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22/06/2017

A mulher jamais fez filosofia


Mulher não enxerga nada que não seja o que está perto. É um pouco exagero dizer isso, mas tem sua verdade. A mulher vê coisas próximas, observa o detalhe, enquanto que o homem joga sua visão no horizonte e é péssimo para achar coisas que estão encostadas nele. Detalhe não é coisa de homem. Homem que vê detalhe está com os hormônios meio que trocados, dizem! Aliás, as mães e as esposas sabem que homem não acha nada em casa. Mas, em compensação, descreve paisagens de um modo que poucas mulheres conseguem fazer.

O que há nisso? Sim: um comportamento incrustrado na parte mais primitiva de nosso aparato psíquico, talvez físico! Um treinamento de um tempo longínquo, que acabou sendo incorporado como uma característica a mais na diferença entre homem e mulher. Isso se deu quando o homem saiu para a caça e a mulher ficou na caverna. O homem foi assim treinado para o olhar do campo, a mulher para o olhar do lar. Horizontes versus paredes.

Restrita à caverna, ao lar, a mulher desenvolveu sua visão para a pequena distância, para a visão na penumbra, para o olhar que se coordena com as mãos. Posto no mundo aberto, na caça e pesca, e também na fuga, o homem desenvolveu sua visão para a longa distância e para o olhar no claro e no escuro, mas não na penumbra. Sua visão vai para um lado, suas mãos são independentes. Assim, o homem atira coisas longe, e fica mais forte. A mulher colhe coisas perto, e se mantém mais fraca.

O perto e o longe também aparecem no campo da relação sexual. A mulher tem curiosidade com o membro sexual masculino. Quando jovem, nas primeiras relações sexuais, adora ficar olhando e pegando no sexo do homem, investigando rugas e se maravilhando com o fato da glande ficar presa na base por um pequeno istmo. “O pau é preso por uma pelinha!”, dizem encantadas as adolescentes do passado e as pré-adolescentes de hoje. Já viram aquilo em foto, mas continuam se encantando com ele na realidade, porque se trata da atividade de ver de perto.

O homem prefere ver a mulher como um todo. Fica com mais desejo se pode usar do voyeurismo; e esperta a mulher que sabe sempre se colocar na distância certa do homem, de modo que ele possa admirá-la como admira a caça no campo. É claro que o homem se excita ao olhar a vulva. Mas, de certo modo, ali há o proibido, o lugar de onde vieram os que não eram nada, a porta da mãe que, por razões postas em Totem e Tabu, para falar do tabu do incesto, não deve ser atravessada. O homem prefere o redondo dos seios e das nádegas.

A mulher prescinde da visão de tal modo que fecha os olhos ao beijar. O homem não. Aliás, o homem quer ver a mulher gemendo e gozando. A mulher adora ver o homem assim, mas ela não precisa disso como o homem precisa. Ela aceita a penumbra, o não visto, o escuro. O homem prefere a disposição geométrica da mulher na sua disponibilidade de caça presa, na jaula ou amarrada. A mulher prefere o homem colado nela, como tudo na pequenez do lar.

Essa antropologia pode nos dar muito da cognição humana e da disposição filosófica. A nossa epistemologia é masculina e, em parte por isso, preenchida de metáforas visuais. As metáforas sonoras apareceriam na filosofia se tal prática fosse de mulheres. Mas nunca foi. Luzes e visão são o que entendemos como palavras filosóficas por excelência. A música e o escuro são a antítese da filosofia. Quem vê de perto e usa o tato para achar coisas, nem precisa da visão, mas se acostuma fácil aos sons do lar, à rotina da música que preenche o ambiente. É como nunca sair do útero. Quem vê de longe usa a mirada, precisa dos olhos de um modo insubstituível, e não toma o som rotineiro como importante, apenas o som esporádico, o grito, que logo chama a visão.

A filosofia nasceu de homens, embora de homens que amavam homens. Todavia, nada mais masculino que isso, ou seja, homens que amam homens. A filosofia nasceu dessa tara pelo visual. Sempre abafou os ouvidos, a sinestesia, os elementos uterinos. A masculinidade da filosofia trouxe a filosofia para se exibir como grande feito a façanha do Iluminismo, ou seja, a Época das Luzes. Quando há a tara pela época do som, quando os festivais tomam o lugar no mundo, nada que é filosófico aparece. Não se vai para um show de rock para filosofar, dizem. Vai-se para o clímax do inebriar.

Caso pudéssemos recriar a filosofia como uma prática feminina, talvez as metáforas todas fossem diferentes e a filosofia teria outra narrativa, e seria outra coisa. Talvez nem existisse a filosofia como filosofia, porque a filosofia é masculina em tudo, inclusive na sua natureza, como prática de confraria. Confraria não é coisa de mulher.

As filósofas até hoje filosofaram como homens, a questão agora e te-las antes de tudo como mulheres, e ver se ainda restará algo como a filosofia.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

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12 Responses “A mulher jamais fez filosofia”

  1. 13/11/2016 at 16:14

    Estou cá à pensar… E como seria o mundo sem mulheres; será que haveriam homens filósofos ou não? Aliás sem elas, de que serviria a filosofar, se, nem a raça humana existiria, não é?

  2. Joaquim
    02/06/2016 at 15:54

    De facto a mulher nunca fez filosofia, podem até haver “mulheres que filosofam”. Mas se formos a ver aquilo que é filosofar na sua essência veremos que pra filosofar o filósofo Utiliza-se da razão e da lógica.
    Porque vejamos :
    Homem=lógica, razão:100%, sentimentos 50%.
    Mulher=sentimentos 100%, lógica, razão 50%

    Logo meu caros para “mulher filosofar a sério” teria que assumir certas características hormonais dos homens.
    (Não vejo nenhuma graça em uma filósofa).

    • 02/06/2016 at 18:04

      Joaquim, acorda!

    • 18/08/2016 at 08:08

      Paulo, estou com dúvida!
      Acho que a ênfase do do texto está no psicológico, bom sendo assim o senhor diz que a mulher não enxerga além do que está por perto ao contrário do homem, eis a minha dúvida, o que seria ” enxergar além” concretamente? (A ênfase está no psicológico!).

    • 18/08/2016 at 12:20

      Não! O texto é completamente antropológico.

    • 18/08/2016 at 17:50

      Tenho que estudar antropologia!
      Gráto!

  3. Sônia
    14/04/2015 at 14:48

    Eu sei q foge um pouco sobre o assunto mas vai lá: a cantada pode ser considerada uma forma de assédio moral? Eu ouvi dizer que há um projeto de lei que criminaliza as cantadas.

    • 14/04/2015 at 15:14

      Em alguns países trepada sem camisinha é estupro.

  4. josi
    10/04/2015 at 17:39

    Paulo e os homossexuais poderiam fazer? escreva sobre eles gato

    • 10/04/2015 at 23:51

      Josi a filosofia nasceu homoerótica ou não nasceria. A filosofia é grega e é homossexual em sentido amplo, num sentido especial dos destinos da pederastia grega. Isso é um assunto tão espinhoso quanto o da pedofilia, e certamente levantaria a reclamação dos mesmos energúmenos que reclamaram do meu texto que fala da pedofilia. Lanço livro sobre isso dia 6 de junho na Livraria Martins Fontes da Av. Paulista. Esteja lá, 15 horas. É o “Sócrates: pensador e educador”

  5. Matheus Kortz
    10/04/2015 at 09:13

    Feminazis chegando para comentar em 3… 2…

    Mas professor, por vezes você coloca que homem e mulher são constructos sociais, e aqui parece-me tomá-los como “essências”. mas nao foi a propria filosofia que abriu espaço para a essência, de modo que em nada ela teria afetado toda essa história antropologica anterior, que pode ser bem diferente inclusive, de fato, do que o descrito. Nao posso deixar de negar que as mulheres sempre teriam uma relaçao “cavernosa”/obscura/sonora por sua propria condiçao genitora, mas os homens tambem provaram disso embora somente lá no útero, teriam eesquecido tudo pós totem e tabu estabelecidos?

    E sloterdjik? Seria o primeiro filosofo feminino por trazer o som e o escuro de volta??

    • 10/04/2015 at 10:57

      Kortz nem uma coisa nem outra, não escrevo por padrões, mas por filosofia. O texto é super claro, basta acompanhá-lo no seu movimento. No seu movimento.

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