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30/05/2017

“Como a mulher, a lei está aí para ser violada”


As leis não são para serem violadas. Nem as mulheres. A expressão “As leis são, como as mulheres, para serem violadas”(1), não diz respeito às mulheres, mas às leis. A frase não é uma piada de salão, mas um chiste de gangster e de político corrupto, que ficou na memória americana do tempo de Lei Seca. Passou a ser utilizada também no Brasil. Ela é equivalente, com uma dose de perversidade, àquela que diz “A lei, ora a lei!”, atribuída a Getúlio Vargas.

A frase em questão não é uma frase que nasceu para depor contra a mulher. A mulher é tão insignificante para os que a pronunciavam que ela é o suposto, é o exemplar de como se deve agir com a lei. O espírito é o seguinte: mulher é algo que violamos naturalmente, nasceu para isso, existe para isso e, então, que tenhamos muita consideração com a lei, e vamos mostrar isso, já que a trataremos como tratamos as mulheres – inclusive as nossas. Que se note que o termo não é “estuprar”, e sim “violar”. Ou seja, a frase diz respeito à lei. Gostamos da lei, diz-se ironicamente, com essa frase.

Sendo didático ao máximo. A frase é uma ironia do lobo: “como não gosto de ovelha”, diz o lobo, “gosto tanto que as como”.

Quando um professor diz uma frase dessas em sala de aula, principalmente se é um bom professor de Direito (ou de Humanidades), ele está falando exatamente da consideração pela lei, não da consideração ou falta de consideração das mulheres. Obviamente ele está (principalmente se é alguém de cabelos brancos) mostrando como que o poder lida com a lei. O poder lida com a lei do modo que o mundo masculino de antes da II Guerra Mundial lidava com a mulher.

Um aluno normal entende isso perfeitamente. Mesmo que ele não tenha referências históricas, ele pode pensar o seguinte: o professor na minha frente é de Direito, ele não pode estar querendo ensinar a violar a lei ou violar mulheres, isso é contra a lei, e nem se trata de uma piada, pois não faz rir, só faz rir o gângster, logo … Sem referência histórica, ao menos o raciocínio correto do aluno permitiria o entendimento.

Mas os alunos atuais não são mais normais no sentido de poderem entender uma aula simples. Não todos, mas a anormalidade está começando a ser a maioria. Esses alunos estão aquém da universidade, aquém de ironias, aquém de frases de efeito e de época. Aquém da figura de linguagem. Aquém do raciocínio normal. Aquém da aula. Aquém de serem seres humanos. Viraram objetos, bibelôs de pais e de políticos.

O “Brasil do Mimimi” gerou um tipo de aluno que nenhum bom professor mais suporta.  Trata-se do aluno que quer se livrar de pensar. Ele se acha um privilegiado por não precisar pensar, pois engole tudo pronto, vindo de exemplos de gente sacana.

Por exemplo, ele não quer ler Weber, então diz para o DCE que o professor que o faz ler Weber é um “reaça”, um “neoliberal”, etc. O outro aluno não quer ler Marx, então escreve para o Pondé ou para a revista Veja (chama o “DCE exterior”, o de direita), para dizer que está sendo massacrado por “doutrinadores de esquerda”. Invoca-se opressão ideológica, machismo, doutrinação, racismo etc. Todo tipo de desculpa maldosa é usada por uma razão simples: o aluno chega à universidade infantilizado e conta com uma estrutura que agora protege todo tipo de carência e fraqueza. Aliás, é preciso notar que nos cargos de mando da universidade brasileira já há, não raro, gente gerada pelo mimo.

O resultado disso é a destruição da universidade. Essa “geração do mimimi”, que agora já tem pais mimimosos, vai arrastar o país para a ruína. Se é que isso já não ocorreu.

(1) A frase em questão foi pronunciada por um professor veterano do Direito, em uma PUC, e causou revoltinha de alunas que acham a frase machista!

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo

Veja também sobre o assunto o artigo sobre a fraqueza dos fascistas.

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7 Responses ““Como a mulher, a lei está aí para ser violada””

  1. Guilherme Gouvêa Picolo
    10/05/2015 at 13:10

    Esse “Brasil do Mimimi” já transbordou do ambiente acadêmico e é a realidade no mercado de trabalho. O que mais se vê é gente sem qualquer compromisso com o dever, noção de hierarquia e responsabilidade própria; esses aspirantes a profissionais não conseguem transcender a compreensão infantil do imediatismo, incapazes de antever resultados de médio e longo prazos.

  2. Lucas Lorenz
    06/05/2015 at 07:14

    Paulo Ghiraldelli é a prova viva de que a universidade no Brasil está em estado de decomposição. O fato de este senhor que é admirador de meninas “de menor” ser considerado um pensador serve como atestado e – principalmente – um aviso: “não deixe que um psicopata eduque seu filho.”

    • ghiraldelli
      06/05/2015 at 09:38

      Lucas o fato de você só ler os títulos (e não entender) ou o fato de você ler o artigo e não entender é um problema que a universidade, a escola, não pode mais resolver no seu caso. Só ao telecurso Roberto Marinho pode ajudar, mas, vendo seu cérebro, digo que não muito.

  3. João Pedro
    28/04/2015 at 11:40

    Abu morreu 🙁

    • ghiraldelli
      28/04/2015 at 12:31

      Abu era um amigo do peito, querido. Um dos primeiros da filosofia a fazer TV. Intelectual de primeira linha. Estou tristíssimo.

  4. José Silva
    27/04/2015 at 10:49

    Dar aula em uma universidade ou ser um aluno que apresenta um trabalho torna-se um exercício tão tortuoso quanto na época do Regime Militar. Diferente de outras épocas que éramos oprimidos por militares e gente do sistema, hoje são os próprios civis que nos oprimem.

    • ghiraldelli
      27/04/2015 at 11:18

      A massa imbecil está tomando posse do que ela acha que é dela, a fábrica de diplomas. Mas acontece que isso ainda não é uma fábrica, ainda é a universidade. Talvez essa massa não tenha conseguido destruir tudo.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo