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17/08/2017

Não existe autodidatismo em filosofia – você ainda não conseguiu entender isso?


Não existe autodidatismo em filosofia. Posso ler um livro de história da filosofia e ficar sabendo de um certo itinerário da filosofia. Posso ler um livro de problemas e temas de filosofia e ficar sabendo de como essa “área” circunscreve o que é tido como relevante para si mesma. Mas nenhum desses dois procedimentos, que em geral caracterizam a atividade do que se acha um bom autodidata, proporcionam uma entrada do indivíduo no campo filosófico para filosofar. O aprendizado do filosofar é outra coisa, ele depende de uma atividade coletiva, de confraria, pois está vinculado ao processo de surpresa proporcionado pelo tortuoso jogo de “dar e pedir razões” vindo do outro.

Se alguém sabe história da filosofia e sabe dos problemas da filosofia, isso é muito bom. Mas isso é a base do filosofar, não o próprio filosofar. Este, no seu âmago, está sujeito ao que Sócrates pedia que se fizesse: o jogo do pensamento vivo. Por isso Sócrates, no Fedro de Platão, deixou claro a razão pela qual ele não escrevia livros. O livro sempre dá a mesma resposta. O livro é limitado quanto ao trabalho de criar. O livro não surpreende. O livro não é o raciocínio vivo que pega o interlocutor para lhe exigir que reformule, refaça, recrie. Só o outro, o interlocutor pode criar o que é fundamental para o raciocínio que treina o filosofar: a contradição. Era exatamente isso que o elenkhós, o método da refutação, de Sócrates fazia: ele levava o outro a cair em contradição. O interessante é que o elenkhós também levava o próprio Sócrates a entrar em contradição, e então o processo de investigação começava de novo. A primeira fase dos escritos platônicos são exatamente isso. Não à toa esses primeiros diálogos são todos peças de apresentação do elenkhós e todos eles terminam em aporias.

É interessante notar que aquele que acredita que possa haver autodidatismo em filosofia, que pode aprender lendo livros, mostra que ele mesmo não sabe ler, pois se soubesse teria lido as obras de Platão e visto que o processo do elenkhós só se faz no exercício vivo deste procedimento, na relação entre filósofos ou entre filósofo e estudante, e não é um processo (exclusivo) com o livro.

O pior de tudo é ver que há os que reduzem a própria universidade ao processo de autodidatismo. Vão para uma aula onde o professor expõe a matéria, aí voltam para casa para ler o livro. E assim fazem dia a dia. Se isso é universidade, se isso é aula, então realmente o estudante pode acreditar que tanto faz estar ali ou não. Pode acreditar no autodidatismo. Mas se o estudante lê Platão e vê Sócrates atuar, entende perfeitamente que a boa aula é aquela na qual o professor cria o processo de investigação conjunto, não por artifício didático, mas por refutações contínuas reais, onde ambos, professor e aluno, estão sujeitos à investigação. A universidade foi criada para isso, para gerar o processo socrático que, na Academia platônica, era o seu cotidiano. E que se faça justiça, em toda universidade boa do mundo sempre há os professores que são refutadores e realmente colocam o estudante para o filosofar. Mas o covarde autoritário não aguenta esse processo. Ele foge. Ele é o candidato a autodidata sabichão. O gênio incompreendido.

* * *

Bem, se depois dessa minha exposição informativa clara, ainda aparecer por aqui algum desses desescolarizados (ou que fizeram faculdade fajuta), esses que nunca tiveram um professor verdadeiro de filosofia (um filósofo), para teimar que ele é um autodidata, eu apenas terei de lamentar. É preciso ser muito estúpido para achar que filosofar na confraria de filósofos é igual a ler algo e sair por aí professando ideologias. Não é. Palestrante de auto-ajuda e militante político não filosofam. Menos ainda há filosofia na repetição de frases de Raul Seixas. A filosofia depende de um trajeto escolar como pré-requisito, e depende da universidade, pois ela tem se tornado o lugar de existência dos filósofos atuais e o lugar do enfrentamento dos problemas técnicos da área de filosofia, onde haverá algum professor capaz de trazer o estudante, talvez até mesmo fora da aula, para o processo de atuação intelectual consagrado por Sócrates. Filosofar tem a ver com variações do elenkhós. E filosofia tem a ver, hoje, com esse método associado a temas técnicos que vão além daquilo que o leigo pode entender. Não é à toa que os ideólogos que andam por aí, autodidatas, não consigam exercer o elenkhós e também não consigam saber o que é o Dasein de Heidegger e muito menos a teoria da verdade de Tarski. Aliás, não conseguem sequer entender o “tudo é água”, de Tales.

Auto-ajuda, palestra motivacional, pessimismo ou otimismo e anti-comunismo não são filosofia, meu caro! São apenas modos da ignorância se expressar.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 08/08/2017

 

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42 Responses “Não existe autodidatismo em filosofia – você ainda não conseguiu entender isso?”

  1. artur
    16/08/2017 at 17:48

    Paulo Ghiraldelli

    O seu conselho a meu ver é muito bom; só que não resido no Brasil …

    Entretanto – de momento – desejo que satisfaça a minha curiosidade: diga-me o que supôe ser Filosofia ???

    • 16/08/2017 at 18:23

      Ué, no Brasil quem quer estudar não estuda? Está se declarando derrotado? Sobre a pergunta, pegue no livro, o primeiro volume de A aventura da filosofia (Manole) dá dicas para começar a pensar essa questão. Uma questão que a cada filósofo é reposta.

  2. artur
    16/08/2017 at 07:36

    Paulo Ghiraldelli :

    Sendo que na minha actual disponibilidade financeira, não posso ter a veleidade de frequentar uma academia de filosofia, que me permita conviver – filosoficamente com professores universitários – com quem poderia eventualmente aprender a “filosofar”, somente me resta perguntar-lhe o que você considera ser Filosofia ???

    • 16/08/2017 at 10:37

      Arthur, eu mesmo já consegui bolsa para várias pessoas, para estudar. Além disso, há as faculdade públicas. Arrume seu pensamento. Ele só vai se arrumar na convivência do curso. Juro. Mas pode ir lendo alguma coisa, por exemplo, eu fiz dois volumes de A aventura da filosofia (Manole). Pode ser um início. Inclusive um início de abordagem sobre sua pergunta.

  3. artur
    15/08/2017 at 06:06

    Paulo Ghiraldelli:

    Parece-me que você ao remeter-me para a leitura dum livro, está precisamente a incentivar-me ao auto-didactismo …

    Entretanto verifico que Platão, afirma que a sabedoria dos filósofos é uma ciência; o que contradiz a sua opinião sobre a divergência entre filósofos e cientistas.

    Por outro lado, não concordo que se compare a ciência a um “espectáculo”; dado que em termos platónicos, a’ctividade filosófica é uma arte política e pública, sujeita à observação crítica dos cidadãos !!!

    • 15/08/2017 at 08:51

      Arthur, foi justamente o contrário: coloquei o livro para você perceber que está precisando de mais que o livro: escola. Você quer dar passos para além do que pode. É hora de parar e entrar numa boa faculdade. Pois você já está na fase louca de dizer “o que é filosofia”, coisa que nós filósofos ainda não decidimos.

  4. artur
    14/08/2017 at 05:49

    Paulo Ghiraldelli:

    Até ao presente momento, a minha memória não se tem comportado tanto como eu preciso; todavia agradeço, que me esclareça se efectivamente, o objectvo dos filósofos e cientistas, não é o mesmo ???

    O conhecimento …

    • 14/08/2017 at 10:22

      Arthur, essa sua pergunta está no início da filosofia, na República, é o objeto do livro V, a diferença entre o filósofo e o “amante de espetáculo”. E com respostas que já deram todo um grande capítulo para a história da cultura e da filosofia.

  5. artur
    13/08/2017 at 11:16

    Paulo Ghiraldelli:

    Mas como foi possível, acontecer essa divergência, se durante um longo período histórico, ciência e filosofia eram a mesma coisa ???

    Lembro-me que até à época de Isaac Newton pelo menos, chamava-se à actividade científica, filosofia natural …

    • 13/08/2017 at 13:16

      Arthur, essa é uma das características da modernidade, tão bem descrita classicamente por Weber, Marx e Durkheim. Não lembra disso? É o básico. Algo mais adiante que isso está nesse curso aqui no blog sobre A narrativa crítica da vida contemporânea

  6. artur
    13/08/2017 at 06:08

    Paulo Guiraldelli:

    Devo admitir – que você considera – que actualmente filosofia e ciência, são actividades cognitivas sem relação alguma uma com a outra ???

    • 13/08/2017 at 10:00

      Sim, Arthur, a ponto da maioria dos cientistas não ter conhecimento nem do básico de filosofia da ciência. Os caras não leram nem mesmo o Thomas Kuhn. Claro que isso, nos Estados Unidos, e de menor tamanho. A formação de filósofos e cientistas lá tem laços fortes por conta da tradição da Filosofia Analítica. Mas, no âmbito dos laboratórios, a ciência anda sozinha e independente, e não tem como ser diferente, pois a ciência progride por ela mesma para além das decisões dos cientistas.

  7. artur
    12/08/2017 at 13:06

    Paulo Ghiraldelli:

    Acho muito estranho que faça essa afirmação; na medida em que houve filósofos, que foram chamados de “físicos” que aparentemente, deram o nome ao que na nossa época se chama de física, justamente, pela acurácia intelectual das suas observações sobre a Natureza …

    • 12/08/2017 at 13:08

      Arthur a ciência moderna, o que chamamos de ciência, é algo completamente diferente dos phisiologoi. Phisiologoi, o próprio nome já diz, se relaciona com a physis, não com a natureza. Natureza, como objeto das ciências, é algo nosso, moderno, pós Galileu.

  8. artur
    12/08/2017 at 06:38

    Olá, Paulo Guiraldelli:

    Fico feliz por você ter sido afortunado nesse aspecto !!!

    Desejo que me dê a sua opinião, sobre se a ciência é uma forma especializada de filosofar … ???

    • 12/08/2017 at 10:51

      Athur, a ciência não filosofa. A ciência não pensa. Ela se move por um força intrínseca, mas sem caráter reflexivo.

  9. Leonardo
    11/08/2017 at 16:19

    O filosofar depende de um ambiente coletivo onde se desenvolvam debates orais, e não há como filosofar somente a partir de leitura de obras escritas…. É, realmente, não sabia que a MENTE HUMANA fosse tão limitada pra conseguir pensar indiviualmente…!! Nem que aos surdo-mudos fosse inviabilizada a possibilidade de serem filósofos!! QUANTA BOBAGEM!!

    • 11/08/2017 at 18:37

      Leonardo, o leigo entende meu artigo, mas o leigo burro não. E você é um energúmeno.

  10. Sergio Fonseca
    10/08/2017 at 10:37

    Faltou ao texto a referencia aos costumes sociais e culturais.Por que a filosofia nasceu na Grécia? Porque o método cientifico e a racionalidade nasceram na Europa ocidental? Existem povos e cultura vocacionados para a filosofia e a ciência. Só é possível “filosofar em Alemão”. Tradições autoritárias,como as brasileiras, o máximo que conseguem é o monologo enfadonho de autodidata e solipsismo de celebridades de filosofia de auto ajuda.

  11. artur
    10/08/2017 at 06:33

    Olá, Paulo Guiraldelli Jr. …

    Obrigado pela sua interessante opinião sobre auto-didactismo:

    Pelo que me parece, o processo universitário no meu país, onde eu ainda não tive preguiça suficiente para frequentar, em parte devido a uma barreira económica, pratica activamente o auto-didactismo; porque a maior parte das vezes os professores, mandam os alunos ler livros, porque durante as aulas, não têm tempo para socializar verbalmente com eles.

    De modo que os estudantes fazem provas escritas, a partir de verdades literárias.

    Tenho uma filha licenciada em história, que quando a questiono sobre os temas que estudou, manda-me ler livros !!!

    Amigavelmente – artur

    • 10/08/2017 at 18:21

      Arthur, eu um monte de faculdade, tive excelentes professores. Não posso reclamar.

  12. Augusto P. Bandeira
    09/08/2017 at 12:42

    O “menino do Acre”, dos livros criptografados, da estátua de Giordano Bruno no quarto; supondo que seu isolamento seja realmente decorrente de necessidades intelectuais, seria um exemplo de onde um estudo autodirigido e/ou mal direcionado pode levar?

    • 09/08/2017 at 19:12

      Bandeira, aquela doideira do “menino do Acre” tem por aí sim. É um tipo Olavo.

  13. LMC
    09/08/2017 at 10:37

    O pessoal quer escola “sem
    partido” só pra queimar os
    livros de Marx e Paulo Freire.
    Não se iludam!!!

  14. 08/08/2017 at 23:17

    Esse Ghiraldelli não passa de um grasmciano que não finge o suficiente.

    • 09/08/2017 at 09:11

      Rui você não sabe quem foi Gramsci e não sabe o que é um gramscianiano. Seu guru astrólogo não terminou o ensino fundamental, isso lhe dá raiva não é?

  15. Gustavo
    08/08/2017 at 22:44

    Paulo Freire seria um exemplo de marxista dogmático?
    E complementando o assunto, penso que as pessoas confundem estudar sozinho com o autodidatismo.
    Abraços.

  16. Daniel
    08/08/2017 at 20:27

    Caro Paulo,

    Parabéns pelo texto, novamente muito clara a sua opinião. Voltamos ao mesmo tema e imagino a motivação que você teve para escrever, o tema circulou pelas redes recentemente.
    Novamente eu concordo em parte com a sua posição. Não acho que a universidade seja a detentora exclusiva do debate das ideias. Temos diversos outros lugares com tipos diferentes e interessantes de debates, talvez um pouco tendenciosos ou ideológicos: na política, no governo, nas empresas, nas igrejas, o país fervilha de troca de ideias. Todos estes lugares estão carentes de reflexões mais profundas, daquilo que os métodos e conceitos filosóficos podem contribuir. Concordo que nas universidade, em especial nos departamentos de filosofia, está o conhecimento técnico profundo da filosofia, dos argumentos das diversas escolas, do refinamento da linguagem e também da história da filosofia. Ali há um debate desinteressado e apaixonado, seria realmente o local ideal. Pena que nossos professores e departamentos sejam tão tímidos, fechados em seus pequenos mundos. Deveríamos ter dezenas de páginas como a sua, com posições públicas, debates quentes, argumentação sutil, a concretização das lutas abstratas. Restam na praça os ideólogos e os da auto-ajuda filosófica, principalmente na selva da internet e dos cursos pagos, que trazem argumentos para os radicais ou o verniz fino de uma falsa profundidade para as altas rodas. Há espaço para palestras em empresas e toques filosóficos para a vida, mas sentimos muita carência de mais que isso, ir além e com mais método. Alguns buscam este saber nas faculdades e se decepcionam, nossa vida acadêmica é estéril, difícil, dura, mesmo que cheia de pérolas e mentes incríveis. Outros, como eu e o amigo acima, buscamos algum auto-didatismo, talvez com a intenção de passos mais audaciosos no futuro. Já tivemos nossa cota de universidade, a ideia de voltar não atrai a todos. Eu lembro que sempre temos a rede, tenho achado fóruns de debate interessantes em inglês, na nossa língua quase nada. E as nossas próprias vidas, onde surgem questões éticas e de significado (eu diria metafísicas) interessantes, basta encara-las com a bagagem básica de leitura. Tudo isso pode formar um espírito filosófico, não um profissional. É um trabalho pessoal e uma busca constante (o mais difícil) pelo debate comunitário, pelo espaço d a conversa, por alguma academia. Eu sigo meu estudo pessoal e com o curso à distância que sigo fazendo, encontrei também alguns espaços no Rio em ambientes acadêmicos e vamos ver o que o futuro me reserva, ainda não pude travar contato com o grupo de filosofia americana de vocês. Estou no começo da filosofia moderna agora, lendo dos originais e debatendo algumas pessoas os detalhes daqueles autores incríveis, tem sido uma jornada muito boa. Duas coisas me assustam nesse ambiente filosófico-leigo. Uma coisa eu já mencionei, a fama e força dos “sabichões” da auto-ajuda. As pessoas pagam caro para escutar uma pessoa pontificar por duas horas, caro mesmo, não há debate, é só para dizer que “eu estudei com fulano”, estudou? Outro fato interessante são os ideólogos religiosos da filosofia medieval elevada ao status de verdade absoluta. Acho que o próprio Aquino ficaria com vergonha se escutasse algumas coisas que vejo por aí, olha que sou católico, mas tudo tem limite.
    É isso, boa provocação e parabéns pelo trabalho, abraço.

    Daniel

    • 09/08/2017 at 09:13

      Daniel você não vai encontrar no meu texto essa afirmação que você colocou na minha boca, por razões suas, de que a universidade é detentora do debate de ideias, com exclusividade. Agora, o mais complicado é você achar que eu falei que filosofia é debate. Não falei. E não é.

  17. PP
    08/08/2017 at 19:27

    Isso quer dizer que em humanidades não há capital cultural sem capital social?

    • 09/08/2017 at 09:14

      PP não teorize demais. O que escrevi é simples e dá para entender.

  18. 08/08/2017 at 16:56

    ou seja, filosofo é só o senhor os outro só são coadjuvantes, né?

  19. Wescley da silva
    08/08/2017 at 14:44

    Excelente!!
    Muito mais importante do que aprender e memorizar filosofia é fazer filosofia todos os dias…

  20. Francisco
    08/08/2017 at 14:38

    Acho que a tua crítica se dirige aos autodidatas que beiram ao charlatanismo, que leem fragmentos de algumas obras clássicas e começam a fazer interpretações simplificadas para o grande público. Porém, levando para a minha realidade como estudante, noto que é muito difícil vivenciar esse espaço ideal de confraria. Faço direito na federal (tenho outra graduação e mestrado incompleto na mesma universidade) e confesso que nunca tive essa experiência num grau satisfatório, seja pelo tamanho das turmas, seja pelo interesse tanto dos alunos quanto dos professores em criar um ambiente de capacitação para o filosofar. No Direito, parece que a filosofia está pipocando por toda a dogmática, mas ninguém toca no assunto.

    Não dá nem para dizer que na pós-graduação é diferente, pois o pessoal está tão focado no próprio umbigo que esse espaço de troca de experiências não se estabelece. Tive uma única disciplina no mestrado com esse formato, no qual o professor propunha algumas leituras seminais de inteligência artificial e discutíamos em aula, mas é algo raro. O dia a dia são aulas expositivas de dogmática, chega a ser pior do que ler um livro em casa. Aliás, me defendi melhor nas provas deste semestre lendo livros em vez de acompanhar as aulas expositivas.

    Aliás, gostei bastante do teu livro “O que é Dialética do Iluminismo?”. Depois da leitura, comprei a tradução da fonte e concluí que foi melhor ter lido teu livro antes do que entrar direto no texto. Vou tateando como dá. Tenho gostado da série 10 Lições da Vozes, livros com um estilo parecido com o teu sobre a Dialética do Iluminismo, e assim vou indo… à medida que aparece um filósofo num manual sobre dogmática, eu corro atrás e tento descobrir do que se trata.

    Não vou ser palestrante de filosofia, mas acho que esse conhecimento, ainda que precário, me proporciona um algo mais para enfrentar o curso e as provas. Tem dado certo. Seria ótimo um ambiente propício para a troca de ideias entre confrades, mas os interesses são muito distintos. Enfim, achei meio baixo astral o teu texto para quem só tem o autodidatismo à disposição, ainda que eu reconheça que é uma maneira precária de estudar filosofia, mas interpreto como uma crítica aos palestrantes que leram meia dúzia de obras clássicas (ou nem isso) e já se consideram sábios.

    • 08/08/2017 at 15:47

      Francisco, a prova oral é um bom momento para o elenkhós. O fundamental na escola é o confronto, sem confronto não há pensamento. É mentira que a universidade não proporciona o confronto e experiências com elenkhós. Agora, achar que uma filosofia não conversa com outra, que filósofos tem interesses distintos, é nao entender o que está em jogo na filosofia.

  21. John Quimera
    08/08/2017 at 14:17

    Sou arrogante ou estúpido, ou talvez os dois, suficiente pra considerar-me, intimamente, um filosofo autodidata. Mas o que é que realmente importa aqui? Seu texto deixou claro que o Feedback e o Networking com pessoas reais é o que faz o filosofo.Mas isso teria que ser proveniente de uma Instituição Acadêmica certificada? É necessário ter um Filósofo de formação como instrutor para ser um Filósofo? Quem foi o primeiro filósofo? Em qual faculdade de filosofia o primeiro filosofo se formou? E quem foi o professor do primeiro filósofo na primeira faculdade de filosofia? E onde esse professor estudou e se formou, em qual instituição, com que professores? E eles por assim diante…? Estou ciente da Academia de Atenas…

    • 08/08/2017 at 15:48

      John você é um bom exemplo do cara ingênuo que não sabe não só o que é filosofia, mas o que é estudo. Só para ter uma ideia, a filosofia já nasceu de confraria, nunca existiu o “primeiro filósofo”.

  22. HENRIQUE NOGUEIRA DA GAMA
    08/08/2017 at 13:41

    INFELIZMENTE AS UNIVERSIDADES DAS ÁREAS DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS ESTÃO CHEIOS DE “DONOS DA VERDADE” QUE ALÉM DE IMPOREM SEUS PONTOS DE VISTA EQUIVOCADOS ,NÃO DEIXAM ABERTURA PARA QUE HAJA O DEBATE ENTRE OS ALUNOS E PROFESSOR. PRECISAMOS DE MAIS PLATÃO E MENOS KARL MARX.

    • 08/08/2017 at 15:49

      Henrique acho que você nunca esteve numa universidade. Tive professores marxistas altamente dogmáticos, mas que, diante das minhas questões, se puseram a filosofar comigo, a criar verdadeiros diálogos socráticos. Acorda!

    • Francisco
      08/08/2017 at 18:53

      Sobre “interesses distintos” eu me refiro à falta de vontade de pensar. Talvez à exceção da graduação em filosofia, os cursos se apresentam como espaços de leitura de manuais. O autodidatismo acaba sendo aquele “melhor do que nada” à formação. Sem isso, o egresso não é capaz de se articular tanto por dentro da dogmática, aplicando o seu ferramental teórico, quanto por fora, criticando e estabelecendo um diálogo com a tradição. Não quero com isso fazer apologia a uma atitude negativa em relação à teoria, mas apenas viabilizar um pensar minimamente crítico que não coloque o egresso numa posição totalmente passiva, como instrumento da teoria, e eventualmente como massa de manobra exagerando um pouco. Talvez numa graduação em filosofia esse espaço seja possível, afinal seria absurdo se não o fosse. Não acho que isso vá produzir um exército de engenheiros que palestram sobre Platão, mas os engenheiros precisam disso em alguma medida, assim como os juristas.

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