Go to ...

on YouTubeRSS Feed

16/12/2017

Minha prima fanática por Aécio


Minha prima fanática por Aécio ou Os caminhos e descaminhos do ressentimento do bem-aventurado.

Minha prima é jovem e linda. Doutora em área médica. Pesquisadora. Classe média. Formação uspiana impecável. Cientista. Tudo que Jânio mais desprezava, e que Collor e Aécio desprezam e odeim. Olho para o perfil dela no facebook e vejo uma fanática pelo Aécio. Não tenho partido e o PT não é a primavera. Mas entristeço.

Não haveria aí, no fanatismo da bela moça um certo cansaço da vida? Uma certa negação de si mesma, um grito desesperado do tipo: “tirem-me dessa vida, não a suporto!” Peter Sloterdijk diz que o suicida tem vergonha de sua mão. Ora, então, se a vergonha é grande, que tal eu me matar pela mão do outro? Que tal eu trazer para chefe de todos aquele que mais pode me desprezar? Que tal eu ter meu único prazer sexual me vendo destruída, espancada, vilipendiada por aquele que não precisou estudar e que se droga e espezinha a polícia se ela o para dirigindo embriagado? A política às vezes revela em nós a morbidez.

Lembro agora da eleição de Collor, de como existiram pessoas que ao perderem toda a poupança, ainda assim chegavam para mim e diziam: “mas ele vai devolver, ele fez isso porque não havia outro jeito”. Houve um tio meu que disse: “nós não sabemos gastar, ao menos agora Collor fica com nosso dinheiro, quando devolver após consertar a nação, ficaremos ricos.”

Quando Aécio dá socos no rosto da namorada, muitas pessoas, aquelas pessoas que odeiam a violência contra a mulher, como essa minha prima (acredito!), talvez tenham seu primeiro momento de glória. Lá no fundo do peito, o demônio do anti-eu pode estar dizendo dentro de sua alma: “eu é que deveria estar nos braços do Aécio sendo humilhada e machucada – punida! Pois enquanto ele farreou uma vida, eu fiquei me martirizando com estudo e trabalho. Eu gostaria de ter me casado com ele para receber toda minha punição possível. Punição por esse desejo filho da puta de ser uma mulher séria, de ter vivido o que vivi. Eu não queria isso para mim. Eu queria o prazer do sofrimento”.

Sob o maior sucesso pessoal pode morar o maior desejo do fracasso que não veio e não virá. Pessoas assim, brincam com o perigo. Pessoas assim, querem ver a modernidade que as acelerou, estancada – talvez para sempre! Clamam por alguém que venha arrebentar de vez com todos os “trabalhadores”, ou seja, com tudo que lembre disciplina, ainda que só de uma maneira formal. A disciplina da fábrica é a disciplina da escola e é a disciplina da vida sexualmente protegida. A disciplina da fábrica e essas outras disciplinas lembram, respectivamente, “os trabalhadores”, “os estudantes”, “as mulheres”. Esse trio que comanda a vida de muitos, de Alines, Marias e Sandras pelo Brasil afora, é o trio que Jânio, Collor e Aécio não conheceram como o que poderia trazer virtude. Conheceram-no como inimigo. Os dois últimos homens, inclusive, não conheceram de modo algum esse trio, ficaram sabendo dele de longe, e tiveram nojo.

O voto no algoz não é um voto de desgraça, é um voto de libertação. Ele traz a esperança de botar um fim em tudo. De retirar do mundo a lei, a obrigação, o sucesso, a universidade, o emprego, o marido – tudo. A capa de desculpa com que o clamo para vir é a “corrupção”. Diz a moça desesperada: “estão roubando lá na Sede do Reino, então venha e salve o país”. Mas, no fundo, o pedido é outro: “tire-me o país se não puder tirar minha vida”. “Venha drogado e faça comigo o que Luana Piovane, linda, queria que seu ex-namorado fizesse todo dia com ela, e por isso ela também agora vota no agressor de moças”.

