Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

24/04/2017

A moda agora é cuspir no outro?


Jean Wyllys foi provocado por Bolsonaro e vingou-se por meio de uma cusparada. Retribuindo, um filho de Bolsonaro cuspiu em Wyllys. Até aí, parecia apenas ser uma modo típico desse pessoal se relacionar. Algo “deles” – familiar a esse grupinho da família Wyllys em relacionamento com a família Bolsonaro. Mas agora, diante de uma provocação em restaurante, Zé Abreu, ator e petista, cuspiu nos provocadores. Êpa! Será que vai virar uma regra? 

Por que esse pessoal cospe, ao invés de, como no passado, desafiar para um duelo, após alguma provocação ou ultraje? O filósofo Giorgio Agamben, ao desenvolver a noção de biopolítica vinda de Foucault, pode nos ajudar a entender essa transição.

Foucault nos conta que a modernidade se distingue pela entrada em cena da biopolítica. Agamben especifica a biopolítica por meio dos conceitos de vida nua e homo sacer. A vida nua é a vida exclusivamente biológica, e homo sacer é aquele cuja vida é o ethos em vida, um conjunto de disposições práticas que o fazem ser uma pessoa. A modernidade é o que é à medida que faz de cada homem alguém que vale ou não vale não mais pelo seu valor, mas por um novo valor, o da vida nua. Nesse caso, então, surgem perdas e direitos, todos relacionados com o campo biológico, e uma política inteira do bem estar social e/ou do campo de concentração, cujo objeto é a vida exclusivamente animal.

Se a vida biológica é a vida, e então tirar a vida ou não tirar é o que conta como dado último, é fácil ter leis que proíbam o duelo. Se é a vida nua que é a vida, e se há de protegê-la, o importante é que não exista morte biológica, morte do corpo. O duelo não protege a vida biológica, ao contrário, ele a expõe, mas protege a vida da pessoa, pois é uma forma de não se estar andando por aí desonrado, alguém que é arrancado de sua pessoalidade completa, que inclui a assunção ética. Mas, se viver desonrado é possível desde que se viva (biologicamente), então o duelo perde o sentido e, num segundo passo, pode ser proibido. Foi de fato isso que ocorreu.

Todavia, há ainda entre os homens algum traço de pessoalidade. Há algo que os homens, exatamente por perderem a noção de ter honra ou não, tiveram de inventar, e que acabaram por chamar de dignidade. Como recuperar a honra em uma sociedade moderna, em que a honra não tem qualquer importância? Não dá, no máximo se pode falar de digno e indigno. Ora, no duelo então como necessariamente farsa, arremedo, pastiche e caricatura, surge a dignidade para se conquistar. É a troca de saliva não pelo beijo, mas pelo cuspe, sinal de nojo, de objetificação, de tomar distância.

Cospe-se no chão para se manter distância, para se dizer: não mais estarei de quatro, como meus primos monos, mas sempre ereto, não há perigo de eu voltar ao chão. Cospe-se na bunda de uma mulher ou faz-se o mesmo com o homem ao iniciar um boquete. É tratar o órgão sexual como o chão, objetificando-o, tomando distância dele por meio da objetificação, e aumentando com isso o prazer, uma vez que o prazer sempre tem uma ponta de necessária objetificação. Cospe-se no que se objetifica, no que se reconhece como aquilo do qual se quer distância. Cospe-se em Bolsonaro e outros não-petistas por aí.

Não vamos voltar com os duelos, pois a biopolítica veio para ficar. Portanto, se tivermos que nos vingar ou limpar a honra, será com essa história que se repete como farsa, o duelo do cuspe. Ridículo, mas, enfim, divertido – contanto que não seja conosco.

Agora, um aviso, os petistas não devem institucionalizar essa prática, pois eles podem encontrar por um aí algum ex-cavaleiro medieval, que não queira duelar de modo moderno, repetido e, por ser repetido, farsesco. Creio que seria interessante para o petista, nessa hora em que ele mesmo fez questão de virar persona petroleira non grata no Brasil, não continuar cuspindo nos outros.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

Tags: , , , ,

5 Responses “A moda agora é cuspir no outro?”

  1. fabio josé
    27/04/2016 at 10:37

    O Brasil pós-pt ficou muito chato. Não existe mais diálogo. Quem usa a violência, mesmo a verbal, é porque não sabe conversar…

  2. Cristiano Frota
    24/04/2016 at 11:30

    Eu fico com muito me de que, naquela circunstância de restauranfe e de “José de Abreu” (que não há para que ser “combatido”, pela idade, Etc.) demonstre que já não sabemos mais se há lugar no mundo bem particular para “fazer justiça”.

  3. ivan lázaro
    24/04/2016 at 11:16

    Moda tornada popular por Chico Buarque em Jaguar.

  4. Beto
    24/04/2016 at 09:26

    Pessoas que cuspiam eram mal vistas antigamente, um sinal de má educação, de falta de civismo e bons modos. Mas no Brasil é ainda comum ver pessoas escarrando e dando cusparadas para a calçada. Ainda um dia desses um senhor quase cuspiu na minha perna. De atitude repugnante, agora está com novo significado, um significado de luta antifascista, de luta em defesa do PT e de uma presidenta honesta que não cometeu crime de responsabilidade. Todo apoio a luta antifascista, viva as cusparadas políticas como expressão dessa liberdade.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

About Paulo Ghiraldelli

Filósofo