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30/04/2017

Michele Obama dá o tom correto para o feminismo


Paulatinamente o feminismo americano vai reencontrando seu caminho. A primeira dama Michelle Obama, negra e sem qualquer traço do militante temido por Cioran, aquele do “chegou a Salvação”, articulou corretamente o novo discurso: educação das meninas e melhoria do tratamento para com as mulheres adultas são lutas comuns.

Com isso, Michelle Obama recoloca no eixo liberal, tipicamente americano, de confiança na educação escolar, o gancho feminista. Podemos educar todas as meninas até ao nível superior, mas há na lateral a educação social do adulto em relação à mulher. Ou seja, no limite, trata-se de dupla educação: uma pelos mecanismos escolares, outra pelos mecanismos do trato social e das leis. São lutas na mesma direção, mas são práticas completamente distintas. Na sociedade cabe a lei em favor da mulher, acionada e vigilante, contra qualquer discriminação. Na escola a questão não é simplesmente a da obediência às regras, no espelho da lei do adulto, mas é um trabalho intelectual, onde as crianças possam entender uma filosofia social, uma sociologia e uma antropologia que não coloquem como alunos estúpidos. O que é um estúpido, no caso do militante feminista?

O estúpido ou, melhor, a feminista estúpida, é aquela que aprende a dizer a expressão “é machismo” como uma forma de encerrar a reflexão. Há uma geração inteira de meninas, jovens e já mulheres que repetem essa frase que Michele Obama nunca fala. Pois “é machismo” não é início de reflexão, não é convite para o pensamento, é dogma que encerra a conversa e, em geral, de maneira a tornar um diagnóstico errado aquele que se fixa como o certo. Por isso é fácil até para violadores de mulheres saírem por aí dizendo “é machismo”.

Os problemas que as mulheres enfrentam não são oriundos só do “machismo”. São problemas complexos. Quando se usa o “machismo” indiscriminadamente, se retira da jogada um modo básico de pensar corretamente, que é análise da causalidade envolvida: o que é causa e o que é efeito, o que é razão e o que é consequência em um evento. Quando um funcionário trata mal uma mulher ele é, antes de tudo, um funcionário (público ou privado, tanto faz) incompetente; agora, se a acusação sobre ele é antes de tudo de machismo, ele acaba se livrando de ser visto como funcionário incompetente, e se  torna alguém que, por razões variadas, “como todo mundo”, cometeu um ato que será discutido sob o rótulo de “talvez tenha feito o que fez por desconsiderar mulheres”. Pode até ser que, em algum país, isso lhe cause uma demissão, enquanto que ser incompetente não. Mas, ainda assim, uma coisa é entender o ocorrido, outra coisa é punir culpados. Não adianta colocar no lugar dele um funcionário que conceda fino trato às mulheres, mas que, em geral, não saiba fazer o serviço.

As mulheres perdem muito com “é machismo”. E ganham menos ainda quando algum professor começa a ensinar a elas, as meninas na escola, que o “é machismo” serve para sociedades não contemporâneas, quando a discussão de feminismo não estava colocada. O “machismo” só tem sentido em relação ao “feminismo”. O feminismo diz “não se conhece a mulher”. Pode-se falar do sexo, mas o gênero feminino, não é conhecido. Aliás, é sobre isso que Simone de Beauvoir discute no texto exposto no Enem, que tanta celeuma causou entre estúpidos de direita e despreparados da esquerda.

Ora, como pode haver machismo numa sociedade em que não se conhece a mulher. A mulher é uma descoberta nova, do mundo moderno para o contemporâneo. Antes do feminismo existia o Homem e as mulheres, não o Homem e a Mulher. Só com o feminismo a chamada “luta das mulheres” começou a criar a possibilidade de se falar “a mulher” por meio antes de conceitos que de preconceitos. E só então surgiu a noção de “machismo”. Por isso mesmo, o machismo não é algo que se deva tomar como alavanca do mundo. Torná-lo maior e mais amplo do que é, torná-lo Deus, ou seja, causa única do universo, é mais que tolice, é desserviço.

Aliás, que saibamos bem: machismo não é um termo que adquiriu poderes trans-históricos, como o caso do Iluminismo ou do Humanismo. E nem deve.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo

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