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20/09/2019

O que a mulher traída sente? E o homem? Há como evitar?


Nada há de mais corriqueiro que a traição amorosa. Homens traem. Mulheres traem. Nada há de mais doloroso nas relações humanas que ser traído. A dor do corno promove espetáculos surreais, mas nada incomum.

Nessa hora e talvez em qualquer outra só um abobalhado ou um psicólogo com jocosa pretensão de seriedade usaria a palavra “adultério”. Não existe dor de adultério! Existe só traição e cornos. Quem fala em adultério é capaz de chamar “boceta” de “pepeca” até na cama e, por isso mesmo, será corneado – caso tenha uma mulher “na jogada”. Afinal, nenhuma mulher que tenha um mínimo de orgulho e amor-próprio deve se manter fiel a um homem com pudores pré-adolescentes ou com um vocabulário de intelectual da cidadezinha do interior.

A traição está em todo horizonte de qualquer união amorosa-sexual. O que sente o homem traído? E a mulher traída, por que situação ela passa?

O que dói no homem traído – e ele diz isso – é mais ou menos parecido com o que dói na mulher traída, mas ela não diz publicamente. O problema todo, para o homem, é saber sobre a “degradação” da sua esposa na mão do outro; para a mulher a questão é a do “envolvimento” de seu marido com a outra.

O homem quer saber coisas que ele já sabe. Como o rival pegou nos peitos? Ele a penetrou por trás? No cu? Ela chupou o pau dele? Ele esporreou no rosto dela? Caso tudo isso esteja na linha de chegada do caso-verdade, o homem se desespera em um grau assustador. Sua esposa foi degradada e, por isso mesmo, ele sabe que perdeu e que ela tem tudo para estar feliz. Mesmo que todas essas práticas sejam o comum para o casal, se ela percorreu todos esses itens com o outro, ele, o corno, tem a certeza que perdeu. Perguntar sobre o tamanho do pau do outro, a essa altura, já é quase desnecessário. Mas o corno pode chegar a dar sim esse passo derradeiro. A auto-humilhação nessa hora é maior que as pirâmides do Egito na visão de Napoleão.

Closer

Natalie Portman em “Closer”

Por sua vez, a mulher traída tem toda essa imaginação também, mas ela verbaliza de maneira diferente e, de certo modo, é ela quem está correta sobre como avaliar a abrangência da traição. Ela quer saber sobre lugares de passeio, presentes dados e coisas assim. O resto ela observa por si mesma: tamanho e posturas da outra, sua beleza e sua classe, ou seja, a falta de classe, pois, afinal, a outra nada é senão, sempre, uma “vagabunda”. Quando ela vê que a outra é mais que ela em vários quesitos físicos, o lamento então se torna moral: “sou mãe dos filhos dele!”, “nunca o traí e não foi por falta de chance!”, “deixei meu futuro por causa dele!”, etc. Quando ela vê que a outra é feia ou sem a sua classe, aí ela duvida que o marido saiba o que é apreciar uma mulher, e fica com ódio de gostar ou ter gostado desse “capiau de boné”. À medida que a mulher se torna independente o desespero espetacular pode mudar um pouco, mas mesmo assim a mulher tenderá a se pegar dando algum espetáculo circence ou coisas similares. Não se joga um gênio como Pedro Almodóvar para fora do mundo e muito menos se pode substituí-lo por um falsário do tipo de um Nelson Rodrigues.

Essas cenas almodoverianas não perdem seu lugar. Também o amor dos cornos em uma volta do casal a bons termos, ou numa falsa volta, podem fechar um ciclo narrativo. Mas, enquanto esse retorno não ocorre e, então, adia o pé na bunda dos amigos tolos que tentaram administrar o caso junto ao casal, a interrogação é sobre o que se perdeu. Como se perdeu. O dilema é decidir o quanto tudo se perdeu. As cenas da dor do corno são nesse sentido. Ambos os traídos, homem e mulher, querem saber, afinal, onde foram derrotados. E o desespero que acompanha tudo isso tem a ver com o como a traição se deu; a tarefa comum é a de tentar ficar sabendo em que medida a intimidade gerada por uma dupla foi desfeita em função da possível intimidade reorganizada na outra dupla.

A esfera íntima e sua formação por conta de ressonância e simbiose, e que marca a vida de um casal, ou mesmo a constitui, é o lar psicossocial de cada um e do casal, é o que garante a vida subjetiva de cada um, e é isso que os traídos querem saber, isto é, o quanto tal ambiente se desfez. Querem saber se estão no dentro que é um exterior, ou seja, o mundo, ou se ainda possuem o dentro original elaborado segundo o trabalho do designer antigo. Usando claramente o vocabulário do filósofo alemão Peter Sloterdijk: a ressonância da esfera íntima do casal ainda é uma ressonância, ou já nada mais existe que possa ser chamado de uma esfera íntima? Segundo um vocabulário do senso comum: formamos ainda um casal ou não?

Natalie Portman e Clive Owen em “Closer”

Minha avó dizia: o amor é um cristal, não tem como rachar; no primeiro arranhão ele simplesmente explode. Na cama com outro minha esposa abriu o jogo de quem sou? Na cama com outra meu marido acabou revelando a ela quem ele é? E o quanto falou de mim? Os segredos de Polichinelo são tão importantes quanto os segredos secretos. O amor e o sexo trazem o estranho dom de envolver o máximo de mentira e o máximo de sinceridade que os humanos conseguem. Mente-se para trair e se fala a verdade junto do novo parceiro. Mesmo que não seja assim, é assim que o traído ou a traída imagina que essas coisas ocorrem, e se assim se imagina então assim é. A esfera íntima está rompida. Quando do divórcio, a luta pelos bens é extremamente estranha. Uns entregam tudo, fugindo do passado. Outros lutam com unhas e dentes por coisas que poderiam ser negociadas, como que buscando ao máximo preservar a falsa linha de perímetro da esfera. A esfera é dada pela ressonância entre o casal, não pelos objetos materiais agrupados pelo tempo de ressonância. Mas, para alguns traídos, se os objetos e a casa forem embora, eles se verão finalmente fora de qualquer esfera, estarão expostos no descampado, e perecerão. “O homem é um designer de interiores”, diz Sloterdijk. O homem não vive fora. O peregrino do mundo faz do mundo um dentro. Até a Internet que liga tudo com tudo não deixa de ser uma “net”, uma “web”. Alienígenas que vieram da noite uterina e lá aprenderam a estarem em simbiose e ressonância não estão preparados para ver a caverna posterior explodir. Não à toa há quem arraste longos casamentos chamados “de fachada”. Muito bem apropriado esse nome! Arquitetos não são importantes, só o decorador do interior o é.

Ficar com a casa em certos divórcios é importante não para poder ficar com um bem de valor, mas simplesmente para não deixar o outro ou a outra experimentar o que foi um elemento material da minha esfera. Se minha esfera íntima explodiu, se eu não a vivo, e se eu estou fora, como que alguém quer não ter sua própria ressonância, usufruindo como necrófilo do cadáver da minha esfera? Então, a luta é longa. Às vezes, uma vida.

O Dia “D” da traição é, portanto, aquele dia em que sei que minha mulher foi degradada pelo outro. O Dia “D” da traição é, então, aquele em que sei que meu marido a levou no mesmo lugar que ele me conheceu ou comprou algo igual para ela. De resto, todo o sofrimento virá da capacidade de imaginação, e nessa hora a imaginação é a única coisa que realmente capta o real como nenhum filósofo pensou ser possível. Tudo que imaginamos que nossa agora já uma ex-parceira fez com o rival ela fez mesmo; tudo que imaginamos que nosso agora já um ex-parceiro viveu com a rival, a “vagabunda”, ele viveu mesmo ou viverá.

A traição é um tipo de dengue, para a qual só cabe a medicina preventiva, ou melhor, o saneamento básico prévio. A vacina? Ah, bobagem, toda vacina é feita a partir da inoculação do vírus vivo domesticado ou de vírus sintético, ou seja, você tem de “pegar” a doença em um certo nível. Vai optar pela vacina?

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

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6 Responses “O que a mulher traída sente? E o homem? Há como evitar?”

  1. C.M Oliveira
    26/06/2016 at 16:19

    Ninguém trai ninguém… você trai a você mesmo, poi, se existe culpa, ela será sempre sua….
    O traidor se alimenta do próprio veneno…
    O outro fica a penas com a dor….

  2. Nilza Matos Gama
    09/12/2015 at 12:44

    Tinha o casamento dos sonhos. Marido ate então perfeito. Fui traída um ano e três meses. Por uma mulher horrível. O pior que tiravam fotos tendo relação e pós relação.Ele a tratava a garota sexy. Descobri tudo! Perdoei, mas a mágoa, medo e duvidas imperam em mim. Sou bonita e fico me corroendo na pergunta : por que fez isso comigo? O que o atraiu pela aquela mulher? Traição é uma dor horrível. Obrigada!

  3. Carlos
    20/03/2015 at 16:45

    “A traição é um tipo de dengue, para a qual só cabe a medicina preventiva, ou melhor, o saneamento básico prévio. A vacina? Ah, bobagem, toda vacina é feita a partir da inoculação do vírus vivo domesticado ou de vírus sintético, ou seja, você tem de “pegar” a doença em um certo nível. Vai optar pela vacina?” Professor, não entendi ao certo essa conclusão sua. A vacina seria trair para não ser traído?

  4. Claudio
    19/03/2015 at 14:32

    E a imaginação é sempre bem pior que a traição em si, não é mesmo Paulo?

    • 19/03/2015 at 19:43

      Claudio, a imaginação é uma benção e uma maldição.

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