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29/03/2017

Mulheres machistas


“As mulheres são machistas”, criam os filhos para louvar o que é “masculino” e as filhas como submissas ao “mundo masculino”. Todo mundo sabe disso. E todo mundo sabe também que tanto no Ocidente quanto no Oriente, desde tempos imemoriais, isso tem lá sua verdade. Mas como a noção de realidade, ao menos desde os fins do século XIX e ainda mais agora, após final do século XX, é tida como “uma construção” de narrativas, tendemos a nos esquecer que há elementos ditatoriais que fazem a realidade ser a realidade. 

Em toda e qualquer narrativa sobre a realidade, por qualquer construtivismo que possamos caminhar, no caso da mulher há um elemento central que não podemos desconsiderar: o recente fim de sua trágico-cômica-amorosa ligação com a ditadura da natureza. Ou seja, não temos ainda sessenta anos do início da possibilidade da mulher ser, como o homem, um habitante inerente da cultura. Toda mulher era, antes de tudo, uma máquina apanhada pela natureza, principalmente quando viajante do prazer ou da desgraça na carruagem da experiência sexual. Desde que a mulher deixou de ser uma progenitora para adquirir a função de mãe, tornou-se aspirante a se candidatar a entrar na cultura, mas sabendo de sua impossibilidade. É bobagem achar que a gravidez foi ou é alguma coisa de nove meses. Uma vez grávida por uma vez, então, sempre grávida. E se não estiver grávida? Estará um dia ou é forte candidata para tal, ou seja, em um determinado momento, a mulher vira mulher, deverá virar mulher, a prisioneira da natureza. Mulher: aquela que não pode sair da caverna. Nem a caverna do lar e nem a de Platão.

A pílula anticoncepcional quebrou isso. Ela dá câncer e agora dá trombose. Mas ainda assim é uma solução. A segunda solução, o aborto, não é a mesma coisa. E a solução de não engravidar é “ter vida de homem” e, portanto, não é opção. Mesmo assim, mulheres pobres ainda precisam ter filhos para se mostrarem atraentes para seus maridos e para terem sociabilidade. E isso, a sociabilidade, é tudo em lugares pobres. É o próprio sentido da vida. A ditadura da ligação da natureza continua. Mas o número de filhos diminuiu e a possibilidade de aparecer o feminismo e, então, criar a mulher como o que conhecemos hoje – e que nossos antepassados não muito distantes não conheceram – é o que gera um traço fundamental de nossa época.

Os conservadores não entendem isso. Não sabem que a desvinculação da natureza pela pílula e pelo feminismo criaram a mulher. São pessoas que não sabem que mulher, como entendemos, só existe a menos de sessenta anos. Os conservadores ainda pensam em mulher e homem como distinções biológicas a partir da morfologia de órgãos genitais. Eles imaginam que órgãos genitais funcionam e, uma vez assim, dizem para o aparato cerebral histórico de cada um: você é homem do século XXI brasileiro, você é mulher do século XXI brasileira. Eles imaginam um pequeno cérebro (atávico) na vagina e no pênis.  Mas, claro, os conservadores pensam isso porque são conservadores, ou seja, em geral, um pouco incultos quanto ao poder de construirmos a realidade. Eles em geral são realistas. Falam da “realidade” com boca cheia. São doutores em realidade. Claro, desde que a tal realidade seja o que eles imaginam como realidade. Nós, os narrativistas ou construtivistas ou relativistas somos românticos, ingênuos e tolos. Mas, nessa tolice, encontramos a mulher, eles não. Bom para nós, que podemos ter tão agradável parceria. Pior para eles, que se relacionam com mulheres que não são mulheres, são peças da engrenagem deles mesmos e da natureza. Azar dos conservadores.

Nós sabemos o quanto as mulheres podem ser “machistas” e ainda  o serão por muito tempo. Eles, os conservadores, acham que a mulher tem que ser cultivadora do machismo, pois serem prisioneiras da natureza é, para eles, uma lei férrea. Os conservadores ainda não viram pílulas e nem mesmo camisinha. Querem apostar? Bem, alguns viram camisinha, mas não conseguiram ainda tirá-las do envelope. Vão fazer um curso para tal.

Paulo Ghiraldelli Jr. 58, filósofo.

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2 Responses “Mulheres machistas”

  1. Matheus Kortz
    12/02/2016 at 15:27

    Uma coisa pra mim ganhou status de verdade, Paulo.

    Desde pequeno vejo mulheres e mulheres entrando (com tudo) no mundo da cultura, do intelecto, até nas relações politico-sociais. E continuo vendo muitos homens se preocupando com o sexo, com a materialidade e “natureza” da vida. As vezes acho que estamos a um passo de ter as mulheres mais homens (no sentido mais ateniense possivel) do que os proprios homens. E alguns realmente estão gemendo diante disso… eu no maximo gemo é de prazer com isso! Haha

  2. Maximiliano Paim
    28/01/2016 at 22:05

    O mundo precisa cada vez menos de sódio, de conservantes e, por consequência linguística, menos conservadores para que não seja retido o fluído do ciclo da vida.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo