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30/05/2017

Finalmente chegamos ao mundo do divertimento


Estamos sem inimigos. Pela primeira vez em sua história, a burguesia e seus herdeiros, nós mesmos, os modernos escolarizados, estamos todos sem inimigos. Todas as doutrinas que faziam inimigos, o nacional socialismo, o comunismo e variantes disso já não existem mais. Bin Laden está morto. Talvez o próprio Terrorismo Internacional já tenha perdido sua condição de última religião bélica. Para tempos como o nosso, as demandas são outras.

O sujeito não para mais sobre as pernas pela figura da autonomia e desinibição próprias, mas pela desinibição dos consultores. Afinal, consultores são melhores que ideólogos uma vez que eles tratam os que estão na oposição a nós como nossos adversários, não como inimigos. Pois em uma sociedade de mercado, em uma economia de mercado, vale sempre ter todos em cadeias de interdependência. São esses consultores que nos guiam. Ou nos guiavam.

Mais recentemente, nossos consultores nem mais são os agentes que falam sobre sucesso empresarial ou senhores que estiveram nos ministérios e vendem então “dicas” de se sair bem, nem são mais, no plano individual, gurus e professores de ambientes murchos como a Casa do Saber. Nosso tempo livre no Ocidente realmente aumentou e agora temos homens capazes de nos desinibir para a ação que são bem diferentes, embora já tenham existido antes: são os homens da indústria do divertimento. Todo mundo acha que pode fazer programa de humor ou ser um herói stand up!

Essa praga infestou tudo e, assim, até mesmo os antigos consultores, se tornam herdeiros do bobo da Corte, que é o homem à frente da indústria do divertimento, que se põe como empresário, ator, apresentador, sabichão, guru, político etc. Escreve livros até! Escreve livros de piadas reacionárias obrigando até filósofos a imitá-los.

Sermos sujeito hoje é, então, alcançar a desinibição e a consequente passagem da teoria para a ação segundo uma paródia do que já é uma paródia da reflexão. Compra-se o que fala o novo consultor, aquele que não nos faz rir, mas nos dá a sensação de que teríamos que rir. Chegamos à época de que em tudo há de se ter divertimento. O trabalho tem de ser divertido. A aula tem de ser divertida. O mundo tem de ser divertido. Quando tudo é divertido, tudo diverte e então temos a sensação de que somos alegres e, caso não, devemos sê-lo. Estamos nos divertindo com o nada, como até pouco tempo estávamos consultando consultores que não nos diziam nada que pudesse ser realmente um saber.

Nesse mundo sem sujeitos que se acoplem à subjetividades adrede preparadas pelo projeto iluminista ou romântico utópicos, sem ao menos ideólogos e filósofos, até sem consultores, sem indústria cultural ao menos, temos então a nova geração de agentes, de atores, que somos todos nós tentando ainda achar que decidimos alguma coisa. Sim, temos soberania, mas apenas a de “escolher a armadilha em que queremos cair”, para usar uma expressão de Peter Sloterdijk, apropriada para este tema.

Esse mundo não tem inimigos; e só divertimento. Assim, nossas histórias se voltam para o que poderia ser nossos inimigos, ou seja, nós mesmos em nossas casas. Dráculas, King Kongs, Hitler e Stalin – eles estão todos agora dentro de nossas casas. Fenômenos que antes atribuíamos ao mundo social e político, ou à maldade em geral, agora são questões domésticas. Mas, também com a diluição entre a fronteira entre o público e o privado, outra característica de nossos tempos, todas essas histórias que ocorrem no âmbito doméstico não são outra coisa senão aquilo que pode ir para o facebook e, então, para o cinema. Nascem os inúmeros intensos e medíocres dramas de agora com seus respectivos novos bandidos: o pedófilo, o negro oprimido, o homossexual que é pai, a garota lésbica por meia hora no colégio, o bullying da gordinha, a vida de casais separados, a vida dos velhos largados pela família, a ninfomaníaca, a portador de Alzheimer e por aí vai. Ninguém em nossa época é capaz de entender Doutor Jivago. Não há pano de fundo para o drama caseiro se inserir no drama mundial. Pois, afinal, qual seria o drama mundial? Talvez a Copa da FIFA?

Agirmos como falsos sujeitos e então criamos histórias de falsas intimidades. Nosso cinema está povoado disso. Há quem consiga tirar disso alguma história edificante. Mas, uma boa parte dessas narrativas é feita para os medíocres e filisteus da cultura com mestrado. Justamente os que estão hoje agindo segundo as diretrizes dadas pelos novos bobos cada corte.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo. A filosofia como crítica da cultura (Cortez, 2014)

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11 Responses “Finalmente chegamos ao mundo do divertimento”

  1. Charles Lopes
    09/07/2014 at 10:25

    Desde que a internet começou estivemos buscando os arquétipos que melhor representassem nossos desejos, mais reprimidos. Agora passamos tanto tempo fazendo isso, que nós mesmo nos tornamos esses arquétipos fantasiosos e não passamos de meros caronas, em nossas próprias vidas, guiados pelo quarto poder e pela nova onda de cada momento. Que pena!!!

  2. Troksky
    08/07/2014 at 21:38

    Nem a seleção perdendo feio o povo acorda da ‘Matrix’, hein?

    • 09/07/2014 at 10:03

      Se estivéssemos na Matrix seria mais fácil, caro revolucionário.

  3. juniN
    08/07/2014 at 15:44

    O radicalismo islâmico hoje tem mais inimigos do que nunca!

    • 08/07/2014 at 16:09

      Junin é difícil para você entender meus textos heim? Mas, olha, só para você.

  4. Renato
    08/07/2014 at 11:44

    Então, chegamos finalmente em um tempo em que se consumou a vitória do niilismo?

    • 08/07/2014 at 11:51

      Renato, bem, não sei se você sabe o que é o niilismo. Dê uma olhada nisso, em Nietzsche.

  5. ailton
    08/07/2014 at 11:06

    E os gurus de sempre e alguns filósofos vão aparecer pra dizer que estamos vivendo a ditadura do entretenimento, aguarde só!@ e todos vamos rir disso, óbvio
    né Paulo

    • 08/07/2014 at 11:52

      Ailton, já estão dizendo. Mas não caberia muito bem dizer isso. Ditaduras pressupõe brechas de não concordância. Totalitarismo não.

  6. 07/07/2014 at 19:12

    “Em tempos de paz, o homem guerreiro faz guerra contra si mesmo.”

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo