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18/11/2017

A modernidade: indivíduo, sujeito e sonho


Em 1615 Miguel de Cervantes publicou D. Quixote de La Mancha. Vinte e seis anos depois, em 1641, René Descartes publicou as suas Meditações Metafísicas. Dois séculos depois, essas obras já eram tomadas como elementos fundantes da chamada modernidade.

Cervantes trouxe à baila a ideia moderna do indivíduo, aquele que é o autor de sua própria biografia. Descartes apontou para a ideia de sujeito, aquele que se toma como fundamento de seus conhecimentos teóricos. Cervantes criou o romance moderno, Descartes criou a metafísica moderna. Individualismo sonhador e metafísica da subjetividade – eis aí os dois frutos dos tempos modernos.

À primeira vista, temos aí dois caminhos talvez sem mais que um cruzamento. Indivíduo é uma noção depois apropriada pela sociologia, e sujeito é uma noção depois forjada pela filosofia. Indivíduo e sujeito possuem lá, é certo, similaridades. Todavia, quando olhamos mais de perto para esses dois livros, D. Quixote e as Meditações, vemos que o chamado “espírito de época” tem sua real importância. Pois se para Descartes importa colocar tudo em dúvida e, então, para tal, cria um ambiente que poderia ser o de se estar sonhando, tendo como criador desse sonho enganador um gênio maligno atuante no pensamento, em contrapartida Cervantes cria o próprio homem moderno como o sonhador par excellence. D. Quixote é o homem da luta contra os moinhos de vento, e que se incomoda assustadoramente quando é retirado de seus sonhos, mesmo que neles esteja em apuros ou apanhando.

Para Descartes, estar na Matrix  do Gênio Maligno é uma hipótese de trabalho. Para Cervantes, estar na Matrix que faz do cavaleiro medieval um atuante mesmo em tempos em que não existem mais cavaleiros, é uma condição humana moderna. Enquanto Descartes imagina uma mente prisioneira do ardiloso ser maligno, que coloca toda a sua indústria para enganar o homem até mesmo quando este pensa em coisas indubitáveis, como a definição do quadrado ou a soma de 2 e 2, Cervantes se põe a narrar as desventuras de um aventureiro que não suporta, de maneira nenhuma, viver sem que possa ser considerado como uma unidade chamada “indivíduo e seus sonhos”. Descartes usa da condição de sonho para tirar da dúvida uma certeza: se penso (penso errado: sonho), existo. Cervantes usa da condição de sonho para que tenhamos a certeza de que sair dele é perder a condição de indivíduo que se está para ganhar. Um indivíduo tem o direito aos seus próprios sonhos, tem direito à loucura, uma vez que é um indivíduo.

Assim, no campo da filosofia moderna, o necessário é colocar o sonho, o pensamento com conteúdos falsos, como estratégia para se chegar à verdade dada pela certeza. Enquanto que no campo da ficção moderna, o necessário é mostrar que ser indivíduo moderno é poder sonhar seu próprio sonho, não o de outro, e vivê-lo mesmo que isso implique ser tomado por louco. O jogo de certezas aí, nesses dois traçados, se coloca num trabalho de espelhos. A modernidade não é um ou outro, mas justamente a reflexão de um no outro.

Somos modernos se podemos colocar a armadura, prometer terras ao simplório Sancho Pança e sair por aí na nobre tarefa do sonho de auto-afirmação individual. Somos modernos se podemos vestir apenas um chambre e, perto do fogo, trazermos o Gênio Maligno para nos enganar e, então, tapeá-lo, fazendo-o nos dar a certeza que precisamos. A certeza nada é que a verdade vista segundo uma ótica individual, subjetiva.

Depois de Cervantes, nunca mais os livros puderam contar histórias que não contivessem dramas individuais, inclusive sonhos completamente pertinentes a um só herói. Depois de Descartes nunca mais foi possível filosofar sem considerar a “perspectiva da primeira pessoa”, ou seja, a introspecção individual, o caminho da subjetividade. Sujeito e indivíduo abriram suas asas na fundação da modernidade – caracterizaram-na!

Após tanta discussão sobre a modernidade, sobre se estamos nela ainda ou não, se a negamos ou não por meio da introdução do conceito de pós-modernidade, nada mudamos a respeito da fundação dela própria. Nossa historiografia está cada vez mais convencida que essas duas características, a dada por Cervantes e a construída por Descartes, realmente são pontos chaves do espírito de nossa época, no que ele ainda tem de moderno.

Paulo Ghiraldelli Jr, 60, filósofo. São Paulo, 26/08/2017

Figura: Cervantes e Descartes

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4 Responses “A modernidade: indivíduo, sujeito e sonho”

  1. Guilherme Pícolo
    29/08/2017 at 09:39

    https://cinema.uol.com.br/noticias/redacao/2017/08/29/encaretamos-bingo-traz-anos-1980-divertidos-mas-nao-exatamente-melhores.htm

    Paulo, desculpe fugir do tema, mas é válida a pergunta da jornalista, acima (Se “encaretamos”)?

    O politicamente correto retirou espontaneidade das pessoas, mas por outro lado parece uma evolução se pensarmos que a sociedade dos 80 era bem mais racista e sexista (vide os estereótipos humorísticos : Mussum, o negro bêbado que não gostava de trabalhar; “Seo Peru”, o gay afeminado que só pensava em macho; Dercy Gonçalves, a mulher da vida que podia falar palavrão; Mazzaropi, o capira tosco e ignorante etc…)

    • 29/08/2017 at 10:29

      Esse ataque ao politicamente correto, feio a lá Pondé e outros, não tem história, é um ataque ignorante, não sabe nada sobre a suavização como exigência do mercado e sobre a missão civilizatória do capital.

    • Guilherme Pícolo
      29/08/2017 at 11:20

      Concordo! Mas eu acho que essa onda precede o Pondé…

    • 29/08/2017 at 11:53

      Pícolo, tem dó, claro que precede. Pondé pegou a segunda onda do PC, e o criticou como burro. Como foi o mais burro, ficou com a responsabilidade da burrice máxima, no Brasil. Vendeu a coisa aqui como sendo nova. Os americanos nunca levaram a sério o politicamente correto como aqui, e criticaram por meio de paródias. Fizeram nos anos 70/80 livros de histórias infantis politicamente corretos, que foram lançados no Brasil, mas não lidos.

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