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28/04/2017

Por que a Miss Bumbum perturba tanto no Ministério?


Milena Teixeira não fez ensaio nu no Ministério. Mas os de pouco cérebro e os derrotados gemeram diante da sua exuberância de modo semelhante ao gemido das feministas de cérebro zikado diante de Marcela Temer na Veja.  Como entender essa situação para além do jornalismo?

Os frankfurtianos Adorno e Horkheimer escreveram que nutrimos um profundo “amor-ódio pelo corpo”. A maneira como desejamos a pornografia e ao mesmo tempo a rechaçamos é um bom indício disso.

A explicação freudiana, baseada na antropologia e na teoria da evolução, nos alerta para a nossa ancestralidade: ficamos eretos e, então, para evitarmos a volta ao chão, criamos mecanismos vários, inclusive o nojo, de tudo que é baixo. Ficar na linha de visada dos órgãos sexuais, que era nosso destino quando de quatro, é agora rechaçado e, assim,  claro, isso aparece com nossa repugnância – real ou não – diante da mostragem de tais órgãos. Mas, ao mesmo tempo, almejamos descansar nessa posição, escapar de termos forçado a coluna e nos tornado angustiados por conta da inteligência que adveio junto de ficar em dois pés. Eis aí tudo que precisamos, dizem os freudianos, para explicar nosso amor-ódio pelo corpo e, então, nosso paradoxal comportamento diante da pornografia ou simplesmente da mulher nua ou do homem de nu frontal.

Se nos deslocamos para a explicação de Foucault e Agamben, ocorre um giro antropológico-político. Aparece a noção de biopolítica e a modernidade estreada pela entrada da vida biológica como vida, deixando de lado a vida do homo sacer, a vida ética e pessoal de lado, já como não tendo nada a ver com a vida. Assim, ser moderno é ser identificado não pela pessoalidade e sim por elementos corporais. Perceber isso e procurar fugir disso se faz pela desesperada busca de Kant por uma ética do dever, e da gritaria tola dos que hoje pedem “ética na política” ou criam inúmeros matérias de ética na universidade. Desesperar-se com essa entrada do corpo como sendo o que podemos ser é, então, ter isso como desonerador, leve, interessante, mas ao mesmo tempo escandaloso, revelador de nossa diminuição, algo que teríamos que evitar. O corpo nu e a pornografia, então, podem aparecer aí como o que se revela indício fenomenológico desse “amor ódio pelo corpo”, apontados pelos dois filósofos frankfurtianos.

Nesse último caso, quando falamos em desoneração, então já acoplamos à nossa explicação também Sloterdijk. Ele lembra a desoneração. Nossa sociedade moderna é uma sociedade da leveza, mas essa leveza precisa, ainda, mostrar uma sociedade real. Uma sociedade da abundância e da paz só se vê como real se ela própria, pairando no céu pela antigravitação geral, ganha algum peso para ser antes um dirigível que um balão solto. Nada como ser só corpo, leve, pronto para a brincadeira. Mas a disseminação do corpo nu sem culpa e que mostra uma sociedade pronta para o eterno entretenimento, precisa de alguma coisa que possa chamar de “seriedade”, e assim ganhar um peso para ser real. O sério é o real. Clama portanto, ao mesmo tempo, por algum tipo de repreensão da pornografia. As pessoas todas percebem que essa repreensão é uma necessidade com um tom às vezes dispensável, e por isso aparece também, junto com a repreensão, a acusação de hipocrisia.  Mas, não é com a acusação de hipocrisia que explicamos algo. O que explica é isso: é necessário sempre, para que a desoneração não se faça como uma perda de rumo do balão que sobe em fim de festa de aniversário, que exista algum peso nessa sociedade. Condenar a pornografia do outro ou a foto do outro como pornografia pode ser um mecanismo de oneração da desoneração máxima que corre vigente no âmbito moderno.

Essas teorias não precisam ser excludentes. Todas elas, como estão encadeadas aqui, nos ajudam a ver como que o nosso moralismo barato e nossa vitória e derrota se manifestam diante de órgãos genitais que ou abocanhamos o que nos abocanham.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo

PS: esse artigo é para o MEU LEITOR, o leitor inteligente. Cuidado ao comentar.

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12 Responses “Por que a Miss Bumbum perturba tanto no Ministério?”

  1. Zito Mour
    02/11/2016 at 14:38

    Beto, nem é necessário ser solteiro. Sou casado e não perco tempo! Essa Internet é do jeito que o Diabo gosta!

  2. Fátima Faría Peixoto
    02/10/2016 at 04:52

    Amei sua entrevista no Jô. Vou ler seu livro apresentado.

    • 02/10/2016 at 06:50

      Fátima, acho que esgotou, mas há outros, experimenta o “A filosofia como crítica da cultura”

  3. André
    11/05/2016 at 16:04

    Minhas leituras se concentram em textos jornalísticos, textos filosóficos e romances pornográficos. Ler bukowski, Henry Miller, anais nin, Philip Roth, Rubem Fonseca e pornopopeia traz de volta a leveza da vida que os jornais e os filósofos dificilmente estimulam. A hipocrisia de se negar a animalidade é um asco que é sempre bom alertar. Não importa quão evoluídos ou civilizados formos, ainda seremos bicho. Azar do homem pretensioso que reprime o lado bestial ou dionisíaco que habita em cada um, ele será inevitavelmente um neurótico.

    • Fátima Faría Peixoto
      02/10/2016 at 04:33

      Por aí. Não se pode negar nossa condição de animais ,antes do “racionais”. É preciso a libertação da alma. Auto aceitação de cada um. Temos uma dificuldade de desenvolver o auto amor e nesse momento passamos a dissimular . Todos temos desejos, intolerâncias , frustrações em função de uma educação castradora e preconceituosa onde se constrói , desde a infância nossos bloqueios.

  4. Valmi Pessanha Pacheco
    27/04/2016 at 10:09

    Prof. PAULO
    Alguns antropólogos e fisiologistas chegam a afirmar que outro tributo pesado que pagamos pelo fato de adquirirmos a “estação bípede” é o sofrimento de hemorroidas (já que foi falada a visão das partes pudendas, própria do andar quadrúpede).
    Agora, quanto aos políticos brasileiros que primam pela falta de decoro, assim como alhures, a eles está destinado o Malebolge, oitavo círculo do Inferno descrito magistralmente pelo genial Dante Alighieri na Divina Comédia.
    Com admiração.
    Valmi Pessanha.

    • Acólito Anônimo
      27/04/2016 at 18:57

      Interessante notar que Dante condena igualmente o tráfico de influências e os assessores, ou seja, “pessoas que não cometeram fraude, mas que usam sua posição para aconselhar terceiros para cometer fraudes”.

  5. Gustavo Moreira Martins
    26/04/2016 at 18:59

    Professor, oneração nesse sentido seria torcer o nariz e se passar por sério? Digo, nesse caso, exigir que a mulher do ministro tenha um comportamento “condizente” com o recinto?

    • 26/04/2016 at 21:49

      Oneração é encontrar culpas, responsabilidades, pesos exatamente na medida em que é leve.

  6. Renata
    26/04/2016 at 18:55

    Quando vc vai parar de falar das mulheres? Se toca.

    • 26/04/2016 at 21:49

      Renata não estou falando de mulheres quando falo de você. Outra coisa: você não faz a mínima ideia do que trata o artigo.

  7. Beto
    26/04/2016 at 18:05

    Sim, a Miss Bumbum é muito bonita e os homens solteiros gostam de ver mulheres sensuais e que mostram decotes e o bumbum, as curvas de uma bela dama gostamos de ver.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo