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16/08/2017

Não existe um mundo dividido em “capitalismo e socialismo”


Os professores já estão sabendo ensinar o que ocorre? Ou caminham num mundo sobre o qual só carcomido conversa?

Os bons professores de história, filosofia e ciências humanas já sabem, faz tempo, que não podem mais ensinar o capitalismo aos alunos contrapondo-o ao socialismo. Mas sabem também que devem manter várias referências aos escritos de Marx teorizando sobre a distinção entre capitalismo e feudalismo. Assim, a distinção clássica é a que permanece. A distinção política, atinente aos dramas conjunturais do século XX, não mais. O socialismo deixou de existir, e a versão dele dada pela social democracia sofreu profundas modificações.

Chamar alguém de fascista hoje em dia tem sentido, uma vez que fascismo é um conjunto de comportamentos, chamar alguém de comunista não faz mais sentido algum, dado que ser comunista era ser adepto de uma política específica, que não tem mais nenhum adepto sério.

Os bons professores também sabem que os termos esquerda e direita continuam valendo, uma vez que eram termos não referentes a socialismo e capitalismo, mas a pobres e burgueses de um lado e nobres e clero do outro. Depois, os temos esquerda e direita ganharam a conotação de “pobres versus ricos” e “povo versus elite” etc. A ideia de uma economia estatizada ou nacionalizada não era a distinção real, nunca foi, entre socialismo e capitalismo, uma vez que já no meio do século XX surgiram inúmeras formas de capitalismo de estado ou, na versão mais cínica, de socialismo nacional ou nazismo. Estes, é certo, nada tinham de esquerda, mas eram a extrema direita.

Faz tempo que nosso mundo, quando analisado pela filosofia de ponta, não vê nenhum sentido na ideia de “capitalismo versus socialismo”. A maior parte dos intelectuais que trabalham com teoria de ponta, tomam a palavra capitalismo ampla demais e já não explicando nada. Falamos muito mais, agora, em fenômenos que ganham ao conformarem os gostos dos formadores de opinião, todos eles muito ligados na imensa classe média, que dá uma nunca sonhada uniformidade ao mundo em tão largo espectro. Essa classe média vive na sociedade da super abundância – a afluent society de Galbraith. Essa sociedade é a chamada de “realidade atual”. Três fatores dão o enredo ao que chamamos, hoje, de realidade: enorme sobra de tempo livre em vigília, enorme juvenilização de todos, grande empenho em diversão, tendo o sexo como elemento central disso, tudo regado pela cultura do individualismo associado ao mesmo tempo a uma sociedade de massas vivendo na espuma de meios de comunicação variados que tornam tudo simultâneo e enredados numa espaço quase único.

Há uma série de benefícios desse mundo leve. Há uma série de problemas novos vindo dele. Gente como Richard Rorty, Foucault, Daniel Bell, Lyotard, Derrida, Deleuze, Sloterdijk, Thomas Macho, Donald Davidson e outros têm nos ajudado a compreender esse mundo. Nietzsche, Marx, Freud e Heidegger, nesse mundo, são tomados como lição escolar básica, agora tanto quanto sempre foi Platão. As pessoas que não perceberam isso porque ficaram fazendo jornalismo e lendo as mesmas coisas nos últimos vinte anos, infelizmente só alimentado ideologias próprias como o cornudo alimenta a esposa que o trai, podem escrever livros e até ter muitos leitores, mas não estão dizendo nada de interessante.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

Figura: note a leveza do último homem.

Evolução

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7 Responses “Não existe um mundo dividido em “capitalismo e socialismo””

  1. Alfredo
    25/11/2015 at 02:48

    É interessante que há pessoas que acreditam que esquerda é sinônimo de socialismo e/ou comunismo, e estes, sinônimos de ditadura. Semana passada estava conversando com um colega de trabalho e ele não acreditou que possa existir uma “esquerda democrática”. Detalhe: ele é leitor da Veja.

    • 25/11/2015 at 02:52

      Alfredo precisamos de escola, estudo, de professores desvinculados de ideologias. Precisamos de menos colunista de jornal. Precisamos de gente que traga a juventude para o gosto pela leitura sem política. A politização é um mal. O brasileiro está politizado demais. Isso gera esse tipo de gente, que acha que as dimensões da vida se resumem na dimensão política. É gente que acha que isso que você falou é um saber. Um saber importante. Não é.

  2. roberto quintas
    18/11/2015 at 14:35

    o mundo não está dividido entre capitalismo e socialismo simplesmente porque ainda não existiu um regime ou modo de produção socialista. o incauto leitor deve perguntar: e a URSS? e a Coréia do Norte? e a China? e Cuba? apesar do rótulo, esses modelos de regime não eram socialistas. para entender a “diferença” entre capitalismo e socialismo, basta nos atermos à raiz das palavras. uma tem foco no capital, no lucro, na produção e consumo industrializado. a outra tem foco na sociedade, portanto, há a necessidade primeiro de que a sociedade seja organizada politicamente [o que não aconteceu nos regimes citados]. então o socialismo seria o átimo da sociedade representada por organizações vindas dela mesma, destoando da teoria do partido único, do Estado Totalitário, da economia dominada por tecnocratas.
    capitalismo e socialismo são modos de produção, que refletem em politicas econômicas, não há uma divisão maniqueísta do mundo por que ainda somos todos humanos.

    • 18/11/2015 at 21:27

      Roberto, acorda vai! Tem dó. Respeita o saber da escola fundamental.

  3. 16/11/2015 at 19:08

    Em algumas pesquisas sobre século XX, eu tinha encontrado que o socialismo não passa de um capitalismo de estado, onde o estado é o maior proprietário de meios de produção. Aquele acontecimento depois de 1945 não é 2015.Quem quer ser um educador em ciências humanas tem que saber em não frear no tempo e sim acompanhar as mudanças.

    O livro do sociólogo Jessé Souza, “A Tolice da Inteligência Brasileira”, será lançada em 1/12/2015 na Saraiva em pré-venda. Segundo numa entrevista feita pelo site “O Globo”, ele diz sobre a tolice dos grande pensadores brasileiros e sobre a questão da classe média atual.

    • 16/11/2015 at 19:36

      Uerder acho que o melhor sempre, para todos, é fazer um bom ensino fundamental. Com bons professores.

    • 18/11/2015 at 12:43

      Eu queria só dizer que antes de eu encontrar os seus trabalhos em 2015, eu tinha encontrado em pesquisas sobre o capitalismo de estado. E esse texto, deste site, somente complementou. Seus textos auxiliam os indivíduos em novas perspectivas. rsrs

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