A vida é pesada para os que obtiveram dela, por esforço, o seu sucesso. A moça vitoriosa pode soltar a voz, sem dizer tudo: “ah! nada melhor que um vingador para arrancar a vida de mim, me dando ao mesmo tempo a desculpa de que era inevitável, tanto é que virá para arrancar de todos”. “Venha com vem uma catástrofe natural”.

É um erro achar que só os materialmente fracassados pedem o fascismo. O ressentimento é matreiro. Ele se disfarça. As dores do sucesso às vezes são tão ou mais doloridas que a do fracasso. A cena de Django, de Tarantino, quando o herói entra a cavalo na fazenda e muda a expressão do personagem feito por Samuel Jackson, mostra isso. O negro que obteve sucesso pelo próprio martírio vê que esse modo do martírio talvez vá acabar (já bate na porta a Guerra Civil), e ele não irá pegar isso, ele não irá viver o novo mundo sem escravidão.

Talvez minha prima, linda e bem formada, ao presumir que não há para ela outro mundo, pois seu esforço e martírio já foram executados, queira alguém que destrua tudo antes que outros possam anunciar outro mundo. Ela jamais conseguirá compreender isso. Nem lendo isso. Pois seu algoz já é seu dono. Ela se imagina feliz, mas o fanatismo com que ela clama pela libertação, pela vingança, mostra outra coisa.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

Tags: , , , ,

14 Responses “Minha prima fanática por Aécio”

  1. Guilherme Gouvêa
    23/10/2014 at 14:38

    Mulher bonita e de sucesso gamada em cafajeste (e sofrendo por isso depois): basta um pouco de observação cotidiana para se concluir que é a coisa mais convencional que existe.
    *
    Talvez a brilhante exposição do Paulo também possa valer, mutatis mutandi, para explicar esse fenômeno na área afetiva…

  2. William melo
    22/10/2014 at 19:00

    A final em quem votar professor?

  3. Elo
    22/10/2014 at 14:15

    Realmente identifiquei muito sua prima com meu pai, fanáticos PSDB
    Meu pai acaba sendo um fanático, na verdade é literalmente Anti Dilma, pois o mesmo teve problemas financeiros durante o cargo do PT; Ele tem um tal ressentimento devido o voto dele já ter ido pro PT algumas vezes e o partido não ter realizado expectativas deles porém deixo claro que ele é uma fanático com duvidas ao Aécio ”O ressentimento é matreiro. Ele se disfarça.”

  4. Valdério
    20/10/2014 at 13:25

    Paulo,

    Eu havia sacado no filme Django que o personagem de Samuel L. Jackson se ressentia de todos os negros que não partilhavam sua cartilha ou invejavam seu sucesso. Mas essa sua percepção referente ao momento histórico foi bem reveladora. A aurora de um novo mundo onde o personagem não tem lugar.
    Acho que este foi o melhor papel de Samuel L Jackson. Além do roteiro, a construção do personagem pelo ator ajuda a esspressar esse sentimento.
    Exelente texto e exelente analogia. Confesso que tive dificuldade de entendê-lo no início. Com a anlogia final, ficou mais simples (deu até vergonha) e rendeu uma releitura.
    Abraço.

    • 20/10/2014 at 14:12

      Valdério eu já tinha escrito sobre o filme, veja aí no meu blog. Mas eu tinha caído na armadilha de jogar o ressentimento para o perdedor, ou seja, o personagem do SJ sereia um perdedor, um esforçado sobrevivente. Mas a atitude de minha prima mostrou que ele é mais que isso. Como ela, ele era um autêntico vencedor. Todavia, mesmo no êxito, mesmo podendo mandar no patrão, as marcas de uma disciplina inaudita para se conseguir tal coisa nunca foram tão reveladoras para ele senão naquele momento. Não ainda como perdedor. Mas como vencedor. Ele não era um magoado. Nem minha prima é. Tarantino é de fato um gênio.

  5. Carlos Bengio Neto
    19/10/2014 at 01:59

    E o filosofo? Não foge das dores da vida por esse vinho amargo? Não seria esse o seu demônio do Anti-eu? Acaso o seu “ser filosofo” também não encobre o seu amor secreto pelo que te fez sentir vilipendiado e oprimido: – A militância do PT, o Nassif e as militâncias de “esquerda” que te acusaram de racista na UFRJ como está no youtube? Meu Deus que corte! Que ferida! Que lacuna paraláctica intransponível separam os eleitores de Dilma (intelectuais, professores, estudantes) dos eleitores do Aécio (Classe média ajudados por Dilma e Lula). Olha ainda bem que nem sequer nasci em Niterói: voto no Aécio orientado pelo principio de realidade mesmo.

    • 19/10/2014 at 04:47

      Carlos você vota no Aécio, pode votar. Agora, o chato é que seu voto, seja lá qual for, não permitiu você entender um artigo meu de filosofia bem simples, didático até. O artigo não é sobre mim. Se fosse, eu diria. Eu começaria dizendo. Eu adoro aparecer e me expor. Mas esse artigo é sobre, novamente, o thymos, sobre a questão do ressentimento, que em geral é tomado como um elemento dos pobres, dos fracassados. Eu inverti a seta dele, para mostrar que o ressentimento é como o caipora.

    • Carlos Bengio Neto
      19/10/2014 at 12:53

      É que quando Paulo me fala sobre sua prima…

    • 19/10/2014 at 13:45

      Carlos tá difícil para você, eu sei, filosofia é para todos mas não para qualquer um. Tente, esforce-se. Nesse caso o conceito é simples. Vai, leia de novo, talvez dê. Não há sobretexto, é só o texto mesmo. Vai, tente. Não encontre outro texto por não entender este que é o visível. Essa é a pior saída que um jovem pode fazer. Vicia e ele se torna o ignorante prolixo.

    • Carlos Bengio Neto
      19/10/2014 at 21:57

      Mas eu entendi o texto e inclusive o achei absolutamente genial. Eu já havia lido inteira a tradução da obra – Ira e Tempo Do Sloterdijk! Paulo é pq esses dois últimos textos somados ao modo como você tem se posicionado fizeram saltar da tela do meu pc um outro texto, um texto velado que só diz repeito a você (e outros) que são irresponsáveis no modo da colocação das coisas. Para além do Thymos e do Eros existe um principio de realidade que precisa pragmaticamente ser levado a sério e que não está sendo pelas mesma razões que no texto sua prima é apaixonada pelo Aécio; me refiro a um estranho amor ao PT (mascarado pelo ressentimento ao Aécio) que professores e intelectuais bem sucedidos demonstram, isso é sintomático quanto este partido os ameaçam em condições fundamentais como as da liberdade intelectual. A Dilma não possui mais condições (politicas, psicológicas etc etc) para governar esse país! Porque não há um artigo sobre isso? Ok depois a gente fala do Thymos nos bem sucedidos, depois nós voltamos para as questões ontológicas, mas agora o que urge é outra coisa!

    • 19/10/2014 at 23:09

      Carlos você diz que entende, mas não entende. Acha que entende. Você está com problemas com o PT que não tenho. Por quê? Porque a perseguição pessoal que militantes do PT me fazem não me cega. Agora, meu caro, vai ler outra pessoa vai. Não volta mais aqui não. Realmente eu não tenho mais saco para leitor infantil. Neguinho que vem aqui discutir PT e PSDB etc. sem saber nada do que está lendo não quero como meu leitor. Xô.

  6. Wagner
    18/10/2014 at 19:57

    A sedução do chicote remete às internalizações de símbolos e valores na infância.
    Se olho no espelho e já não consigo ver a face de Cristo, ofereço as minhas costas ao açoite dos romanos.
    Hitler é mais conhecido e pesquisado que Luther King e Mandela juntos.

    • 19/10/2014 at 04:49

      Wagner é mais ou menos por aí, no seu jargão, ainda que o meu texto vá por outro caminho.

    • LMC
      20/10/2014 at 10:31

      Hitler é mais conhecido e
      pesquisado porque foi o
      maior monstro do século
      20,Wagner.Não é como
      aqui no Brasil onde tem
      gente que nem sabe
      quem foi Vladimir Herzog.
      Entendeu?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *