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29/03/2017

Minha vida viva no capitalismo


Ando pelos corredores do shopping. Passo diante de uma vitrine de loja de calçados. A vendedora percebe meu interesse por um tênis e rapidamente me diz, “entre e experimente”. Cedo ao convite, como se ela estivesse dizendo “entre e me experimente”. Juro que não ficaria tão boaquiaberto quanto eu diria ter ficado caso isso ocorresse. Não há mais problema quanto a bons modos em dizer da mulher o que se diz da mercadoria. As próprias mulheres se referem a elas e aos homens como o que está sujeito ao “teste drive”, ou seja, sexo casual para “ver se dá certo”. Encontrar o sapato certo, já que se está ali passeando, foi a convite que cedi.

Os vocabulários atuais já incorporaram o que foi um escândalo para Marx, quando ele mesmo mostrou que o valor de uso da mercadoria havia se submetido ao seu valor de troca. Os vocabulários atuais já estão afeitos ao modo pelo qual conversamos sobre nós mesmos, os vivos, como se fôssemos a coisa morta, ou seja, a mercadoria. Mas isso por uma razão simples: ela, a mercadoria, é que se fez viva – se fetichizou – e, agora, para nos sentirmos vivos, temos de aceitar nossa mercadorização – reificamo-nos para voltar à vida!  Mimetizamo-nos em mercadoria para viver.

O que Marx mostrou foi que o mundo do utilitarismo nada tem a ver com o mundo do capitalismo e da sociedade de mercado em seu maior desenvolvimento. Pois nada é útil. A mercadoria não pode mais ter valor de uso para ser mercadoria. Para ir ao mercado e ser trocável, ou seja, ser mercadoria, ela precisa ter equivalente, e o equivalente universal é o dinheiro. O mercado como mercado não funciona com produtos uteis, mas com mercadorias, ou seja, tudo que tem equivalente para a troca. Uma sociedade que incorpora tudo ao modo de ser da mercadoria transforma seus elementos todos no que é trocável, ou seja, dinheiro. Nós mesmos entramos fácil no interior desse mundo. Tornamo-nos mercadoria e, claro, dinheiro. Perdemos nossas faces para adquirir uma característica universal e, só então, recebemos de volta a condição de vida que havíamos perdido ao não ter mais uma face, um rosto.

A mercadoria se transformando em mercadoria, ganhando só valor de troca, ou seja, dinheiro, e então, enquanto mercadoria aproxima-se do comportamento de outros elementos sociais que não possuem valor de uso, ou seja, as obras de arte e coisas afins. Assim, a mercadoria ganha nova função, a de aparecer. Uma sociedade de mercado se transforma então no que Debord notou bem: “a sociedade do espetáculo”. Ele próprio desmentiu a ideia da modernidade como a época do ter e não do ser ao mostrar que vivemos a época do aparecer. Não à toa vários filósofos relacionaram o olhar de Marx com o acontecimento de sua época, a Exposição Universal (1851), aquela feita no Palácio de Cristal em Londres, que impressionou Baudelaire e outros (Benjamin, Agamben, Sloterdijk). As mercadorias ganharam uma coreografia a ser apresentada nos teatros chamados de vitrines.

Todavia, nessa fase, ainda não temos a mercadorização da sociedade. Trata-se de uma teatralização da mercadoria em uma sociedade que ainda não incorporou o modus vivendi da mercadoria. O mercado pressupõe interação, troca, participação. Isso ocorre quando o espetáculo do mercado é antes de tudo o próprio mercado. Então as lojas de departamentos se transformam em lojas abertas. Marisa, Renner e outras não possuem moças na porta convidando para a interação. A ideia do espetáculo não é mais a ideia do que se fez conteúdo do rádio ou da TV, mas o que ocorre na Internet. Trata-se da experiência horizontal. O que é? A experiência das redes sociais virtuais, sem hierarquias. Os movimentos sociais sem hierarquias adquirem essa experiência espacial dada pela Internet. Mas também a Renner ou a Marisa fazem o mesmo: são lojas para a interação horizontal, de participação individual na qual os humanos pegam as mercadorias como se elas tivessem conseguido o milagre de terem voltado a se comportar como produtos, como se tivessem readquirido valor de uso.

Instaura-se aí, então, uma nova fase que demanda muito mais tempo livre de todos os frequentadores do shopping, e nova ampliação da capacidade de divertimento. Não se trata de ter tempo para ir à Exposição Universal para o espetáculo das mercadorias, mas de ter muito mais tempo para entrar na maratona desportiva do shopping, que implica em alimentar-se na praça e adentrar as lojas para o experimento. Aliás, é necessário comer nesse local, ingerir fisicamente o shopping, e pegar as peças de roupas para vesti-las no provador. Provar a comida e provar as roupas. Pô-las à prova. Para que elas se confirmem mortas enquanto nós somos os vivos. O espetáculo agora não é dado na vitrine, mas no conjunto do shopping. Ele é o desporto e o balé que se apresenta no interior das lojas C&A. Ele como um todo é o entretenimento que só se pode efetivar na condição da sociedade da abundância, do entretenimento, da geografia do aumento do chamado tempo livre e na crescente autonomia individual das pessoas.

Eis a vida viva: encontro casual com mercadorias na Renner e encontro casual com os potenciais locais de teste driver sexual, ou seja, os corpos de outros frequentadores do shopping. A troca de experiências sede para a troca de experimentos. A moda que é, enfim, a morte do costume (Gabriel Tarde), se revela como uma prática para que o experimento ocorra, ou seja, o que é casual aconteça.

Em um mundo assim, do entretenimento na sociedade da leveza (Sloterdijk), doutrinas racionais contam menos que práticas corporais. Por isso, a interação tem mesmo que ser corporal. Não existe ida ao shopping se não houver uma parte do tempo dedicado ao comer. Desse modo, também os lugares em que a interação continua sendo a visão, cada vez mais o consumo de apetrechos é inserido na práxis de visita e participação. Há comida em galerias de arte e museus. Há a experiência em que para se aprender história é necessário comer o prato da época. Há os museus interativos, pois, sem a interação, se estaria falando de espetáculos dos primeiros tempos da mercadoria. Só então, agora, o padrão do mercado é realmente inserido em todas as atividades. Só então o divertimento, que Pascal vislumbrou como sendo algo do homem moderno, se faz vingar de modo universalizado. É o divertimento da interação, mas esta interação como espetáculo não do ver, mas do participar corporalmente (pode ser virtualmente, o que não exclui que seja corporalmente).

 Ninguém mais está disposto a não viver. Todos querem viver, fazer coisas, participar, interagir. Há uma hiperatividade na sociedade do tédio. A sociedade do consumo não se consome, mas se hiperativa. Todos são como Quixotes que voltam histéricos a fazer a mesma coisa, e não apenas sonhar. Voltam para o interior dos sonhos para pô-los em andamento. O homem melancólico desaparece em função do histérico. A “histeria das compras” deixa de ser uma metáfora. Vira uma patologia. Pois tudo nessa sociedade é patologizado. A patologia e a morbidez se tornam práticas e assuntos.

Volto então ao momento em que, sentado na loja, experimento meu tênis. Para completar o dia e estar vivo, resta comer algo e tentar comer a moça da loja ou marcar algo com ela. Depois disso, tenho de voltar à minha nave espacial, ou seja, meu apartamento single. Não preciso mais ligar a TV para saber quem participou da minha ida ao shopping. Tudo que foi feito foi postado por todos em tempo real e eu estava o tempo todo conectado. Sei quais famosos estavam comigo. Eu mesmo tenho já minha “galera”, que viu meu tênis novo, minha comida e, enfim, os seios da moça da loja que, já a essa altura, saiu do serviço e me mandou nudes que, claro, eu compartilhei no grupinho de Whatsapp. Sei que estou vivo, que recuperei, interagindo como mercadoria, minha condição de vida. Só me tornando morto posso, agora, viver. Estou morto, mas à direita do Pai, no Paraíso. Estando já com Deus, nem preciso mais rezar.

Paulo Ghiraldelli Jr, 58, filósofo.

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5 Responses “Minha vida viva no capitalismo”

  1. 28/12/2015 at 12:02

    ouqei, esse é o segundo texto que vejo o shopping como tema de filosofia. isso tem algo a ver com a cultura do descarte?

  2. Alexandre
    26/12/2015 at 02:45

    Isso soa como uma distopia para mim.

  3. Ferdnand
    24/12/2015 at 13:51

    Restou-me uma dúvida: o autor do texto sente-se feliz, confortável como mercadoria ou perplexo, insatisfeito ou indiferente?

    • 24/12/2015 at 14:04

      Ferdnand o texto diz tudo que tem para dizer, sua dúvida não é pertinente. A filosofia demanda um LEITOR que saia de si por alguns minutos e consiga se colocar um pouco acima do que é. Isso é fundamental. É fundamental não fazer da filosofia estorieta moral.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo