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18/11/2017

Na era da demanda pelo hiper-real


MUITO MELHOR QUE O REAL

Quando Nietzsche disse que só há interpretação, nenhum texto, ele estava acertando contas, finalmente para todos nós, com uma eterna busca da filosofia, sobre a distinção metafísica (e não de senso comum) entre o real e o aparente. Ele colocou um ponto quase que final naquilo que foi equacionado por Platão, o fundador do gênero literário chamado filosofia. Viu isso ao levar a sério o surgimento do positivismo em sua época. Se o positivismo dizia que deveríamos fincar pé nos fenômenos, uma vez que a coisa-em-si era inalcançável e, portanto, completamente dispensável, tudo que viesse após o positivismo nada seria senão a despedida da ideia de mundo aparente como falso, e, assim, o esvair da própria distinção do que é real, uma vez que este só poderia se definir na existência da dicotomia real-aparente.

Nietzsche deixou isso para o século XX e anunciou, com incrível capacidade de previsão, que ele começaria a ser entendido de modo mais amplo só a partir da agora, no século XXI. Mas ele não estava sozinho nisso. Quando faleceu, em 1900, havia se passado vinte e três anos da morte de Marx, aquela outra voz do século XIX que também iria marcar o século XX de modo decisivo, e que talvez só agora possa realmente ser lido de um modo filosófico, como fazemos com Nietzsche.  Marx foi a segunda voz forte na declaração desse insight sobre a retirada da dicotomia real-aparente, ainda que jamais tenha endossado que isso poderia dar vazão para um saudável perspectivismo (essa via foi a agarrada pelo pragmatismo de James, e recentemente por Rorty).

Marx notou que num mundo que adota a economia de mercado em planos muito amplos, todas as relações ganham o aspecto da relação que as mercadorias possuem no mercado, ou seja, a de não terem nenhum valor de uso e somente valor de troca. Nesse sentido, tudo é troca de equivalentes, ou seja, tudo é trocável pelo equivalente universal, o abstrato dinheiro. Então, nada se faz mais pelo gosto ou demanda de utilidade das pessoas pelos objetos, mas se faz de modo que o abstrato gere o abstrato, isto é, dinheiro gere dinheiro. Sendo assim, todas as trocas não se fazem mais pela distinção sobre o que é trocado, e o mundo se torna todo da cor cinzenta do dinheiro. Em um mundo em que as relações não se dão senão como relações entre pessoas, mas relações entre coisas que, enfim, não são coisas, mas algo que tudo iguala, nenhuma relação é melhor que a outra. Sendo assim, se perde, na própria vida cotidiana, o que pode ser o aparente, pois tudo é real se é abstrato. Novamente, se desaparece o aparente, o próprio real se volatiliza graças à morte da dicotomia real-aparente.

Essas duas leituras a respeito da Modernidade, a de Marx falando do capitalismo enquanto criador de um novo mundo (o do império do valor de troca), e a de Nietzsche falando do niilismo como imperativo para o mundo (a desvalorização de todos os valores), não são senão cara e coroa da mesma moeda. Essa moeda estampa a narrativa a respeito do sentimento que tocou todos os de boa cabeça, e até mesmo, em certo sentido, os néscios de meados do século XIX e de todo o século XX.

Em ambos os casos, o decreto lido na moeda cunhada pela Modernidade dizia a mesma coisa: onde está o real? E logo em seguida: poderemos permitir a afrontação geral, pois é o que pode ocorrer se o real sumir em uma espaçonave alienígena? Como faremos para “levar adiante esse mundo”? Quem obedeceria a quem e quem usufruiria de quem num mundo em que nada é dito como real, em um sentido forte, e que, portanto, a sensação de que a irreferencialidade pudesse se impor socialmente e psicologicamente?

A questão posta nunca foi a do fingimento. Fingir, todos podemos. Aqui, temos de invocar a distinção de um escrito de quarenta anos atrás de Jean Baudrillard, sobre o que é dissimulação e o que é simulação. Utilizo um jargão meio que antropológico para comentar: meu filho peludo, o Pitoko, pode muito bem dissimular, mas só o Paulo Francisco e a Paula, meus filhos humanos, podem simular. O dissimulado finge que não fez o que fez ou finge não ter o que tem. Diferentemente, quem simula diz ter o que não tem e diz ter feito o que não fez. O simulacro não é o fingimento, é a produção criativa do zero, do não feito, do não existente. É a difícil tarefa humana de se referir ao nada porque deve … escondê-lo. O mundo do simulacro é o mundo psicossocialmente imperante quando a Modernidade abre suas avenidas para que a desconfiança sobre o desaparecimento da dicotomia real-aparente se instaure.

Em um mundo assim, a reação das pessoas foi a de buscar desesperadamente alguma coisa que pudesse, mesmo, ser o real. Umberto Eco e o próprio Baudrillard vieram falando, nos últimos trinta anos do século XX e até mesmo na entrada do século XXI, sobre o surgimento do hiper-real. Este nada é senão o real “melhorado”, de modo a funcionar como uma âncora para que o navio da razão fique ancorado em algum porto. Uma âncora para desesperados.

Um exemplo bem tosco, mas válido, a respeito do hiper-real são as bonecas japonesas que esbanjam detalhes e buscam despertar o erotismo. Elas não são “para fantasiar”, como pensam alguns. Elas são a negação da fantasia, elas são a busca de negação de todo o simulacro. Elas não querem ser simplesmente reais, pois este ninguém sabe mais o que é, e há a sensação de que se alguém souber, logo irá perdê-lo. As bonecas são o que é bem melhor que o real. Elas são deslumbrantes e não envelhecem. Elas possuem detalhes corporais e nos deixam observá-los sem pudor. Elas são de boa companhia e não falam em nossa cabeça, nos repreendendo. Elas são melhores do que a mulher real.

Ron Mueck, escultor australiano hiper-realista que usa silicone e mídias misturadas para criar suas peças “humanas” que confundem o que é real.

Ron Mueck, escultor australiano hiper-realista que usa silicone e mídias misturadas para criar suas peças “humanas” que confundem o que é real.

Outro exemplo, menos tosco. Os mecanismos de games e de redes sociais gerados na construção de nosso novo e agora único espaço público, a internet. Principalmente agora, com a internet móvel, cada aplicativo de jogo e de postagem de foto nada é senão a demanda pelo real, ou melhor, pelo hiper-real. Quando estou na rede social pela minha foto, eu sou efetivamente eu. Eu sou mais real ali do que em carne e osso. Pois ali tenho a suposta testemunha de minha existência: todos. Além disso, segundo as câmeras dos Instagrams da vida, posso me apresentar como realidade melhorada. Quando estou caminhando e jogando meu game, no banheiro da empresa ou mesmo, agora, até conversando com meu chefe (levando bronca ou não – e meu chefe faz isso também jogando e postando ou conferindo postagem), estou me certificando de que estou participando de algo que me insere no mundo melhorado, no hiper-real. O jogo e a gincanização do mundo refletem isso, eles são a realidade melhorada. Na realidade, se eu perco eu perco. No jogo contínuo e portátil, se eu perco e tenho um determinado score e, então, basta eu entrar novamente no jogo. Morrer e voltar à vida são mecanismos fáceis nesse caso. Além disso, nunca ninguém é declarado fracassado definitivamente. Sempre é possível recomeçar e sempre é possível encontrar novo jogo, para que qualquer imbecil possa ganhar ao menos algum. Como se faz nas empresas, em que todos são pontuados pela performance no trabalho. Ou como no concurso atual de Miss, em que ninguém não ganha algum título, mesmo que for o de Miss Serelepe (Miss Simpatia é uma categoria a mais agora).

Esse fenômeno da busca pelo hiper-real explica também o aparecimento dos filósofos que fazem desdém da utopia. Pois a utopia é o que não é real e não pode se fazer real. É realmente um ponto inalcançável no horizonte, que lá foi posto pelos filósofos do passado para que a sociedade pudesse ver o exagero do certo e, é claro, não realiza-lo, mas corrigir o exagero do errado. Ora, em um mundo de império do simulacro e da busca desesperada pelo real na forma de hiper-real, a utopia é o sonho, é tudo que não se pode querer ou até compreender no mundo da modernidade tardia. Surgem então os arautos sabichões da não-utopia.

Uma coisa é o alerta de Theodor Adorno a respeito da utopia, após os fracassos do comunismo no decorrer do século XX, que é parecido com a frase de Oscar Wilde “quando os deuses nos querem punir, respondem às nossas preces”. Outra coisa é a apologia de que toda utopia é nociva, pois o que se quer fazer aí é o apego ao realismo. Mas não mais como realismo literário ou mesmo como realpolitik, mas como desdém blasé para com os sonhadores e como desespero na manutenção do status quo, já que nem mesmo a busca do hiper-real é possível para uma tal pessoa. Um filósofo assim é aquele tão pobre e tão amargo que nem mesmo consegue viver a histeria do momento, a histeria do gozo no hiper-real. É talvez a figura mais decrépita da sociedade. É o equivalente, em certo sentido, aos produtores da paródia do próprio simulacro, os produtores de reality shows. Todo jornal agora tem um ou dois assim agora. E não à toa esse tipo veio dos anos noventa, embalsamado no neoconservadorismo que quer que matemos animais em favor da ciência, quer que acreditemos em Deus (algo real, hiper real) ou quer que coloquemos na prisão todo tipo de ativista sonhador. Isso sem contar a fúria desse filósofo quando dizemos que sonhamos com uma sociedade que não destrua o planeta!

Nessa descrição da Modernidade tardia, que é obviamente uma noção transhistórica, temos que nos lembrar, também, de como foi Kafka (não à toa)  que leu a travessia do mar das sereias por Ulisses como tendo aspectos de simulacro. Kafka foi quem aventou que Ulisses poderia muito bem não ter escutado as sereias, uma vez que já não era um homem do mito, um homem crédulo, mas um moderno, um desencantado (Weber). Talvez Ulisses tenha, então, criado para si (e para outros, os argonautas), a postura de que tinha sim escutado o canto das sereias, para não cair no ridículo de ter se preparado tanto para o não acontecimento. Ou mais, digo eu: talvez Homero tenha, com Ulisses, deixado para todos os gregos a grande problema que depois, com Platão, se transformou em filosofia: o da fabricação, em alguma instância, do real. Foi um prenúncio de que um dia poderíamos estar às voltas com a histeria de busca pelo hiper-real.

Essas questões todos precisam ser repostas para além da própria narrativa sobre o mundo, mas a narrativa sobre um elemento tipicamente moderno: o sujeito. Prometo fazer isso noutra oportunidade.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo.

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One Response “Na era da demanda pelo hiper-real”

  1. Ademar Braga
    04/09/2014 at 15:00

    nesse nosso mundo hiper-real qual seria o papel da Arte?

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