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27/04/2017

Moral conservadora e linguagem


Somos mais conservadores hoje?

Meu amigo professor Manoel Lucas Marthos tem exposto na Internet, aqui e acolá, vários elementos a respeito de nosso “admirável mundo novo”, o mundo do futuro que é, enfim, o que vivemos. Esse mundo é, na conta de Marthos, visivelmente mais conservador. No que tange a moral sexual, então, nem se fale. Qualquer histórico sobre revistas de moda mostra isso. Em certo sentido, ele tem razão. No entanto, eu tenho um complemento a fazer.

Não vejo que entre os sixties e hoje há menos liberdade individual, especialmente quanto ao sexo.  Nem mesmo quanto aos anos setenta e oitenta. Penso que de certo modo a liberalização geral continua funcionando de modo relativamente progressivo. Casamento gay, pílula de todo tipo, motéis no âmbito urbano e o “manda nudes” mostram isso, entre outros elementos. Mas, ao mesmo tempo, há um tipo de censura verbal e de imagem, em convívio com a liberalização, que parece caduca. E isso é que tem que ser notado, como Marthos fez, mas também explicado.

O fenômeno da censura do CONAR a várias propagandas dá bem o tom do que está ocorrendo. A propaganda que é censurada, por conter uma loira junto de uma cerveja, ou simplesmente por colocar Jesus bebendo um Red Bull, vem de várias ordens. Todavia, a novela agora permite o palavrão, os seios nus e o “beijo gay” em horários mais ou menos depois das nove. E a Globo já fez o nu frontal naquele entediante programa da Fernanda Lima. O fenômeno da Internet faz o que com isso? Ora, a Internet expõe os que antes iriam reclamar para o vizinho ou no barbeiro etc. Estes, então, paravam por aí por não terem canal de expressão. Mas agora possuem canal e então reclamam. A Internet faz mais: ela aguça o ambiente, “põe fogo” na coisa, e então gera um maior auê em relação às linguagens (o que inclui imagem), mas não efetivamente em relação aos atos. O que ocorre hoje é que o conservadorismo moral (político), vigente tanto na direita quanto na esquerda (sim, conservadorismo político na esquerda sim, e não só moral), tem canais de expressão e está muito encantado com a linguagem. Vivemos um mundo de mais gente no mercado comunicacional e, por isso mesmo, de gente menos culta falando. “Os muitos” nunca foram bons. Menos cultura implica, então, em menos capacidade de entender que palavra e coisa são distintas. Há uma juventude hoje sendo educada na leitura da Bíblia de modo literal. Essa gente é tacanha no entendimento dos jogos de linguagem, e se preocupam muito mais com a restrição à linguagem que a qualquer outra coisa.

Mas a explicação não fica nisso. Há algo mais efetivo a ser dito. E que tem a ver com a estrutura de certas instituições de formação moral atuais.

As religiões atuais, as Igreja-caça-níquel, são permissivas em muitas coisas, para não perder fieis, mas como vivem num mundo onde moral ainda é algo que contém proibições e só proibições, precisam então ter alguma coisa para proibir. Ora, proíbem o que causa menos evasão de almas: o falar, o mostrar imagens, o escrever. Fazer, pode-se fazer. Sendo assim, a palavra, de modo tosco, ganha uma dimensão de re-encantamento. Uma forma especial de re-encantamento. Antes, ela era encantada (no sentido de Max Weber) porque poderia trazer pensamentos e atos pecaminosos, hoje, na conta principalmente da expansão da educação evangélica, ela própria é o pecado – e praticamente só ela. A vida, afinal, não é possível de se proibir sem perder fiéis. Mas se a invocação é só com a palavra, é fácil manter as coisas funcionando. Amplia-se o grau de hipocrisia, pensamos nós. Mas não é bem isso, embora também seja. O que temos que notar é que não se trata de punir a linguagem e não punir o ato, somente. Trata-se de não ter que punir o ato porque este é desconsiderado, só a linguagem vale. O literalismo é uma educação ignorante. Cria gente ignorante.

Assim, o ato considerado é o de pagar o pastor. O resto dos atos não existe, tudo é só linguagem, e essa não tem deslocamento com as coisas, pois se faz por si só. Assim, se há algo a ser punido, este algo é linguagem, é a imagem, é aquilo que “fala o que é proibido”. Há um valor imenso da palavra nisso tudo, mas de um modo que vai no sentido contrário do da filosofia contemporânea. Caminha não no sentido de uma melhor hermenêutica, e sim no sentido de nenhuma hermenêutica. É algo ignorante, tosco, tacanho. Daí a censura aos ditos, aos falantes, algo que vem junto com o sucesso do discurso literal, milagreiro, da leitura pobre e rústica da Bíblia. 

É isso que mudou, e isso influencia menos costumes cotidianos, embora influencie uma certa superestrutura da política e da moral. Há uma dimensão da política, afinal, que é só discurso. Temos de notar isso, pois se não fazemos assim, começamos a achar que ocorreu um retrocesso moral total, acompanhado de um retrocesso político. Isso não é verdade ao todo, e se ocorreu, deve ser visto no contexto dessa dialética.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo 05/11/2016

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3 Responses “Moral conservadora e linguagem”

  1. angélica della monica
    02/12/2016 at 05:12

    É O HOMO SAPIENS em extinção.

  2. Lorival Braga
    14/11/2016 at 10:53

    “A boca fala o que o coração está cheio”, “O mal é o que sai da boca do homem…” só pra ficar em versículos do livro de Mateus, são usados a torto e a direita pelos conservadores ou não. Ao pé da letra uma moral vai se desenhando para interditar falas consideradas perigosas. Parece que há também uma supervalorização do silêncio ou até mesmo sua romantização como último reduto para o “bem”. Um budismo cristão tacanho que premia as falas domesticadas…e aí? como não ser tacanho e aceitar uma mediocridade quase imposta?!

  3. Cesar Marques - RJ
    05/11/2016 at 20:56

    Acho que essa notícia é um dos sintomas da total validade desse texto que o senhor fez: http://noticias.band.uol.com.br/cidades/noticia/100000829868/vereador-negro-quer-acabar-com-cotas-e-feriado.html

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo