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28/06/2017

A mulher é o particular


Estamos acostumados a não procurar origem para a mulher que seja diferente da do homem. Escolarizados ocidentais tomam os ensinamentos evolucionistas como corretos e, dessa forma, deixam essas questões sobre a origem da mulher de lado. Com isso ficamos sabendo menos do que deveríamos.

A tradição religiosa e mitológica dá a origem da mulher e, então, amplia duas frentes de trabalho: primeiro, nos mostra muito sobre a nossa mentalidade a respeito do que é a mulher; segundo, nos fornece características interessantes sobre visões da psicologia feminina, não raro ainda presente na prática das mulheres e nos compêndios sobre elas.

A tradição bíblica, ou seja, nossa grande herança judaico-cristã, mantém a mulher como Lilith e como Eva. A primeira é fonte de independência diante de Adão e, então, a autora da aliança com o Mal. A segunda, vinda da costela de Adão, é desobediente não só a Adão, mas ao próprio Deus, criando todas as condições para o nosso infortúnio fora do Paraíso. Assim, em ambos os casos, a mulher não é boa bisca.

A tradição grega às vezes parece nos salvar. No caso dos gregos, ao menos dos atenienses, a mulher é extremamente apegada aos trabalhos a ela destinados, mas também pode aparecer de maneira a cultivar o intelecto, se for uma estrangeira, ou então na forma de uma deusa, sempre dona de artimanhas e poderes mil. Todavia, quando olhamos para os filósofos, em especial para Platão, novamente a mulher tem lá sua carga negativa.

No Timeu, Platão coloca a mulher como sendo aquele homem covarde ou injusto reencarnado. Ou seja, a mulher nada é senão o homem moralmente faltoso. Mas isso, precisamos notar, não é uma condição da mulher, e sim do tipo feminino. Nas Leis, Platão cria a proposta de educação igual para o homem e a mulher, e espera deles que ambos possam igualmente realizar toda e qualquer tarefa da cidade.

Assim, entre duas de nossas raízes culturais, a judaica é menos condescendente com a mulher que a grega, mas, no fundo, a ambiguidade permanece.

A figura da Lilith é ambígua. Deus a puniu não por uma falta para com ele, mas por uma reclamação de Adão. Lilith queria fazer sexo na posição das americanas, por cima, e Adão começou a não gostar disso. O mito tem diversas versões no mundo judeu, sendo que em alguns casos Lilith havia já antes disso ficado enfeitiçada pelos demônios, enquanto que em outro ela própria se revelou um demônio e, enfim, em terceiras versões ela foi morar no lago vermelho, junto com os demônios, após Adão ter ido ter com Deus e fofocar sobre ela.

A figura de Eva também é ambígua. Ela não é necessariamente uma desobediente. Ela é uma frívola, digamos assim. Deixou-se levar pela conversa da serpente antes por curiosidade ingênua que por qualquer outra coisa. E adão, por sua vez, sem pulso – o que já havia demonstrado com Lilith – seguiu os passos da jovem companheira e acabou logo vendo a burrada cometida, quando sentiu desobediência em seu próprio corpo e, então, vergonha perante Deus.

Essas ambiguidades são mais complexas entre os filósofos gregos, como o caso de Platão. Mas, há de se notar, em Sócrates a situação é até mais paradoxal, pois embora ele não seja nenhum incentivador de mulheres ou adulador delas, ele nunca diz ter aprendido algo senão de alguma mulher. Sua mãe serviu para ele falar da maiêutica, Diotima lhe deu o caminho de Eros para a filosofia, sua esposa lhe deu o caminho da soleira da porta e, portanto, o filosofar com os amigos e, por fim, Aspásia lhe ensinou a dialética, o seu próprio método (que batizamos também de Elenkhus, o método da refutação). Sócrates, que poderia aparecer em sua vida um misógino, nas suas falas deixa a mulher em um destaque inaudito.

A tradição dos mitos e da religião tende a ver a mulher como o outro. Há aquilo que as feministas dos tempos modernos afirmam que há: a mulher. Isso vem muito mais da mitologia que da nossa ciência. Havendo a mulher, é necessário falar dela como alguma coisa que não é o que se espera, pois o que se espera é o homem. Assim, na tradição mítica e religiosa, a mulher acaba por gerar uma “tipologia da mulher”. Ou melhor, uma tipologia na base de “tipos de mulher”. Tudo funciona como se a mulher, não podendo ser o genérico, seja então posta na forma de tipos que exercem funções ou tipos psicológicos, e isso seria o máximo que se alcançaria no sentido de ter recortar para entendê-la.

Assim, a mulher é sempre um tipo ou um “tipo de mulher”, mesmo quando todos os instrumentos de igualdade de gênero já foram postos para ela. Afinal, não se joga fora essa milenar tradição que fez da mulher o diferente, não o igual, a tradição que a fez como o particular, não o genérico.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo. A filosofia como crítica da cultura (Cortez, 2014).

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One Response “A mulher é o particular”

  1. Isaias Bispo
    07/02/2015 at 04:01

    Nossa, Paulo! Nenhum comentário nesse post? Vou enviar aqui para algumas colegas. Adorei!

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