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29/05/2017

A favor do mundo pior


Vivi o final dos anos cinquenta e início dos anos sessenta como criança. Nasci em São Paulo, mas morei também no interior. Lá tínhamos um quintal com animais. Os animais eram bem tratados. Mas nós não exitávamos em matá-los.

Eu tinha coelhos e os amava. Um dia eles foram embora e voltaram como peles. Eu estava por volta dos cinco anos. Meus filhos jamais passaram por isso. Eles sofreriam o dobro do que sofri. Por quê? Porque dos anos cinquenta para os oitenta ocorreu uma mudança de consciência, uma alteração de sensibilidade e, segundo uma maneira de denominar as coisas, progresso moral.

Podemos ou não falar em progresso moral nesse caso? Em menos de meio século a consciência ecológica mudou nossa sensibilidade de um modo radical, e isso alterou toda a nossa vida. Somos capazes de integrar os cães em nossas famílias, somos capazes de sentir a dor não mais só de humanos diferentes de nós, mas de animais. Claro que os animais mais próximos são os que conviveram conosco quando não éramos humanos e, talvez, nem eles ainda eram os animais que são (o caso do cachorro é bem isso). Mas temos ampliado a nossa sensibilidade de uma maneira muito rápida, e incluído isso em nossa legislação. Para Richard Rorty como para John Dewey isso seria sim progresso moral. É difícil não concordar com esses dois grandes filósofos da América.

Quando vejo os formados em filosofia fazendo jornalismo, como o caso do Pondé, para negar que vivemos algum progresso moral, o que sinto é que o jornalismo deveria ser deixado para jornalistas. A filosofia que diz que o mundo não pode melhorar (é uma filosofia ou mera ideologia?), que toda ideia de melhoria não muda nada ou que nem existe melhoria mesmo, é alguma coisa que merece atenção séria? Quando leio adeptos disso tenho a sensação de estar diante de gente que nunca foi capaz de passear em um quintal, de parar para escutar um passarinho ou de notar o olhar de um cachorro querendo nos comunicar algo. É gente reificada. Coisificada. São pessoas que olham para as árvores em São Paulo e não as distinguem dos prédios. Pensam em tudo como pensam em marcas de carro. Caso uma pessoa assim assista algum morador protegendo uma árvore, termina por chamá-lo de “ecochato”, mas no momento, por causa do desejo de aparecer e de dinheiro, talvez chame de “esquerdista” ou “petista”. Um passo a mais e estamos diante do total ignorante que irá chamá-lo de “comunista” e, se descuidar, estamos diante do débil mental que pede “intervenção militar”.

Pessoas assim, que em nome do realismo que elas dizem possuir, e que as faz achar que todos nós, os crédulos na possibilidade do progresso moral, somos ingênuos, querem que tudo fique como está, ou até volte ao tempo da não existência da consciência ecológica e coisas do tipo. São as pessoas que não viram o quanto pudemos ganhar com ideias generosas do liberalismo, do socialismo, do feminismo, da ecologia etc. São as pessoas que defendem a ideia esdrúxula de que não ter ilusões é uma virtude, e que tal virtude só pode se realizar se toda e qualquer melhoria vier a ser carimbada como ilusão. São os reis do círculo vicioso como coroamento do pensamento! É gente que sempre saca do colete Hitler e Stalin ou a Bomba Atômica para contestar o progresso moral, como se estivessem não com exemplos e sim com argumentos e conceitos. Gente que não escutou Sócrates sendo irônico com o caçadores de exemplos.

O progresso moral não pode existir para a “turma do Pondé” ou a “turma da Veja” (que triste vê-los juntos!) por uma razão simples: caso exista, eles, os da “turma”, se verão como quem que não quer progresso nem mesmo no âmbito moral! Desejam ser conservadores e ao mesmo tempo serem chamados de rebeldes, eternos jovens, os sabichões. Não suportam ser vistos como se declaram, ou seja, gente de direita que reclama de barriga cheia e que reclama quando há indícios de que algum humano acertou.

Às vezes preferem dizer que só acertou quem inventou o Viagra ou coisa do tipo, principalmente se descobrirem que um elemento novo da tecnologia foi feito com o sofrimento animal. Gente que nunca conseguiu entender a crítica de Heidegger à tecnologia. Aliás, não nos esqueçamos, de Sherazade até a “turminha da Veja”, todos são adeptos da defesa da ciência, se esta é capaz de produzir esmaltes com o sofrimento de cachorros, roedores etc. Se há crueldade, ah! que bom. Esse lema está embutido nessa ideologia que, se não é feita por jornalistas, pode então querer se passar por filosofia.

Paulo Ghiraldelli Jr, 57, filósofo.

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9 Responses “A favor do mundo pior”

  1. Luccas Nascimento
    11/05/2016 at 15:09

    O pessoal de espírito mais conservador confunde, ou faz parecer confundir, que o ser não implica no dever ser, principalmente, quando há a possibilidade do poder ser diferente.
    Eu mesmo partilho um pouco desse espírito, e por saber o quão danoso pode ser, tento contê-lo.
    Complicado! rs

  2. Orquidéia
    21/05/2015 at 08:11

    Todos gostam de pensar que querem
    melhorias na sociedade
    mas muitos não desejam na realidade
    viver onde existir uma solução
    para dilemas desconfortáveis
    pois ter problema é ter “álibi”.
    Se acontecer um admirável mundo novo
    a maioria “pedirá demissão”.
    O povo prefere o sofrimento
    porque com ele estravaza a ira,a imaginação
    e pensa encontrar a remissão
    da culpa gerada por sua ambição,
    por seu prazer,amor,e apego.
    *prof.Ghiraldelli,sou poetinha(poeta sem livros publicados), e me comunico melhor quando versejo.

  3. Tiago
    08/05/2015 at 20:14

    Nunca vi o Pondé falar que a ciência é a panaceia contemporânea. O Pondé é um cético pessimista, e só, não é um doutrinador. O sofrimento existe e não é negado pelo Pondé.
    Este último é pupilo de gente “ilustre”, pessoas como o filósofo Cioran, ou seja, está bem “informado” a respeito da moral.

    • ghiraldelli
      09/05/2015 at 01:11

      Tiago bem faz você que não lê o Pondé. Como eu tenho que manter informado os jovens, tenho de ler. E eu estou certo. Mas, como você não lê, o que faz bem, tem de confiar em mim. Experimente proteger animais na frente do Pondé, e ele vai responder com o artigo ridículo sobre as baratas, que usou para atacar os defensores dos beagles no caso do instituto que foi depois fechado. Mas, reitero, você faz bem de não ler. É chato e dogmático. Agora, sobre Cioran, aí já é demais. Pondé precisa comer mais arroz feijão para ser discípulo de algum filósofo.

  4. armcelia1
    07/05/2015 at 21:13

    Olha é um tanto de bobagem filosófica

    • 08/05/2015 at 10:30

      Pois armcelia o texto não é para pessoas geniais, famosas autodidatas como você. Não precisa vir no meu blog.

  5. Ronilson Teles de Sousa
    07/05/2015 at 12:49

    Mais uma vez, muito obrigado Filósofo e Professor Paulo Guiraldelli! O
    propósito da Filosofia deve ser este: dar uma sacudida no nosso
    comodismo; nos tirar do piloto automático do não pensar; dar um basta no
    nosso sonambulismo! Seu texto é ferino, provocante e escrito com muita paixão! Esse é bem o caso do escritor que se doa na sua obra!

    • ghiraldelli
      07/05/2015 at 13:09

      Ronilson o Pondé e sua turminha faz do realismo um comodismo.

  6. Ronilson Teles de Sousa
    07/05/2015 at 12:38

    Mais uma vez, muito obrigado Filósofo e Professor Paulo Guiraldelli! O
    propósito da Filosofia deve ser este: dar uma sacudida no nosso
    comodismo; nos tirar do piloto automático do não pensar; dar um basta no
    nosso sonambulismo! Seu texto é ferino, provocante e escrito com muita paixão! Esse é bem o caso do escritor que se doa na sua obra!

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Filósofo