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20/11/2017

Não é preciso ser burro para ser laico


A religião não deve passar da soleira da porta da escola?

Caim matou Abel por razões de se achar merecedor de atenção. Não soube lidar com a expressão que, não raro, dizemos bufando: “a vida é injusta!” (título certeiro de um interessante livro recente de Thomas Macho). Diante do seu infortúnio perante o dono do destino, que é Deus (que pode ser também a Natureza ou História), Caim não soube usar da liberdade, aproveitando-se  dela positivamente. Procurou eliminar o irmão, tirando da face da Terra aquele cuja presença o fazia parecer preterido.

Essa história é puramente moral. Nenhum questão cognitiva é invocada. A questão cognitiva aparece,  mas em tradição oral rabínica, não bíblica. Conta-se que a morte de Caim, bem mais tarde, foi obra de um seu descendente, que tendo problema de visão, atirou nele imaginando ser um animal selvagem, e então escondeu seu corpo na floresta. Como se pode notar, nem mesmo é de fato uma questão cognitiva, mas uma falta perceptiva. A narrativa judaica, posta na Bíblia ou ao seu arredor, é avessa ao problema do saber.

O saber é mencionado na narrativa anterior à de Caim e Abel, quando da questão das duas árvores. Havia a árvore da vida e a árvore do conhecimento, e Deus proibiu o contato com o fruto da segunda. Instigada pela serpente, Eva comeu do fruto da árvore do conhecimento. Todavia, de que conhecimento se tratava? Novamente a questão moral: o conhecimento do Bem e do Mal, justamente o que parecia, aos olhos da serpente, ser aquilo que fazia de Deus exatamente o que Ele era, o Todo Poderoso. Notável: o conhecimento mesmo, não entra em discussão.

A narrativa filosófica grega é diferente. Ela pode ser moral e estar relacionada com os deuses, como a judaica, mas ela traz no seu interior uma questão sobre o saber. Sócrates apresenta-se fazendo perguntas de ordem moral, sobre justiça, virtude, coragem, devoção etc., mas o problema todo é que, antes de tudo, é o problema de saber ou não saber, de como saber, que está em jogo. Se um general não sabe o que é a coragem, como pode dizer-se corajoso e, portanto, ser corajoso? Se um candidato a santo não sabe o que é a devoção, como pode dizer-se no caminho da santidade e, portanto, vir a ser santo? O saber, e o como saber, e a origem do que depois de Sócrates veio a se chamar conceito, para os gregos, estava agregado ao campo da conversa moral.

Os gregos fizeram então filosofia, a tradição bíblica fez religião. Ao menos é assim que mais ou menos tratamos as coisas no nossa vocabulário. São narrativas preciosas, e nos tornamos herdeiras das duas. Abandonamos os deuses gregos e nos fiamos nos deuses judaicos, assumindo o campo ético moral do Mandamentos da Igreja (Católica). Mas não esquecemos a investigação de tipo teórica de Sócrates que, ainda que moral – como Nietzsche insistiu, para aproximar o filósofo grego de Jesus e dar pauladas em ambos -, jamais foi outra coisa que o traçado em um campo intelectual. Por isso nossa civilização ocidental se diz forjada a partir não só de Atenas, mas de Roma, sendo esta uma construção que muito deveu ao cristianismo e, por esse via, ao judaísmo.

Na escola, ensinamos a filosofia de Sócrates e sua herança como o que há de inteligente, e falamos da Bíblia com desdém, como pura mitologia boba, que deve ficar fora do ensino fomal por conta de religiosos e talvez da família. Os padres, pastores e nossas avós ensinam sobre Israel, o professor fala sobre Platão. Assim é o Ocidente laico, secular e culto. Quando isso é feito com essa divisão, na verdade, ele se torna o Ocidente inculto.

Na verdade, se ficamos com Sócrates, podemos fazer filosofia e, depois, ciência. Mas o problema é que não temos como quebrar a trajetória cultural que forjamos, e deixar o ensinamento moral de lado. Ora, e para tal precisamos da Bíblia. Nossa laicidade francesa, baseada em Comte e Durkheim, de tipo uspiana, tende a falar em moral, mas de modo envergonhado. Talvez por isso muitos professores de filosofia se dão ao direito de ensinarem moral e serem imorais, até desonestos intelectualmente, compactuando com o ensino meramente ideológico. As forças conservadoras da moral de Israel, bíblica, devem ser retiradas do caminho, para que a investigação científica passe. Assim pensam os progressistas e, pasmem, também os conservadores.

