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22/10/2017

Milagre não é mágica


Milagre não é mágica. Mágica não é milagre. O papa Francisco I falou novamente disso, comentando que Deus não é um mágico com uma varinha que vai atendendo desejos. A ideia de milagre cabe na filosofia, a ideia de mágica cabe no palco. São coisas diferentes. Bem diferentes.

Milagre é um evento que não cai sob as regras da causalidade e as regras da razão. Foge da causalidade natural e escapa da compreensão racional. O milagre é, por definição, algo inesperado, justamente porque fora do campo do natural. Os cientistas gastam seu tempo tentando re-inseri-lo em alguma sequência causal natural. Outros preferem admitir que, em determinados momentos especialíssimos, algo rompe as regras naturais. Outros ainda admitem, com uma explicação mais sofisticada, que os milagres podem possuir explicação científica, que os fazem possíveis dentro das leis naturais, mas que assim mesmo a explicação não é totalizadora, não se podendo descartar aí, nesse caso, uma relativa quebra das regras naturais.

A Igreja Católica admite milagres, claro. Mas não admite mágica. A religião católica, desde o seu início, nunca abandou o racionalismo grego, e ela mesma, também por conta desse seu passado, veio a incorporar as teses do empirismo. Para a Igreja Católica, a cada aceitação de um milagre, faz-se antes antes de tudo uma investigação cuidadosa.

Agora, a mágica é diferente. De fato, trata-se de uma ilusão. Portanto, existe sem ser considerada ilusão só nas cabeças infantis, ou seja, naqueles que não percebem a diferença entre lei natural e alteração da lei natural. Os que acreditam na mágica não pensam na quebra da causalidade natural ou da racionalidade nossa ou do mundo, mas simplesmente estão aquém de entender o que é a causalidade natural. Para tais consciências as coisas existem e tudo se movimenta de acordo com uma mão ou várias mãos de seres poderosos de todo tipo. Nesse caso, um ser super poderoso, como Deus, pode mais que outros, e age como que um grande pai diante das crianças que, vendo ele tirar água de dentro da geladeira, e nunca podendo abrir a geladeira, acreditam que ele possa tirar água de qualquer recipiente. Uma boa parte dos adultos não tem a menor ideia da física do ensino básico. Alguns outros não tem conhecimento da física do ensino médio, mas conhecem o mundo físico da vida, da experiência, e não acreditam em alguma força que possa parar um martelo atirado para cima, a não ser que seja alguma força que também tenha alguma regularidade racional.

Quem na filosofia acredita em milagres? Ou acreditou? Vou lembrar um, entre tantos.

Pascal foi filósofo e cientista. Ninguém mais que ele sabia bem como que a regularidade natural era firme. No entanto, Pascal dizia: os milagres relatados pela história contadas pelos apóstolos, sendo eles doze, não poderiam ser uma mentira combinada. Uma mentira combinada, sempre vazaria. Ora, se contarmos que um deles ainda por cima traiu Jesus, mais ainda deveríamos levar em conta a questão de Pascal: alguma verdade nos milagres de Jesus, aos menos os de Jesus, há.

Claro que essa formulação de Pascal não desmente aqueles que querem que um dia todos os milagres possam ser explicados cientificamente. Ora, isso já é possível. Há cientistas escritores que já fizeram explicações científicas para todo tipo de milagres. Às vezes essas explicações dependem de engenhocas, e são tão implausíveis historicamente, que é melhor, mesmo, ficar com a explicação religiosa: há momentos que a natureza parece abrir buracos na sua regularidade. Ou melhor ainda: há momentos que o inusitado é de tal ordem caprichoso, desmentido tudo que poderíamos esperar da sequência causal, que temos que, pelo espanto, recorrer ao “é milagre!”. Dizer outra coisa seria fugir do padrão linguístico que temos.

A Igreja Católica é uma protetora da racionalidade ocidental, ao menos no campo do alto clero. Ela procura manter  os milagres afastados da magia. Gosta de distinguir as coisas nesse campo. Mas, ao mesmo tempo, se notarmos sua eterna conversa com os mais simples, veremos que ela, às vezes até sem querer, não tem como não deixar a adoração vir a se casar com o pensamento mágico. Muitos padres, mesmo tendo uma cultura sofisticada, fecham os olhos para os atos de camponeses que só se manteriam fieis se pudessem aderir não à aceitação do milagre, mas à ideia de que a magia impera. Esse drama perdura até hoje entre os religiosos. É uma drama real, não um subterfúgio para enganadores. Mas o Papa Francisco I tem sabido alertar para a necessidade de deixar a mágica de fora do campo do milagre.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo: 30/11/2016

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8 Responses “Milagre não é mágica”

  1. 06/12/2016 at 20:18

    Milagre é um feito extraordinário que vai de encontro às leis da Natureza.

  2. João Paulo Matheus
    01/12/2016 at 12:27

    A igreja evangélica confunde magia com milagre?

    • 01/12/2016 at 14:19

      Todo mundo dá uma escorregada, uns mais outros menos.

  3. Sergio Fonseca
    30/11/2016 at 19:53

    É o caso do principio da incerteza de Heisenberg que embolou todo o meio campo da física clássica ao apontar para uma região tão diminuto do universo que ali, naquela região, as leis clássicas não funcionariam. No mundo das partículas elementares, os eventos ali, parecem resultar de milagres inexplicáveis!!!

  4. Thiago Carvalho
    30/11/2016 at 19:26

    Uma vez fiz um texto parecido mas sem referencia a igreja qualquer. No texto, aqueles milagres televisivos, foram admitidos como verdades empiricamente verificáveis, mas não mágicos, e como fenômeno humano. Foram considerados “histerias coletivas positivas” no qual o fenômeno aparente é a cura de males psicossomáticos.

    • 30/11/2016 at 20:48

      Não, não foi o que eu quis dizer. Não estou tentando resolver o problema dos milagres, apenas mostrar a distinção que se deve ter com magia.

  5. Thiago Carvalho
    30/11/2016 at 19:22

    Maestral texto.

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