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24/06/2017

Só entende o mundo moderno (ou pós) quem entende as Olimpíadas


Há duas teses de Peter Sloterdijk sobre esporte de alto rendimento ou esporte olímpico que nos dão a chave da nossa modernidade atual.

Primeiro. Ao contrário de Nietzsche, que definiu o ascetismo pela religião, Sloterdijk diz que o ascetismo é inerente ao homem. Por isso, com as Olimpíadas da Era Moderna, Pierre de Coubertin criou uma prática ascética em moldes de uma nova religião. Vale competir, ou seja, vale estar nela e nela continuar – não há fim. “Onde procuramos homens, encontramos acrobatas”, diz Sloterdijk, mostrando que somos seres da atividade ascética que envolve praticar hoje para fazer amanhã a mesma coisa que fazemos hoje, mas melhor. Não temos como evitar isso. Somos assim desde o nascimento, ou antes até. Ou seguimos esse aperfeiçoamento, ou perecemos.

Segundo. Somos seres do mimo, daqueles que não vivem para sobreviver, mas para um plus. Hannah Arendt disse de Nietzsche: ele distinguiu o júbilo do prazer. Somos seres do júbilo. Caso fôssemos só seres do prazer, seríamos animais iguais aos outros. Ou como disse Hegel: o homem é aquele que põe até a vida biológica em risco em favor da vida. Essa nossa ligação com o plus, com o algo mais, com o mimo, caminha na direção da construção de espaços imunitários de ampliação do mimo. Daí nossa sociedade ser, hoje, uma “sociedade da leveza”, como nomina Sloterdijk. Uma sociedade que graças ao motor e explosão e aos combustíveis fósseis, graças à eletricidade e pela pílula, deixou-nos mais livres e com fardos bem mais leves no dia-a-dia. Nesse sentido, fizemos de nossa vida um grande esporte, uma grande jogatina, que chega ao suprassumo no vídeo game ininterrupto. Mesmo quando deixamos o celular de lado e estamos trabalhando, agimos com comportamentos que imitam o game. A guerra virou um vídeo game de modo que até matar e morrer ficou leve. Somos tão leves e tão desportistas que viemos a criar a palavra “estresse”, ou seja, a nossa percepção de um cansaço, que o homem não moderno jamais conheceu. Precisamos desse estresse, ou seja, da transição do vídeo game para o esforço olímpico ou algo parecido para nos sentirmos em uma sociedade séria, real. Precisamos recriar uma situação ontológica para não sairmos voando como Ícaro e então perecermos de tanta altura. Buscamos a oneração de tipo esportiva numa sociedade desonerada a ponto de tudo virar esporte. Por isso não entendemos mais o fair  play, que exigiria a distinção entre vida do trabalho e vida do esporte.

Quando trabalhamos essas duas observações em conjunto, reconstruímos nossa modernidade atual, ou o que alguns chamam de situação pós-moderna: a única metanarrativa que temos é aquela que nos coloca integrados em um grande espaço imunitário, em uma grande esfera – que pode ser pensada com uma grande Internet mista com a vida física – em que a esportização se apresenta como o reino do entretenimento. Ou nos entretemos vinte e quatro horas por dia, ou o monstro do tédio nos pega. Junto dele, aparece o vazio, a ponta do iceberg chamado niilismo.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo. Paulo Ghiraldelli, 17/08/2016

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25 Responses “Só entende o mundo moderno (ou pós) quem entende as Olimpíadas”

  1. 25/08/2016 at 14:29

    É verdade, professor. Tens razão. Obrigada.

  2. 25/08/2016 at 12:59

    Puxa vida, meu bom filósofo, e eu aqi pensando que estava “abafando” com o meu longo comentário, abaixo! Mas, quem sou eu para discordar do professor? Perdoe-me pela “mancada”. Gosto de filosofia, contudo, a minha verdadeira vocação é mesmo a História que, também faz uma interessante intersecção com a Filosofia, o senhor sabe melhor que eu. Tenho muito que aprender com o senhor. Essse livro do Mafesolli eu ganhei de minha sobrinha, que é professora de sociologia. Mas, apenas gostaria que o senhor concorda ou não com a seguinte frase a respeito da pós-modernidade: “Se a Era Iluminista foi o triunfo da Razão e das certezas humanas, a pós-modernidade, ao contrário, é a derrota da Razão(Iluminista) e o agravamento das nossas incertezas”.

    • 25/08/2016 at 14:05

      Cândida, não se repreenda, como iria saber se eu não dissesse? Não tem obrigação de ler meus livros e meus textos.

  3. 24/08/2016 at 23:02

    Sim, claro, Paulo. O seu conceito de pós-modernidade aproxima-se bastante do que pensa Mafesolli em “O Tempo das Tribos”. A sociedade pós-moderna é a sociedade do entretenimento, como você mesmo afirma, como é também a sociedade na qual percebe-se uma centralidade do sentimento, tomando o lugar da toda-poderosa Razão iluminista, que nos precedeu, desde o século XVIII. Negar a importância da Razão seria absurdo, mas, também dar a ela todo esse poder exagerado, parece-me que é cair em um erro inverso: “O excesso de Luz prejudica a visão da estrada a nossa frente. Cega o motorista, turva-lhe o olhar”(Plínio Corrêa de Oliveira, fundador da TFP. Porém, o pós-modernismo, ao contrário de seus detratores, não é sinônimo de irracionalismo. Ainda: para Mafesolli, as pessoas hoje se reunem, se agrupam, apenas com o fito de estarem juntas, num sentimento de pertecimento, de afinidade afetiva àquele grupo, àquela “tribo”. E um bom exemplo é justamente os esportes de massa, ou mesmo os individuais, que presenciamos na Olimpíada do Rioe nas anteriores, apenas para exemplificar. Sem falar ainda de outros eventos nos quais há um grande afluxo de pessoas: shous, passeatas, desfiles de moda, comemorações cívico-políticas, funerais de grandes personalidades( Vide mortes de Ayrton Sena, Mamonas Assassinas, Princesa Diana, em Londres, Tancredo Neves, Presidente Kennedy, Margareth Tatcher- funeral apoteótico-, etc). Então, resumindo, meu bom filósofo: a sociedade pós-moderna é a sociedade do espetáculo, do ecesso, do exagero, da velocidade, da rapidez alucinada, do imediatismo, do aqui-agora! Estava me esquecendo do Carnaval, sobretudo no Brasil, no Rio e na Bahia. É a socidade, também, da tecnologia da informação( computadores, celulares, tablletes), e, coroando tudo isso: as “irmâs siamesas” Globalização e Internet! Pós-moderno é o nosso tédio, o nosso estresse de cada dia, o trânsito engarrafado, a violência urbana, o terrorismo, o medo de quem mora ao nosso lado, a futilidade do shou-buziness, a alienação da geração Pokemon Go, as drogas, o rock, o funk, o sexo fugaz e descartável. Pós-moderna é a falta de horizontes na vida. Pós-moderno é tudo de ruim, mas também, nem tudo é ruim em nossa existência: talvez lá no fim do túnel haja uma luzinha piscando, de esperança. É a nossa Contemporenidade inescapável. E por falar em Idade Média, informo que o maior medievalista do Brasil no século XX foi o meu saudoso amigo Plínio Corrêa de Oliveira. Para ele, essa balela de que a Idade Média foi uma “Noite de Mil Anos” foi uma invencionice cretina dos iluministas do século XVIII! Ah! Aqueles “doutores em guilhotina”!

    • 25/08/2016 at 12:33

      Não, não tem nada a ver com Mafesoli. Ele usa o termo noutro quadro semântico.

  4. 23/08/2016 at 23:43

    Ah! Meu bom filósofo! Como sou distraída! Esqueci-me de comentar o seu artigo! Sim, sim, sou uma perfeita “pós-moderna”! Aliás, a propósito, há uns vinte anos tive a grata oportunidade de ler a obra “O Tempo das Tribos: o Declínio do Individualismo nas Sociedades de Massa”, do sociólogo francês Michel Mafesolli, da editora Forense Universitária. Já li que a Pós-Modernidade seria uma nova “Idade Média”. Concorda? Ou ainda, seria um “fim de capítulo” na História cultural do Ocidente?

    • 24/08/2016 at 12:40

      A Idade Média, dependendo do período, foi uma idade de ouro. Os termos referentes à história, entre filósofos, em geral dizem respeito à filosofia da história. Também o meu é mais ou menos isso. Vivemos a a era do entretenimento, na minha acepção. Isso não exclui todas as outras acepções, só algumas.

  5. 23/08/2016 at 20:36

    Meu bom filósofo, aqui quem lhe escreve é aquela velhota esquisita, a latifundiária da TFP. Sei que o filósofo, de esquerda como deve ser, tem ojeriza pessoal e ideológica a uma pessoa que se diz “latifundiária” e da “TFP”, não é verdade? Mas, eu sou tudo isso e mais um pouco! Só para o senhor ter uma ideia, pareço-me, física e psico-ideológicamente, com a Dona Encarnação(Selma Egrey) da novela “Velho Chico”. Assisto à novela, particularmente por causa dessa personagem tão polêmica e contraditória e, claro, pela brilhante atuação de Selma Egrey, uma atriz de talento inestimável. É impressionante o quanto ela e eu somos parecidas! Confesso que sou até ou mais autoritária que ela! Tenho uma personalidade fortíssima, também. Devotada à causa da Família, da Tradição e, claro, da Propriedade! Somos “irmãs gêmeas”, em tudo! Ultracatólica e “utramontana” feito ela, mesma! Mas, sou mais coerente na Fé. E ambas ricas latifundiárias, o que é mais incrível! Ela, no Agreste, e eu, no Sudeste! Ela pplanta árvores frutíferas, e eu, café, soja, borracha, laranja, cana de açúcar, etc. Muitas semelhanças e algumas poucas diferenças. E quem me ajuda na hora da novela é minha empregada, a Lurdinha, comigo há mais de 50 anos, que descreve todas as cenas das novelas, uma vez que não enxergo mais. “Audio-descrição” melhor que a da Lurdinha, não há outra! Fiel e eficiente. Melhor que na cozinha! Para encerrar, meu bom filósofo, quero parabenizá-lo pelo dia de hoje, 23 de agosto, seu aniversário. Muita saúde, paz, vida longa, conservando sempre essa inteligência e essa sabedoria, brindando-nos com esses belos textos, tão acurados e de um raro lampejo.

    • 24/08/2016 at 12:44

      Cara devota de Plínio, também vejo a novela, a melhor que a Globo fez desde Roque Santeiro. Impecável na psicologia dos personagens e na narrativa. Só a falta de TV no nordeste já tecnologizado, é dez. A fusão dos vários misticismos, então, dez de novo! Não esqueça do seu donativo para o CEFA, faça-o gordo, para o Hora da Coruja, não vai lhe faltar, tenho certeza. Obrigado.

  6. Roberto W.
    18/08/2016 at 21:54

    Caso exista, qual seria a lição moral, ética ou filosófica da história de Ícaro?

    • 19/08/2016 at 01:54

      Há dezenas, uma delas, como Sloterdijk usa, é que a leveza tem limites, precisa de limites, quando estamos numa situação desonerada, de alguma maneira encontramos uma oneração no interior da desoneração. É como se precisássemos de alguma âncora ontológica para não no perdermos.

  7. Thiago Leite
    17/08/2016 at 22:11

    Nesse caso se o sujeito ficar só consigo mesmo, então ele corre o risco do niilismo?

    • 17/08/2016 at 22:11

      Se ele não se dá conta de que o si mesmo é um duplo, talvez.

    • thiago leite
      18/08/2016 at 13:26

      Como é esse duplo? Não entendi….

    • 18/08/2016 at 13:43

      Somos duplos, se não fôssemos, não teríamos essa dualidade eu-si mesmo.

    • Thiago Leite
      18/08/2016 at 20:17

      Você tem algum texto sobre o eu-si mesmo?

    • 19/08/2016 at 01:56

      Quase todos os meus livros são sobre a subjetividade.

    • 23/08/2016 at 23:58

      Mas você já escreveu um texto no blog sobre isso, sobre a impossibilidade de estar sozinho. Mas não lembro o tema pra facilitar.

    • 24/08/2016 at 12:38

      Sim, somos um duplo, não deveríamos estar sozinhos. Mas nossa não percepção mais do duplo, nossa naturalização de nossa reflexão nos leva à solidão, a achar que estamos sozinhos, e então há nossa busca do duplo nas coisas. Um fetichismo.

  8. Rafaela da Fonseca
    17/08/2016 at 19:59

    A afirmação ”Ou nos entretemos vinte e quatro horas por dia, ou o monstro do tédio nos pega. Junto dele, aparece o vazio, a ponta do iceberg chamado niilismo.” revela um profundo vazio existencial, uma solidão enorme, um grande autoabandono. São 3 características presentes no ser que se ignora e se desconhece.

    • 17/08/2016 at 22:06

      Rafaela, autoconhecimento é um perigo, pode apenas devolver para você o mesmo que já tem.

    • Silvia Dias de Brito
      18/08/2016 at 08:59

      Paulo, Olá! Não vejo perigo algum em autoconhecimento. Pelo contrário, o perigo está na ausência de autoconhecimento. O perigo de se sobreviver de modo falso! De ser um mero escravo do ego e dos defeitos psicológicos que o compõem.

    • 18/08/2016 at 12:18

      Sílvia, é que autoconhecimento na filosofia tem uma longa história. É algo com diferentes acepçoes. A sua acepção é exatamente a que está um pouco fora da filosofia, a tomar pela última frase, e é isso que eu temia. Sugiro o meu Sócrates: pensador e educador (Vozes), que quiser saber como levo esse assunto.

    • Cecília
      18/08/2016 at 14:51

      Paulo, como muitos filósofos vc cria uma verdade\realidade e quer que tudo se adapte a ela, colocando a cultura ou realidade, ou a forma que vc quiser colocar, mas fazendo dessa realidade algo necessário, o destino de todos nós. Porém, como nosso Nietzsche falo, não há fatos, só interpretações.

    • 18/08/2016 at 17:32

      Cecília, uma interpretação pode ser melhor que a outra para quem vive a situação recortada. Acho que você não se deu conta da profundidade da frase de Nietzsche, a tomou sem pensar.

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