu estou na mídia específica, com o Hora da Coruja. Já tive convites de estar na mídia de noticiário. Não é minha praia. Não quero gastar meu tempo dando opinião genérica. Sou filósofo, quero continuar nas minhas aulas, nos meus livros e quando vou para o mídia mais popular, também é para fazer filosofia. As pessoas não compreendem esse trânsito. Aliás, nem sabem que nós, professores honestos, cumprimos nosso “Dedicação Exclusiva” na Universidade. Eu cumpro.

    • 30/09/2015 at 14:21

      Você deveria ser meu fã Guilherme. Se ler meus livros (não os textos do blog), será!

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