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16/12/2017

O aborto por microcefalia?


Não tenho nenhum argumento para convencer as mães que possuem fetos candidatos a microcéfalos a não abortar. Nenhum. Isso não seria um problema, caso eu não fosse filósofo. Sendo filósofo, essa falta de argumentos me coloca como um peixe sem barbatanas ou, pior ainda, como um flato pequeno e sem cheiro. 

Mas, há ainda algo mais para sofrer. Tenho de aguentar as pessoas que não deveriam ter argumento, tendo-os aos borbotões. Não propriamente como argumentos, mas como conversação barata. Afinal, toda vez que há algo dentro de úteros, os que estão fora, mesmo os pretensos donos barrigas, sabem falar muito e decidir pouco. O problema de sair da caverna de Platão não é propriamente a questão de soltar amarras e ultrapassar a porta, mas o de dar de cara com aquilo que não é o Bem ou o Sol. O maior drama de quem está fora é que toda a sua mensagem sonora claramente evangélica, ou seja, que proclama a boa nova, é sabidamente uma mentira. Aqui fora, sabemos, é muito escuro. Ao menos para os que lá dentro já foram maculados.

Somos todos gêmeos, pois convivemos com a placenta e ela é nosso “com”, que nos permite aprender a alteridade do outro e nos dotar, muito antes da linguagem ou de qualquer contato com o não-mãe, do que Martin Buber chamou de “o instinto de relações”. No entanto, esse nosso “com” tem a capacidade de companhia protetora somente após algum tempo. Antes das primeiras semanas, ele é tão indefeso quanto qualquer outro indefeso. Agarrado nessa hora pelo Zika vírus, esse “com”, o elemento placentário, não pode ser de fato um parceiro de ressonância e, então, nos encaminha para uma saída da Caverna que não nos dará nenhuma vantagem. Não é difícil, então, passar pela cabeça de quem está fora, a ideia de que talvez nem sempre exista aqui fora um o Sol ou o Bem.

Quantos forem os argumentos que vierem a favor da vida, todos eles ganharão outros argumentos que os rebaterão e vice-versa. Só fecha questão sobre isso quem tem a cabeça menor que a do que o doente que vai nascer. Nessa hora, opinar como médico, padre ou delegado de polícia tem seu valor maior que opinar como filósofo, pois carrega mais consequências. Nós filósofos, nessa hora, temos ao menos a dignidade de não informar, não condenar e não prender. Deixamos esses afazeres para esses profissionais importantes. Felizmente somos profissionais menos importantes. Felizmente não sendo sábios, mas somente amantes do saber, podemos não dar opinião para tudo.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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7 Responses “O aborto por microcefalia?”

  1. Jorge
    04/02/2016 at 12:23

    Professor Paulo, sempre pensei de modo semelhante ao modo que apresentas no texto, mas me surgiu uma questão:
    Ao avaliar que o feto afetado pelo Zika Vírus terá um futuro sombrio, estamos avaliando, de fato, a perspectiva desse indivíduo? Tentarei explicar.

    Pense em uma criança que tenha uma vida num mundo miserável, de trabalho infantil, por exemplo. Psiquicamente, essa pessoa não pode ter uma experiência da realidade que, subjetivamente, “valha a pena” para ela (colocando pequenos prazeres como grandes prazeres e os [por nós chamados] grandes sofrimentos como elementos corriqueiros)?
    A criança com microcefalia não terá a mesma experiência que nós temos, e nós, se convidados a termos a vida dela, preferiríamos a morte, mas isso não se dá por uma comparação que toma a nossa (contingente) forma de vida como a referência, de modo que não haveria razão para acharmos que essa criança deveria ter os nossos valores?

    A minha dúvida é se não estamos fazendo algo como incutir certos valores, certas formas de valorar a experiência, certos valores para determinados objetos, nessa criança não-nascida, e não conseguindo aderir ao novo que é a experiência dessa criança, que pode, sim, ter uma experiência subjetiva (e é isso que importa, né?) com uma qualidade superior à de muitos de “nós”.

    Quando avaliamos animais de experimentos, como os ratinhos brancos, que ficam numa caixa, com outros ratos, sem nenhum passa-tempo, muito antes de avaliar os graus de estresse desses ratos nessa situação comparada com outras, nós projetamos nossa experiência ali, e pensamos algo como “nossa, seria terrível [para mim] estar ali”, “logo, deve ser terrível para ele!”; no caso da criança afetada por essa doença, será que – no seu texto – não ocorre algo semelhante, desconsiderando a experiência particular desses seres que teriam uma experiência (potencialmente satisfatória para eles próprios) diferente da nossa?

    Desde já, obrigado!

    • 04/02/2016 at 13:10

      Não avaliamos pela criança, avaliamos pela sociedade e por nós. A decisão será por nossa causa.

    • Jorge
      04/02/2016 at 14:53

      Entendo.

      Mas se tormarmos este critério não estaríamos abrindo possibilidades mil de manipulação da vida?

      Primeiro que qualquer tipo de aborto seria justificável. Ok. Talvez isso não seja problema…
      Mas se pensarmos uma pessoa cuja sensibilidade é ajustada a esse argumento do seu próprio benefício e do benefício da sociedade (ignorando a experiência em potencial do feto), por que ela iria relutar em usar animais em pesquisas científicas (benéficas a ela e à sociedade) de qualquer ordem? Assim como ignoramos a experiência em potencial do feto, podemos ignorar a do rato (ou do cachorro, do porco – do presidiário, etc…), não?

      Imagino que a primeira resposta a isso seja o argumento da dor e do sofrimento causado nesses animais. Embora isso possa ser suficiente para darmos um passo atrás nas pesquisas que causem tais estados nos animais, não serve de nada para manipulações pós-morte (aniquilamento de animais, em geral, para pesquisa ou alimentação), pois podemos anestesiar qualquer animal antes de acabar com a vida dele (e sendo essa experiência deste animal algo a ser ignorado, como do bebê com microcefalia, o que nos resta?).

      Peço sua ajuda para esclarecer um pouco essas questões, cuja complexidade por vezes me deixa perplexo a ponto de apenas erguer os ombros e ficar quieto, sem fazer ideia do que pensar.

    • 05/02/2016 at 00:57

      Aborto como não crime é uma decisão política, não tem como ser metafísica. Infelizmente alguns querem derrotar outros no campo metafísico. Nesse campo, não há solução.

    • Jorge
      05/02/2016 at 02:09

      Concordo que seja uma decisão política e que argumentar metafisicamente seja ineficaz.
      Mas por ser uma decisão política isso significa que critérios não-políticos (metafísicos, psicológicos [como a empatia], etc.) não devam ser invocados e discutidos? Não são esses conteúdos – animando e direcionando os indivíduos que movem a política – que determinarão o que se irá decidir no nível da política?

      Por um lado entendo que a discussão metafísica seja uma furada, aqui. Mas simplesmente ignorar esse aspecto não seria um [potencial] problema, conforme expus no último post?

    • 05/02/2016 at 11:22

      Jorge você pode discuti-los, se já não agiu assim. Mas filósofo velho como eu não tem mais essa prerrogativa.

  2. Maximiliano Paim
    01/02/2016 at 19:42

    O vírus pode ser também o gigante de Sirius de Voltaire que queria matar os assassinos da Terra, mas que o filósofo disse que não seria necessário visto que eles mesmo já faziam isso. O Zika chegou atrasado pra fazer o trabalho que a má educação vem fazendo com o cérebro pequeno do brasileiro.

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