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27/06/2017

A Mulher Maravilha israelense – é possível um novo feminismo?


A atual Mulher Maravilha do cinema é a atriz Gal Gadot, uma israelense que foi Miss e soldado. Mantém formas sensuais e encarna – no sentido literal – a figura feminina atual que atrai o público, que nada mais é que a silhueta do travesti.

O mundo dos quadrinhos foi o primeiro a perceber que após os anos sessenta o público de narrativas heroicas populares, adolescentes e pré-adolescentes masculinos, e depois meninas também, estava preferindo mulheres capazes de exibir uma nova sensualidade. Trata-se daquela sensualidade que temos hoje fazendo sucesso, não só nas pistas de dança erótica, mas também na TV e cinema. Gadot desempenha o papel de alguém sensual, feminina e, ao mesmo tempo, capaz de ser a gostosa policial da novela das nove, Jeiza (Paola Oliveira), cujos contornos corporais estão sempre ressaltados pela calça ajustada e por um treinamento prévio às gravações. Aliás, Gadot é isso na vida real. Ninguém melhor que a mulher israelense para encarnar esse tipo.

Mas o que as HQs descobriram antes do tempo, não foi algo simples, de mera mudança estética banal, como é o caso do que chamamos de “alteração de moda”. Jeiza da novela das oito e a Mulher Maravilha que estreia agora são, na verdade, mulheres-travestis, e isso é o que mais atrai o homem atual, não mais só o adolescente. Os homens querem corpos que, no passado, eram másculos. E isso segue a uma tendência de equalização dos comportamentos. Claro que hoje, que a melhoria das possibilidades do mundo gay se abrir ao mundo não gay, tem parte nisso. Mas o que está havendo é que, de fato, homens e mulheres, participando cada vez mais do mesmo universo, começam a ficar mais parecidos, e não à toa a C&A saiu na frente com o universo das roupas “sem gênero”. Conservadores reclamaram. Mas só da boca prá fora. Homens bem conservadores, atualmente, adoram um travesti de mais de 1.80. Se Paola Oliveira e Gadot podem se manter mulheres e ainda assim se apresentarem como semelhantes a homens, melhor ainda para os que lutam para conseguir se manter héteros, e melhor também para todos que, enfim, não estão nem ligando mais para tais coisas. Afinal, nossa juventude já vem declarando que não ama mais homens e mulheres, mas pessoas. A ideia de gente bissexual vai acabar tanto quanto a ideia de gostos “prá menino” e “prá menina” já acabaram. Nos anos setenta inventaram o “unisessex”, hoje sabemos que esse conceito desapareceu em favor do “plurissex”.

E esse movimento é de dupla mão, tanto é que o filósofo alemão Peter Sloterdijk avaliou já há algum tempo a seleção alemã de futebol como o “time de hermafroditas”, e isso sem nenhuma conotação pejorativa mas, ao contrário, como uma constatação que parece ir no sentido daquilo que falo aqui. Pessoas são queridas, não mais homens ou mulheres no sentido tradicional.

O feminismo moralista e, não raro, acadêmico, aquele que fica gemendo coisas do tipo “abaixo a sociedade patriarcal, machista, capitalista etc.” não tem mais nenhum espaço nesse mundo em que a figura do travesti impera como a silhueta desejável para heroínas. Não à toa o número de mulheres desportistas fotografadas por revistas do tipo Playboy aumentou vertiginosamente. Nos dias atuais, a Playboy não teria tentado modificar e “feminilizar” a Hortência, como fez quando esta posou nua, mas, ao contrário, a traria nua nas formas mais abruptamente desportivas, na igualação dela à Jeiza ou, de maneira diferenciada mas na mesma cadência, à Serena Willians. Aliás, essa tenista, que posou nua no passado, já o fez a partir dessa nova concepção do corpo da mulher.

Estamos vivendo uma revolução do olhar em relação ao sexo, gênero e potencialidades do feminino. E apesar de tudo isso carregar muito do feminismo, essas mudanças não são o que o feminismo atual quer. Pois o feminismo atual, em especial o acadêmico, parece estar preso a uma “guerra do sexos” antiquada e piorada, que não consegue entender a pluralidade de opções não raivosas que Jeiza e a personagem de Gadot estão anunciando.

Paulo Ghiraldelli, 60, filósofo. São Paulo, 31/05/2017

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One Response “A Mulher Maravilha israelense – é possível um novo feminismo?”

  1. Bruno
    01/06/2017 at 23:01

    Nos quadrinhos, como você colocou, isso já vem de tempos. Tempestade, Vampira, Miss Marvel, Psylocke, nos quadrinhos da Marvel.

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