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26/04/2017

Os midiagogos não permitem que você corrija aluno


Não se pode mais corrigir o aluno, dado que a sala de aula é lugar de ideologias e de “variados pontos de vista”?

O jornal O Globo mostrou uma curiosa prova de uma aluna. Diz o jornal que foi a mãe que mandou. O texto da prova estava até que bem feito, do ponto de vista formal. Mas a garota tirou zero. Ela fez uma espécie de apologia do capitalismo, condenando a visão de que este causa pobreza etc. A mãe quis mostrar com isso como que  o projeto “escola sem partido” tem razão. A professora, provavelmente anti-capitalista, não aceitou a visão pró-capitalista da garota, e descontou dando-lhe na nota. Como resolver o problema?

Resolver isso não é difícil, e sempre ensino como fazer. E claro que não é pela via do projeto inconstitucional chamado “Escola Sem Partido”. Mas hoje, ao ler tal coisa, li também vários comentários no Facebook de professores, principalmente de história, citando os midiagogos. Eis o que vi: “toda aula tem ideologia”,  “tudo é político” e a aula tem que ter “dois lados”  e “visões dos lados opostos” etc. Alguns que são dessa opinião que é semi-verdade, voltaram a citar midiagogos para comentar também o episódio posto em O Globo. Uma confusão mental terrível. Uma confusão feita pela esquerda, que teima em não refletir. Uma confusão que é, de certo modo, apenas o avesso da direita.

Dizer que a sala de aula é ideológica e que o melhor que se pode fazer é ouvir vários lados transforma a escola numa bancada de jornal da TV Cultura (o jornal opinativo que ninguém aguenta, e por isso conduz o povo para o Jornal Nacional), onde os midiagogos trabalham de graça, furando o olho de jornalistas profissionais. Escuta-se um lado, escuta-se outro, e eis que a verdade jornalística surge como sendo o conhecimento. Não! Na escola não é assim. Não pode ser assim. O conceito de escola não permite. O conceito de conhecimento não implica nisso. Conhecimento, ao menos desde Platão, é “crença verdadeira bem justificada”. E a justificação não se faz pelo “ouvir dois lados”, mas por reflexão sobre o que se ouviu e por investigação paralela à reflexão e, como disse, uma praxe que depende do tempero dos clássicos.

Na escola, o conhecimento é assim obtido não solitariamente, mas com a colaboração do que é conhecimento já admitido pela cultura ocidental melhor elaborada: o que está no saber que tem a pretensão de objetividade e neutralidade. Um Machado de Assis na literatura, um Newton na Física, um Platão na filosofia, uma geometria de Euclides e assim por diante, eis os conteúdos básicos necessários. Os experimentos, os exercícios, a reflexão e a investigação não existem sem os clássicos. Sem eles, tudo isso patina na lama do senso comum.

Na escola há uma aspiração, por parte de certos saberes, à neutralidade e à objetividade. Essa pretensão pode não se realizar de forma absoluta, mas segundo o critério de pensamento culto do Ocidente, ela se faz por meio dos clássicos. Os clássicos são o particular elevado a universal. Então, ganham uma forma de neutralidade e objetividade. Como os alunos devem aprender? Claro que investigando e refletindo. Mas, principalmente, não ouvindo vários lados de opiniões de modo ingênuo, mas ouvindo os clássicos. Lendo os clássicos. Depois, mais tarde, mescando as experiências de vida com o que leram no ensino anterior, justamente os clássicos. Assim a vida realiza experiências não de forma crua, mas calçada por uma atitude culta, por uma personalidade cultivada, e a cultura, por sua vez, desse modo, não se torna vazia, mas banha a experiência de vida potencializando-a. Isso e´a escola. Opinião do lado de lá e de cá não é aula e não é escola. Opinião do lado de lá e do lado de cá levou a aluna  citada em O Globo a fazer uma apologia do capitalismo e dizer que está certa, pois o que fez, provavelmente, foi colocar sua apologia contra a da professora, que fez a apologia do anti-capitalismo. Texto apologético, sem vida e sem a referência progressivamente banhada pela vida, não é texto acadêmico, nem no ensino médio. Não tem como ser avaliado. E se o professor fica falando o que o midiagogo fala, desqualifica a escola, transforma tudo em senso comum de TV.

Os professores precisam defender a escola contra essa banalização do boneco midiagogo de plantão. Eles precisam recuperar, por essa via que mostrei, que sempre foi a via das boas escolas, a autoridade própria de corrigirem legitimamente os alunos. Eles são os condutores do ensino. Eles são os que avaliam. Não devem cair no engodo da banalização da aula pelos midiagogos. Não precisam se autodesprestigiar.

As pessoas que gostam do gurus midiagogos, que não sabem ser outra coisa senão seguidores, ficam fulas da vida comigo por eu dizer isso. Não me importo, não sou político, não preciso de eleitor, também não vivo da palestras, não preciso de pessoas me aplaudindo. Não posso abrir mão de falar isso que falo, ao menso não no Brasil. Nosso país está perdendo a noção do que é corrigir um aluno na escola. Já não se pode corrigir ninguém. Então, todo mundo sai da escola como quem saiu de palestra e acaba achando mesmo que é vômito ideológico. Isso é o fim da escola.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo. São Paulo, 28/07/2016.

 

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13 Responses “Os midiagogos não permitem que você corrija aluno”

  1. Fabiano Pontes de Paula
    03/08/2016 at 16:28

    Explique para nós o porquê o corpo discente da UFRRJ protestou contra você e colocou um vídeo lá no Youtube da cena. Será que você observa o tipo de professor que é? Consegue perceber a imagem social autoritária que projeta?

    • 03/08/2016 at 19:08

      Fabiana, olha minha resposta para gente como você: ha ha ha ha ha ! E mais essa: não chame de corpo discente meia dúzia de fracassados que entram para bater em colegas. Procure-os! Não os achará. Eram fracassados e hoje são mais ainda. Algo como … você. Fabiana quem? Entende agora?

  2. AFAB
    29/07/2016 at 16:08

    O que ocorre, ao menos em parte desse público é o seguinte: quero saber se o que escrevem/ se passa ali concordo, senão vou xingá-lo, desqualificá-lo…

    • 29/07/2016 at 19:00

      Ah, BOM, sei que é claque. Mas esse é o problema.

  3. Marcio
    29/07/2016 at 11:48

    Sou burro, um curador de opiniões a fim de montar minha exposição de opiniões. Tem solução?

    • 29/07/2016 at 11:53

      Márcio, ter opiniões não é ser inteligente. O midiagogo tem várias, mas a gente sem opinião que não precisa dele. Aliás, tanto é verdade que as pessoas preferem o Jornal Nacional e ver a bela Renata. Um jornal acima da média, com objetividade quase que internacional.

    • LMC
      29/07/2016 at 13:08

      E o JN continua tratando aqueles
      ditos como terroristas presos por
      estarem tramando atentados
      terroristas pra Olimpíada como
      se fossem os maiores bandidos
      da história.Já vimos isso na Copa.
      kkkk

    • 29/07/2016 at 14:50

      O JN está certo. Desmentir a qualificação da polícia quando vem em nota oficial é um erro jornalístico dos piores. Bonner sabe fazer a coisa.

    • LMC
      29/07/2016 at 15:23

      É que lembrei daquele filme,o
      Minority Report,PG.

  4. Silvia
    29/07/2016 at 11:07

    ótimo texto

  5. LMC
    29/07/2016 at 10:42

    Acho que a professora que deu
    zero pra prova da aluna nem
    segue estes midiagogos,PG.
    Os sindicatos dos professores-
    na maioria ligados ao PT-já
    fazem por conta própria.

    • 29/07/2016 at 11:20

      O mundo não é feito de esquerda ou não esquerda, de pt e não pt. As formas pedagógicas são amplas e respiram um clima, o senso comum, que no caso funciona como os midiagogos querem, pois eles são também o senso comum. Sacou como é a dinãmica? Você quer encontrar vinculações do que falo diretamente com esta ou aquela corrente, e quer ver relações diretas de causa e efeito que não se fazem nessa simplicidade.

    • LMC
      29/07/2016 at 13:20

      Teve um editorial em O Globo
      que acha injusto que as
      universidades públicas não
      cobram mensalidades dos
      alunos mais ricos.Deve ser
      por isso que o SPTV,o
      noticiário local da Globo é
      patrocinado pela Uninove.kkkkkkk

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo