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24/10/2017

Montaigne, filósofo da subjetividade avant la lettre


Há uma série de observações interessantes entre feitos de animais nos textos de Michel Montaigne (1533-1592). Arguto observador da vida em geral, o filósofo usou disso não só para seu próprio deleite, como amante dos bichos, mas também para diminuir a apologia da razão humana, como se só ela pudesse fazer o que há de inteligente e admirável. Claro, tratava-se de uma estratégia a mais do pensamento cético, endossado por Montaigne sem qualquer apego ao dogmatismo inverso do dogmatismo racionalista.

Por tudo que Montaigne escreveu sobre os animais, poderia de se esperar que ele, ao se decidir viver solitariamente, afastado dos problemas da vida social e de quase todas as pessoas, preferisse a companhia da natureza livre, junto dos bichos. Mas Montaigne esteve longe de ser alguém capaz de encontrar o eu substancialmente vazio, como fizeram Pascal e Hume; e ele também não esteve junto do eu preenchido enquanto cogito, aos moldes de Descartes, ou aos moldes de quem busca a preservação do “coração sincero”, como em Rousseau. Montaigne procurou escrever e, no contexto da escrita, obter quase que indiretamente um delineamento do eu. Não um eu universal ou um sujeito filosófico, criados a partir de um ambiente chamado intimidade, como em Agostinho. Muito menos um eu decididamente ligado ao corpo, quase que psicanalítico, de Schopenhauer, mas um eu solitário e, ainda assim, em sociedade. Montaigne foi o homem da construção do eu na solidão mais cheia de gente que já foi possível imaginar.

O cogito cartesiano, lugar de garantia da verdade, ou o coração sincero de Rousseau, lugar encontrado à custa de “devaneios solitários” e crivo da verdade, são pontos de partida da filosofia. Tendo-os em mãos, o filósofo pode querer usá-lo como um fundamento para as narrativas, de modo que possamos confiar nelas. Está posto aí o pensamento que Heidegger chamou de “metafísica da subjetividade”, a metafísica própria da modernidade enquanto uma época de “concepções de mundo”. Esse tipo de pensamento fornece bases filosóficas para a resposta da filosofia ao problema dos céticos. Ora, Montaigne nunca se importou em levantar a bandeira do ceticismo como um militante, portanto, nunca se ocupou em defender o ceticismo. Seu eu não foi encontrado e, depois, posto como ponto básico fundamental. Seu eu foi narrado e construído por meio de reflexões a respeito da vida do indivíduo Montaigne junto de amigos, mulheres, políticos e livros de filósofos e historiadores. Ele tinha instrumentos para tal, já que seu pai havia sido um homem culto e o criou também para essa tarefa, e assim seus ensaios puderam dar um retrato-pensado de um homem que não quis encontrar o seu si-mesmo como quem encontra ou a decepção ou a plenitude, mas apenas uma pessoa lidando com o orgulho, o casamento, a ociosidade, a solidão, a oração, a idade, a prudência etc.

Todavia, entre tantos temas, também um dos próprios componentes do eu, foi tratado de um modo especial por Montaigne: a consciência. No texto “A consciência” há quase que uma metanarrativa do eu. Os outros textos d’Os ensaios colocam traços no que será o final da obra, o eu de Montaigne finalmente entregue, para que ele próprio possa dizer algo como “cumpri à minha maneira o lema socrático do ‘conhece-te a ti mesmo’”. No texto “A consciência” surge inesperadamente uma reflexão sobre o próprio eu que se põe como objeto de ciência e consciência.

Como Montaigne leva adiante essa reflexão?

Peter Sloterdijk escreveu que “só quem é suspeito de ter segundos pensamentos pode efetivamente ser considerado sujeito”.[1] Conjuntamente, lembrando o tema do simulacro em Jean Baudrillard, pode-se dizer que um cão dissimula, mas só o homem simula.[2] É por essa via dupla, talvez una, que Montaigne aborda a consciência.[3]

Ele conta que viveu em uma época de guerras religiosas que era difícil saber quando se estava conversando com inimigos, uma vez que se tratava de pessoas, em todos os sentidos, com a mesma cultura e semelhantes características físicas. Assim, ele e seu irmão deram com um homem cuja consciência antes o traía que o ajudava. Seus modos mostrava que sua consciência estava pouco treinada e estava cheia de segundas intenções e simulações, mas, para a sua desgraça, incapaz de lhe dar a aptidão necessária para se passar por um não inimigo. O medo havia se apoderado dele. Sua consciência estava lhe dando um trança pés. O homem ficava petrificado, apavorado mesmo, ao cruzar com um grupe de cavaleiros. Apesar de tudo contar ao contrário, ele acabava se revelando pelo medo de já estar se revelando.

Montaigne usa desse exemplo para puxar outros e chegar ao que ele chama de correção de Hesíodo sobre Platão. Este teria avaliado que o castigo segue de bem perto o pecado. Aquele diz que o castigo nasce na mesma hora que o pecado. O castigo é a tortura da consciência, não propriamente pela culpa ou arrependimento, mas por saber que o erro foi cometido e que as consequências virão a qualquer momento. Quanto mais tempo se passa entre o erro e a punição dos homens ou da vida, o castigo já vem se exercendo em grau crescente. No minuto seguinte após o erro (ou mesmo até antes dele), aquele que cometeu o erro já está na difícil arte de usar da consciência para que ela não o traia, e a ao mesmo tempo esta sofre horrores nesse treinamento, pois sempre admite que irá falhar.

Montaigne lembra o quanto a tortura física é uma bobagem. Sob a tortura, o inocente pode confessar a culpa que não tem. É fácil saber disso. Mas a inocência, diante da tortura, também pode dar tudo que a consciência precisa para se sentir forte e não confessar jamais, ou confessar qualquer outra coisa que seja uma falsa confissão. Por isso o torturador nunca saberá se está obtendo algo verdadeiro, ao menos se só a confissão pode lhe dar isso.

Mas o que a consciência mais protege? Nos casos que Montaigne conta, uma única coisa: a própria identidade, o que seria nuclear do si-mesmo. Ela faz de tudo para que a frase “Eu sou este” não apareça e, se aparecer, não seja a desgraça. Mas nisso o sofrimento já ocorreu, porque os segundos pensamentos estão para emergir o tempo todo, e não é a dissimulação que faz o homem cair na autotortura, mas a tentativa de simulação, de preparar o engodo, a mentira, a farsa que deverá ocorrer quando estiver entre outros.

Em um outro exemplo, Montaigne cita um episódio de Cipião no Senado romano. Petílio foi a Cipião pedir-lhe contas do dinheiro gasto na província de Antióquia. Cipião havia se dirigido ao senado com esse objetivo. Mas, cobrado, tirou da toga o livro que continha receita e despesa e o fez em picadinhos na frente dos outros senadores. Montaigne comenta: “não creio que uma alma cauterizada soubesse fingir tamanha segurança”. O certo é que ao agir assim, o que Cipião deixou para todos? Antes que culpa, a coragem de mostrar que não tinha medo de que todos pudessem dizer que ele se escondeu, rasgando o livro. Só isso já não seria a arte de uma consciência poderosa no sentido de antes simular que ter de dissimular? Já não teria essa consciência adquirido a habilidade máxima de não se trair? Já não seria Cipião aquele que chegou ao máximo na arte de possuir segundos pensamentos, revelando-se quase um sujeito moderno?

Essa capacidade de reflexão sobre o eu, antes de tantos, põe Montaigne na galeria dos filósofos que poderiam ser tomados como “psicólogos”, no sentido que Nietzsche assim se denominou. Sem dúvida o consagra no panteão dos grandes filósofos da subjetividade.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

[1] Sloterdijk, P. O Palácio de Cristal. Lisboa: Relógio D’Água, 2008, p. 66.

[2] Baudrillard, J. Simulacros e simulações. Lisboa: Relógio D’Água, 1991.

[3] Montaigne, M. Os ensaios. São Paulo: Cia das Letra-Penguim, 2010, pp. 228-33.

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