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18/11/2018

Modernidade e silêncio: Kafka, Agamben e Sloterdijk


[Artigo indicado preferencialmente para o público acadêmico]

Em um dos textos mais fantásticos – e talvez o mais curto – da literatura ocidental moderna, Kafka vislumbra as possibilidades de Ulisses no mar das Sereias.[1] Num primeiro momento, põe a ideia de que elas talvez não tenham cantado. Assim, Ulisses, preocupado com os estrategemas da racionalidade calculista – se arrumar com cera e cordas – para escapar das potências míticas do mar, não percebeu que elas jamais cantaram, que ocorreu o mais profundo silêncio. Em um segundo momento do texto, já nas últimas linhas, Kafka levanta a possibilidade de Ulisses ter percebido o silêncio. E se assim foi, ele manteve o semblante de espanto de modo a fingir tê-las ouvido, deixando a todos a imprensão de tê-las de fato derrotado com o seu estratagema de amarrar-se ao mastro.

Essa segunda possibilidade é a mais correta e a mais interessante. Correta, uma vez que respeita a fama de Ulisses. Ele é o herói homérico caracterizado por ser uma raposa matreira, e não poderia em nenhum momento deixar-se enganar, ao menos não sem antes enganar outros – todos nós, herdeiros da cultura homérica.  Interessante, pois se Ulisses é interpretado pela filosofia como o primeiro homem moderno, o indivíduo par excellence, então uma sua característica seria a sua facilidade em ouvir falas, mas não vozes (animais) – ou seja, não o canto.

Mas por qual razão digo isso? Por que Ulisses seria o homem moderno à medida em que pode exibir-se como aquele que pode ouvir falas antes que cantos? Essa minha interpretação está afinada com a tese básica da filosofia de Giorgio Agamben.

Segundo o filósofo italiano a linguagem é um substituto da voz.[2] Trata-se da fala que ocorre no lugar da voz. O homem enquanto ser ético fala, e deixa para trás o homem como ser puramente vivente, orgânico, que se manifestava pela voz. O ritmo da voz, a melodia, é tirada de cena à medida que entra no palco a mensagem racional gerada pela fala, por meio de uma instância que é a linguagem. De fato, levando a sério uma tal hipótese filosófica, podemos então dizer que é a linguagem, como instância cultural pronta, que fala utilizando de nossa boca. Nós mesmos, então, nessa condição, não mais temos voz, nem experiência subjetiva, pois é a linguage que se experiencia.

A familiaridade que temos com a linguagem nos engana, nos faz imaginar que nunca tivemos voz, que o nosso natural é ter a fala, a linguagem. Na passagem da vida orgânica para a vida ética, da “vida nua” para a vida política, ocorre a entrada do lógos na phoné, o que nos joga na ilusão de que a voz humana é a fala. Na verdade, a fala é uma espécie de silêncio da musicalidade das vozes. Agamben lembra que a voz animal é voz, é um rugir do leão e um latir do cão, mas a voz humana não é voz, é linguagem. Acostumamo-nos a isso de tal maneira que esquecemos que os humanos criaram a linguagem (a língua) e a reinseriram, como linguagem, no não-lugar da voz. Mas a experiência de Ulisses no Mar das Sereias, como descrita por Kafka, repõe a verdade: o homem moderno não pode ouvir canto algum, vozes, mas só a fala. As Sereias não falam, cantam. Ulisses pode, de fato, não tê-las ouvido e, para não perder a pose – também uma característica moderna – se manteve no seu palco de teatro, fingindo ter se maravilhado diante do chamamento terrível.

Ulisses nunca foi um ser da natureza, capaz de se submergir no melódico. No seu estágio, já era de fato aquele que, como nós, escutam apenas mensagens. Somos os que captam o que tem função. A linguagem tem função: ela diz algo. A musicalidade da voz não tem função mensageira, ela é um viver, um simples estar no mundo. Há muito Ulisses já havia rompido com potências míticas do tipo das Sereias e, completamente alheio ao mundo espontâneo da vida, esperava delas antes um recado que um arrebatamento, ainda que tenha se preparado para o que imaginava ser um arrebatamento.

Peter Sloterdijk percebe essa característica do homem moderno, exposto por Agamben e Kafka.

Sloterdijk afirma: “a ‘invenção do indivíduo’ nas assim chamadas grandes culturas só foi possível pela introdução de práticas de sossego e silêncio. Para isso foram decisivos a escrita e o exercício subsequente de leitura sossegada”.[3] E mais: “Não existe o ser humano interior antes do produzido pelos livros, as celas dos conventos, os desertos e as solidões; só depois que o próprio ser humano se converteu em cela ou camera silens pode habitar nele a razão com sua voz suave”.[4]

O segredo todo, aqui, é entender que a “voz suave” da razão nada mais é que o silêncio. A razão tem a voz tão suave que ela é quase um silêncio ou deve se parecer com um silêncio. Ou, nos termos de Agamben: a razão é fala, linguagem, não é voz, não é musicalidade.

Não à toa, como Sloterdijk diz, Descartes acreditou ter passado pela experiência do Cogito, e não pela experiência do Cogito Sonoro.[5] Ele acreditou ter pensando sem voz. Diferentemente de Sócrates, que ao se relacionar com o seu daimon ainda o ouvia, Descartes não ouviu nenhuma voz interior, mas simplesmente o silêncio do pensamento – vindo do seu conceito do que é pensamento. Tomou a linguagem, obviamente como fala, como um texto escrito no pensamento. Aliás, ao falar em daimon, ou no gênio maligno, Descartes também o transforma em algo silencioso. Só o daimon do tempo de Sócrates e dos antigos tinham algo semelhante a uma voz. O gênio cartesiano pensa sem voz. Descartes é, então, o protótipo do homem moderno em uma forma mais avançada que a de Sócrates. Na voz do daimon de Sócrates havia uma proto-linguagem, um “não” e um “sim”. No que é percebido por Descartes já não há som algum, não há voz, há só um elemento misterioso chamado pensamento, uma pura gramática que produz um falar dentro da cabeça, sem que essa  fala seja uma voz. Aqui sim Descartes é Ulisses: o homem que nada mais escuta e, então, para se mostrar vivo, finge que escuta. Uma  vez “escravo da semântica”, perde o contato com a musicalidade. A diferença é que o Ulisses de Kafka, diferente do Ulisses-Descartes, pode muito bem ter percebido que havia ficado surdo para o tipo de manifestação de Sereias, para a música.

O homem moderno precisa se acreditar solitário, unificado – um autêntico indivíduo. Em termos políticos: o homem liberal, o homem do liberalismo. O burguês self made man.

O homem que acredita ouvir música acaba por explicar a música em seu gênero, agregada a tribos e, portanto, envolta a uma mensagem. De fato, transforma a música no que ela já é para todos os modernos: texto, recado, desdobrar de performances éticas. Enfim, silêncio das vozes.

23/02/2018 Condomínio Jaguaré, Vila Jaguaré, São Paulo          

[1] Kafka, F. O silêncio das Sereias. Folha de S. Paulo, 06/05/1984.

[2] Ver: Ghiraldelli Jr., P. Giorgio Agamben: linguagem, voz e a tarefa da filosofia (www.academia.edu)

[3] Sloterdijk, P. Sphären III – Schäume. Frankfurt aim Main: Suhrkamp, 2004, p. 382.

[4] Idem, ibidem, p. 384.

[5] Sloterdijk, P. The Aesthetic imperative.  Malden: Polity, 2017, pp. 27-45.

Foto: Sereia. Terracotta: Século VI a.C.

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7 Responses “Modernidade e silêncio: Kafka, Agamben e Sloterdijk”

  1. Eduardo Rocha
    28/02/2018 at 14:11

    A iemanjá não é uma sereia que canta?

  2. Tony Bocão
    26/02/2018 at 08:41

    Eu que lera em algum lugar uma interpretação de um Ulisses, na situação de representante do moderno, amarrado ao mastro para buscar uma experiência sem risco e com conforto (como um observador do sublime). Nessa combinação própria da era da leveza, penso nessa intenção se deparando com o silêncio, mas não imagino Ulisses fingindo.

  3. 25/02/2018 at 12:06

    A linguagem humana e para coisas irelevantes, a verdadeira linguagem esta no ar, para ser captada, por isso temos que tar antenados, para não viver no silêncio

    • 25/02/2018 at 13:29

      Qualquer linguagem, para Agamben, diz pouco de nós.

    • 25/02/2018 at 13:59

      A linguagem foi algo necessario para evolução do mundo, o estranho é que tem varias linguas, sinal que cada região vivia isolada, assim nasceram varias linguas, talvez foram criadas em tempos diferente, é como os Deuses, algo necessário pois todos os povos tem o seu, tem coisas que são criadas mesmo em região isoladas.

    • 25/02/2018 at 14:31

      Bem, Ronaldo, meu texto não é sobre isso.

  4. Matheus
    25/02/2018 at 08:33

    Não sei se ainda sou um dinossauro bem animalesco caminhando pelo mundo, mas sempre me assusto com o grau de preocupação sobre a informação/mensagem que alguns “cultos” por aí tem em relação à música atual… Não à toa a música instrumental está praticamente morta e um dos últimos gêneros a ter surgido foi o rap (que na maioria das vezes dispensa conceitos simples e necessários como melodia, afinação): é literalmente a arte do falar, e não a arte de fazer som!

    Já diria David Lynch “Silêncio, No hay banda, no hay som!”

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