O episódio dos cães beagles presos no Instituto Royal deu-me o exemplo mais nojento a respeito dos conservadores: todos eles se diziam cristãos e, na hora H, defenderam antes o “progresso da ciência” e não o fim da crueldade. Insurgi-me contra eles (daí a raiva de alguns contra mim). Ao fim e ao cabo o Instituto foi de fato fechado. A lei mostrou que o Instituto não fazia lá tanta pesquisa assim. Era só mesmo um matadouro aleatório.

O episódio das células tronco deu-me outro exemplo a respeito, agora dos progressistas. Muitos queriam a liberação das células troncos para a questão da produção de elementos para várias doenças degenerativas. Os religiosos fizeram oposição a tal decisão. Isso forçou os cientistas a procurarem outro caminho e, então, não tardaram encontrar uma boa descoberta: toda célula poderia ser material de produção de elementos para doenças degenerativas. Isso causou um avanço fenomenal na ciência. Mas se não fosse a pausa religiosa e moral, a ciência teria ficado estanque numa via só. A moral faz pensar.

Nossas escolas podem e devem ensinar tanto Platão quanto o saber de Israel. Religião e ciência, moral e perquirição, não são incompatíveis. Mas a ignorância de ambos, forjada por dogmas ideológicos, é o que realmente atrapalha a escola.

Claro que se pagamos péssimos salários, temos os piores professores. Os piores professores são os mais cabeçudinhos, os que não entendem esse meu artigo, e são os que continuarão dizendo que a Bíblia não pode estar na escola ou que se a Bíblia entra então deve entrar o ditamos do Candomblé etc. (o que até pode ser, mas não necessariamente). Para esse pessoal, a Bíblia é coisa do Demônio.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

PS: antes que algum bobo queira ser mais bobo, aviso: não sou religioso.

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27 Responses “Não é preciso ser burro para ser laico”

  1. LMC
    23/05/2016 at 14:20

    Só espero que as olavetes não usem essa idéia
    de usar a Bíblia nas escolas contra a doutrinação
    marxista(?)e do Foro de São Paulo que os
    professores comunistas(???)estão fazendo
    em nossas crianças.kkkkkkkkkk

    • 23/05/2016 at 14:33

      LMC esse é seu problema, que é o problema da esquerda: “como vai ser USADO tal pensamento?” Essa sua pergunta não deixa você pensar, e você fica igual os da esquerda que conseguem apenas ler jornal.

    • LMC
      24/05/2016 at 12:29

      Tem gente que diz ler muitos livros,e quando
      você descobre,é livros do Chalita,Márcia
      Tibúrcio e do Pondé.É a vida….

  2. Ícaro
    22/05/2016 at 10:02

    Muito bom esse texto. O ensino de religiões como narrativas morais nunca foi um mal em si. Nossos estudantes precisam aprender a ler esses tipos de texto e por que não aprender na escola?

  3. Lohas
    21/05/2016 at 11:49

    A religião é fundamental para a vida moral do homem.

    Os nossos jovens devem aprender os princípios cristãos nos bancos escolares, pois assim serão pessoas de caráter e honestas.

    • 21/05/2016 at 12:55

      Lohas tudo que escrevi não tem a ver com isso, não nesses termos que você falou. Acorda.

  4. João Paulo Matheus
    21/05/2016 at 11:06

    Paulo,
    O Contardo Calligaris fez um texto sobre doutrinação nas escolas essa semana na Folha. Acho que vale a pena ler o seu texto junto ao dele. O que acha?
    Abraço

  5. Aylton
    20/05/2016 at 16:28

    Professor, parabéns por mais um belo artigo. A cada dia me parece que os portais de notícia vivem para incitar esse tipo de discussão. às vezes tendo a pensar que os “patinhos” que caem nessa têm um certo tipo de êxtase com relação a isso

  6. LMC
    20/05/2016 at 11:00

    Só botar a Bíblia esquecendo de
    outras religiões pra ser estudada
    nas escolas,parece coisa dos
    Malafaias da vida.É o que está
    parecendo.

    • 20/05/2016 at 14:42

      LMC você tem uma dificuldade enorme em entender textos que não lhe são familiares. E não adianta ensinar, sua cabeça é durinha. E olha que esse texto foi didático, comecei bem devagar, dei exemplos etc. Não adianta.

    • LMC
      20/05/2016 at 19:38

      Tem um deputado em SP
      propondo um kit-religião
      pra ser distribuído nas
      escolas públicas.Pra
      variar,o cara é da
      Igreja Mundial.kkkkk

    • 20/05/2016 at 20:06

      E eu com isso? Qual a novidade disso?

  7. Luís Henrique
    19/05/2016 at 22:20

    Paulo,
    Parabéns pelo belíssimo e lúcido texto! (Mais um deles!).
    Achei muito interessante essa questão da religião “inspirando” inspirando a filosofia e a ciência! Essa noção da inspiração aparece muito marcada em Lévinas e até no Sloterdijk, autor que você está fazendo a enorme contribuição de divulgar no Brasil.
    Fico pensando que o próprio Heidegger, que tanto criticava, com justa razão muitas vezes, que a ciência não sabia “pensar”, também ele “esqueceu” (não desvelou suficientemente) a herança hebraica. Ela é anterior à própria origem grega do pensamento, uma espécie de pré-origem que ele mesmo não soube muito bem escutar, apesar do seu ouvido bastante sofisticado.
    Seu texto me fez pensar muito nisso, e você conseguiu muito bem desarticular muitos lugares-comuns.
    Parabéns!
    Abraço

  8. Pedro Possebon
    19/05/2016 at 17:19

    Paulinho, sei que você já fez um vídeo sobre isso no passado. Mas ontem um editorial da Folha tocou no assunto baseado numa nova pesquisa, então eu gostaria de saber o que você acha da ideia de que as licenciaturas “dão muito mais ênfase a teorias educacionais do que à didática propriamente dita —vale dizer, às competências e ferramentas úteis na realidade da classe.”
    Há algum fundamento nesta crítica?

    • 19/05/2016 at 17:35

      Especificamente não. Não há teoria nenhuma, apenas é um curso fraco em geral.

  9. André
    19/05/2016 at 14:30

    Putz…

    Paulo como é difícil fazer filosofia hoje!

    Se você escreve um texto jornalístico, num blog de filosofia como critica cultural, e as pessoas acham que você é religioso.

    Imagina se você escrever sobre “como é possível a metafísica como ciência”, as pessoas vão entrar em curto-circuito!

    • 19/05/2016 at 16:02

      André, a coisa é difícil, mas não desistimos.

  10. luana
    19/05/2016 at 14:10

    O problema de ensinar religião nas escolas é que foco vai ser o cristianismo, já que ela é a religião dos opressores, daqueles que oprimiram, roubarem, escravizaram e são considerados os vencedores. Ninguém vai ensinar a religião dos outros povos, nem as afro brasileiras, ninguém vai dar bola para isso, afinal quando se estuda história não é assim ? só se estuda a história da Europa e ignora quase que por completo a história dos outros povos. É por causa disso que só sou a favor da aula de religião se agente deixar essa visão eurocentrista.

  11. 19/05/2016 at 13:42

    Ainda há necessidade de pesquisa co células tronco embrionárias pois as células tronco adultas são muito limitadas em relação àquelas . Dizer que a intervenção alienada de grupos religiosos causou de forma aleatória , um avanço da ciência, me soa como uma tentativa apaixonada de defender seus dogmas.

    • 19/05/2016 at 13:52

      Paulo o fato de você ser exatamente o burrinho do final do meu texto, não me espanta. Eu não sou religioso idiota.

    • 20/05/2016 at 10:03

      Perdão, mais nada a declarar sobre o resto texto, não sou contra o ensino religioso nas escolas. Acho realmente importante tanto pra filosofia quanto pra história. Sobre você ser religioso ou não, eu estava comentando sobre o seu texto e não sobre você, por isso disse que “me soa como…”.

    • 20/05/2016 at 10:59

      Paulo, leia o texto como um todo, você pegou um parágrafo, assim dá uma de menina da pedagogia.

  12. Luiz
    19/05/2016 at 12:29

    Sou favor do ensino religioso obrigatório em todas as escolas, inclusive nas públicas.

    Pois, acho que a religião funcionará como uma arma para combater toda a libertinagem e imoralidade promovida pela mídia

    A disciplina e a moral são necessários para o desenvolvimento de qualquer nação e infelizmente isso está faltando no Brasil e a religião é essencial para a moralidade e disciplina do povo.

    • 19/05/2016 at 12:34

      Luiz uma opinião como a sua não vai ser considerada, pois aqui nós consideramos só opiniões de gente que não apanhou na cabeça quando pequeno.

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