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20/11/2017

Como as mulheres querem o sexo?


Os transgêneros poderão entrar em banheiro feminino. É uma boa medida, dizem alguns homens que sonham em saber o que as mulheres conversam no banheiro. Até os homens que sabem o que é conversado gostariam de ouvir, porque imaginam que não sabem. O que as mulheres conversam é sobre o que os homens mais temem: sim, sim, é sobre o tamanho do pau!

 No sagrado lugar em que deliciam o papel higiênico pela xoxota enquanto conversam, como bem gosta de exibir Almodóvar, elas desmentem entre si o que disseram na mesa: o tamanho importa até mais que o cartão de crédito. Se não todas, ao menos as que gostam de sexo. Estas, sem dúvida, preferem antes um útero machucado aliado a uma xoxota satisfeita que aquele útero posto no pedestal do ginecologista, mas que traz a tiracolo uma mulher frustrada.

As mulheres anorgásmicas e frígidas ainda são em grande número. Para o espanto de muitos, o Brasil não é o lugar do paraíso da mulher satisfeita. E o desempenho do homem na cama não é o único culpado. Todavia, de trinta anos para cá, a mulher quer gozar. E como ela se inicia no sexo por volta dos 14 anos, aos 20 ela é uma veterana. Então, se tem um namoradinho de sua idade, na maioria das vezes é só fachada. Os homens mais velhos a fazem gozar melhor. Eles são mais lentos, mais experientes, mais calmos com a situação financeira e, portanto, mais seguros. Dizem por aí que o homem de classe média hoje em dia termina a adolescência após os cinquenta anos! E é mesmo quando o homem pode ser aturado por uma mulher inteligente e que quer sexo. Também é quando um homem hetero já descobriu que ele não é totalmente hetero porque isso não existe, e que isso não importa muito porque ele não vai sair com homem nenhum. Também é quando um homem moderno descobre que ele tem de tomar algum antidepressivo ou ansiolítico (reguladores de sinapse etc), além de fazer uso do Viagra (não use o genérico, é efeito placebo!) que pode atualmente ser comprado pela própria mulher. Nenhuma mulher solicita hoje em dia “amor natural” do mesmo modo que poucos tomam Coca Cola natural (!), ou seja, a não “Zero”.

Assim funciona o relacionamento amoroso sexual atual na nossa classe média urbana, tomando esse termo em função de renda (e não de modo marxista) e de modo bem ampliado. Pode-se acrescentar entre os muitos jovens a chamada “pegação”, ou seja, uma maior troca de parceiros ou então, para as mulheres que agora são livres e independentes, a vida parecida com a do homem, a de ter várias parcerias ao mesmo tempo. Isso não dura a vida inteira. O casamento é ainda um ideal. Não vai deixar de sê-lo tão cedo. Mas ele só encerra a parceria múltipla de homens e mulheres nos primeiros anos. A vinda dos filhos joga o homem para a sua secretária ou colega de trabalho ou “uma vagabunda da internet”. Essa “vagabunda” é sua própria mulher, mais tarde, quando ela fizer o mesmo já que as crianças crescem. Homens e mulheres que não traem são poucos, embora cada um de nós ache que pertence a essa tal minoria.

O mundo ocidental moderno aprendeu nesse contexto o sexo segundo encontros rápidos, fortuitos, menos compromissados, uma vez que o sexo se tornou cativo da imagem, e não mais só da imaginação, porque o mundo moderno também ficou cativo da falta de tempo e, por isso, teve de cair de joelhos diante da imagem. Antes a imagem que o texto é o que as mercadorias nos ensinaram que deveria ser a regra do mundo. E como o sexo caiu sob essa rubrica, ele também entrou no clima. É aqui então que se impõe sobre essa situação sociológica, uma pitada de filosofia.

Uma sociedade como a nossa é uma sociedade de imagens. Parecia poder ser uma sociedade do gesto. Mas não conseguiu tal proeza. Seguindo Deleuze, Agamben[1] lembra que a matéria do cinema é o gesto, não a imagem. Mas ele também se refere ao nosso tempo moderno como o da perda do gesto em função da imagem, mesmo que o novo eleito tenha sido o cinema, que passou a ser uma arte e que realmente dominou o século passado. Agamben faz uma diferença crucial entre o que é da ordem do fazer, do agir e do gesto. O fazer tem a ver com a produção de algo, o agir com a ação não necessariamente produtiva e o gesto, por sua vez, é a ação como puro meio. Respectivamente: posso fazer executar um movimento que parece o andar, mas que é o de pisotear uvas na produção do vinho; posso fazer um movimento que é parecido com o andar, e que é o próprio andar, que executo para ir de um lugar ao outro, mas posso também simplesmente fazer esse movimento por ele mesmo, exibindo uma dança. Nesse último caso, temos o gesto, a “exibição da medialidade”, a dimensão estética e ao mesmo tempo um ethos, uma exposição de um modo de ser, um jeito, uma dimensão ética.

A imagem é a suspensão do gesto. Ela o interrompe e o coloca de volta no circuito do igual, do abstrato, que é o circuito da sociedade onde a abstração do mercado tudo penetrou. Mercadoria é então imagem e imagem é mercadoria. Ambas igualáveis por dinheiro, o equivalente universal. A sociedade da qualidade homogênea e a sociedade onde o valor é só numérico é a sociedade sem valores propriamente ditos. Nesta sociedade, conta pouco o ethos, a ética embutida no gesto. Na perspectiva que defendo, o filme pornô é movimento sem gesto, pois ele é antes de tudo imagem e não filme. Um movimento contínuo de penetração pode ser obtido a partir de meras duas imagens se revezando, como em qualquer desenho animado ou, agora, em qualquer imagem de “gif animado”. Posso ficar olhando para a penetração que nada é senão duas imagens, e isso durante horas. Serve não para me excitar somente, mas, obviamente, para me “alienar”, isto é, tirar de mim a carga ética, e por isso me jogar para fora da sociedade e me deixar leve por conta de eu não me lembrar de nenhuma regra, nenhum “não faça tal coisa” moral.

Uma sociedade de imagens, não mais de textos e gestos. Isso é tudo que precisamos para que as relações apareçam como mais leves, e que a vida seja “adequada” a um mundo de relações que fazem da intimidade e tudo o mais algo pouco denso, sem grandes amarras. O sexo com diversos parceiros, com a busca da satisfação rápida; a busca do homem de pau grande que “resolva” o meu problema; a secretária que pode dar e que, se não der, não me jogará de volta para a minha esposa, mas para algo mais fácil ainda que o sexo virtual – tudo o que era compromisso precisa ser diminuído diante dos compromissos que a vida do trabalho coloca. A felicidade é a vida sem compromisso – diz a TV. Tudo que a tecnologia permite como sendo fácil para a felicidade precisa também ser regrado por uma moral que não emperre nada. Uma sociedade de imagens facilita tudo isso. Elas são leves pois não são do âmbito do gesto, só parecem.

Mulheres e homens estão atolados na vida como império da imagem. Há dúvida sobre isso? As mulheres querem fazer sexo, claro, e os homens já passaram disso e querem só as imagens disso.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo. Autor de A filosofia como crítica da cultura (Editora Cortez).

[1] [1] Agamben, G. Notas sobre o gesto. In: Meios sem fim – notas sobre a política. São Paulo: Autêntica, 2015, pp 51-61,

 

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8 Responses “Como as mulheres querem o sexo?”

  1. Gislaine
    18/03/2015 at 21:40

    Professor, mas que cérebro afiado!!! Não sei (me corrija se estou enganada), mas este teu artigo de alguma forma está relacionado ao “O que é pecado nas novas religiões”. Afinal imagem não deixa de ser uma linguagem e assim como a linguagem da (nova) religião torna tudo mais fácil (ou mágico como você bem colocou) a mesma coisa acontece com o sexo nesta sua perspectiva. O prazer instantâneo. Mas é triste constatar que tudo nos leva a alienação, mesmo quando achamos que não! Triste! Entretanto, seus textos sobre o assunto (sexo) são um grande estimulo… kkk
    Agora Professor, porque ando com a impressão que os meninos não andam fazendo muito sexo não. Uma visão da mulher que mistura Disney Chanel com vídeo game. Esquisito… kkk

    • 18/03/2015 at 21:44

      A questão é entre gesto e imagem. Aí está o truque. A imagem é elemento que colabora com a velocidade e a velocidade amplia o descompromisso. Nossa felicidade ou nossa ideia de felicidade atual é a ideia do descompromisso. Então …

    • Hayek
      19/03/2015 at 16:34

      Paulo, vc está enganado. Mulheres gostam de romance, por isso q gostam de filmes românticos. Se elas fossem tão punheteiras assim pq a Gmagazine não vende mais q a Capricho?

    • 19/03/2015 at 19:31

      Ha ha ha Hayek você é jovem.

  2. Mario
    18/03/2015 at 20:27

    Filósofo, se elas gostam tanto de pau mais porque tantas mulheres gostam de ser chupadas na perereca?

    • 18/03/2015 at 20:28

      Mário você está com problema sérios heim? Ou seja, como gostam de serem chupadas e como você ouviu dizer que eunuco chupa então você concluiu que elas devem gostar de eunucos!

    • Arthur Max
      19/03/2015 at 09:08

      Mulher gosta de pau que a faça se sentir apertadinha. Quando o cara tem pau fino ou pequeno, elas ficam numa situação muito difícil: não podendo dizer na cara do cara que ele é que tem o pau fino, entre quatro paredes ela passa por mulher folgada.

    • Bony
      19/03/2015 at 08:48

      Mario, elas tambem gosta de linguada no meio do cu.

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