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21/11/2017

O que é a metáfora?


Metáfora segundo o filósofo americano Donald Davidson – um verbete.

A tese de Davidson sobre a metáfora é, ao menos à primeira vista, bem estranha. Ele afirma que “a metáfora não diz nada além de seu significado literal”.[1] Ora, como pode? Não é a metáfora justamente aquilo que fala para além do literal? Então, o que Davidson está defendendo?

Como sempre, em filosofia não podemos ficar só na frase inicial e muito menos ler qualquer grande filósofo sem a mente aberta. Os grandes filósofos são novidadeiros. Davidson diz não negar que a metáfora tem um desígnio, o que ele nega é que o desígnio possa ser exibido usando palavras a mais. Isto é, a “metáfora pertence exclusivamente ao domínio do uso”. “É algo levado a cabo pelo emprego imaginativo de palavras e sentença e depende inteiramente do significado ordinário dessas palavras, e portanto dos significados ordinários das sentenças que as inclui”.[2] Ora, se é assim, parece que tudo está explicado. Mas, então, por qual razão a sensação que temos é que floresce aí um sentido dito metafórico, em distinção do que seria o literal?

Davidson parece não ser compreendido porque alguns não notam que ele concorda com outros teóricos sobre descrições dos efeitos da metáfora, e que a sua discordância é sobre o como a metáfora é suposta produzir os seus efeitos. Para Davidson, é errado dizer que a metáfora diz uma coisa que significa outra. Que uma metáfora se efetiva somente pela transmissão uma mensagem codificada é “como pensar que uma piada ou um sonho produzem alguma declaração que um intérprete inteligente pode restabelecer no plano da prosa”. Ora, diz ele, “piada ou sonho ou metáfora podem, como uma gravura ou um galo na cabeça, fazer-nos apreciar algum fato – mas não por explicar ou expressar o fato”.[3] Se há ou não um conteúdo cognitivo na metáfora, que esteja escondido nela, não importa, o erro está em acreditar que por detrás da metáfora seu autor deseja transmitir alguma coisa e que o intérprete, então, tem de agarrar uma tal coisa se ele quiser captar a mensagem. [4] A metáfora não faz outra coisa que chamar a atenção, mas ela não nos transmite uma mensagem, não há nada proposicional nela. “Quando tentamos contar o que a metáfora ‘quer dizer’, nós logo percebemos que não há um fim ao qual nós procuramos mencionar”.

Ele torna bem clara sua tese como exemplo sobre o fotografia. “Quantos fatos ou proposições são transmitidos por uma fotografia? Nenhum, uma infinidade, ou um grande instável fato? Má questão. Mil palavras não valem uma gravura, nem qualquer outro número. Palavras são uma moeda de troca errada para uma gravura”.[5]

O segredo da teoria davidsoniana é um segredo de Polichinelo: “metáfora faz-nos ver uma coisa como uma outra tornando alguma declaração literal no que inspira ou induz o insight”. Bem, uma vez que aquilo ao qual “a metáfora inspira ou induz não é inteiramente, ou não é mesmo em absoluto, reconhecido como verdade ou fato, a tentativa de dar uma expressão literal ao conteúdo da metáfora é simplesmente um erro”[6]. Quem tenta explicar a metáfora apelando para uma mensagem oculta nela, ou tenta expressar essa mensagem, logo fica mentalmente confuso. Não pode conseguir êxito pois uma tal mensagem não existe.

Claro que Davidson não condena a atividade do crítico literário, que comenta a metáfora, que vê os efeitos dela em pessoas educadas, que mostra situações que permitem mais transparência ao leitor. Ele crítico, revela poderes escondidos da metáfora. Mas são poderes, beleza, aptidões – que ele evoca à medida que disponibiliza percepções e sentimentos próprios de quando ele ouviu a metáfora. Mas não são mensagens codificadas disponíveis para a decodificação. O que há objetivamente são as palavras, as mesmas palavras com seu sentido literal inicial, mesma sentença com seu sentido literal inicial.

Levando em conta essa teoria de Davidson, podemos então sermos mais argutos com as metáforas. Podemos vê-las com nos puxando e nos aturdindo, nos dando insights inesperados para nós e até mesmo para o autor dela. Percebemos não somente o atestado de poder criativo da metáfora de quem a fez, mas o poder de incitação à criatividade de quem a escuta – nós mesmos. Isso nos dá uma nova dimensão do que é a nossa linguagem, e de nosso própria capacidade. Talvez a nossa linguagem transmita menos mensagens do que achamos que transmite, e tenha seu desempenho maior nos tirando de um lugar e jogando para outro, nos deslocando, fomentando insights e nos pondo em lugares inesperados. A linguagem não está em função do conhecer, mas do requisitar e atender.

Davidson lembra que o parentesco da metáfora com a atividade que Heráclito dizia a respeito do Oráculo de Delfos: ‘Ele não diz e não esconde, ele intima’. [7] Ora, Sócrates intimado se refez como o pai da filosofia. É pouco?

Paulo Ghiraldelli Jr., 57, filósofo, autor de Introdução à filosofia de Donald Davidson.

[1] Davidson. D. What metaphors mean. In: Davidson. D. Inquiries into truth and interpretation. New York: Clarendon Press – Oxford, 2011, p.  246.

[2] Idem, ibidem, p. 247.

[3] Idem, ibidem, p. 262.

[4] Idem, ibidem.

[5] Idem, ibidem, p. 263.

[6] Idem, ibidem.

[7] Idem, ibidem, p. 262.

9 Responses “O que é a metáfora?”

  1. Micaías de Souza
    02/06/2015 at 23:14

    Paulo, é possível dizer que Davidson faz uma coesão linguística entre literal e metafórico? Já que uma sentença descritiva, portanto literal, é uma (re)presentação = (signo + significado). Mas sem desconsiderar ambas, como faz a filosofia cartesiana (dúvida hiperbólica).
    Assim a coesão aparece quando tratamos ambos como representação. E não tratamos mais a metáfora como objeto metalinguístico – no aspecto semântico. Todavia a metalinguística da metáfora é uma “metasemântica”, mas que faz usos dos mesmos signos linguísticos que a representação. Daí a incoerência?
    Não sei que consegui ser claro.

    • ghiraldelli
      02/06/2015 at 23:56

      Davidson não trabalha com a noção de representação. Como Rorty ele é um não representacionista. Veja que a maneira como ele explica a metáfora é com não representacional. Ela não representa nada. Ele é um choc. Escapar da noção de representação para falar da linguagem é talvez a única maneira de escapar da noção de verdade como correspondência que, em nível filosófico, dá problema. SE TIVER DÚVIDA sobre representacionismo e não-representacionismo, em filosofia (não no sentido comum), veja o meu Inttrodução à filosofia de Davidson (Luminária)

    • Micaías de Souza
      03/06/2015 at 00:43

      Já comprei (encomendei) pela cultura, chega em breve.
      Mas eu sinto dificuldade em tratar a linguagem como não representativa. Entendo o problema filosófico da verdade como correspondência. Mas a linguagem não é o objeto em si?! Se a linguagem não é representação nem o objeto, o que seria?
      Bom, preciso falar com o livro na mão.

  2. bony
    27/05/2015 at 04:31

    Outra comentário: já que o texto é técnico, talvez para o leitor leigo caiba uma pequena introdução, um pequeno parágrafo, introduzindo o problema da metáfora na história do pensamento ocidental, ressaltando não só o que ele disse, como você já fez, mas também como o que ele disse é relevante em termos históricos. Não sei se o verbete está indo para um livro, se estiver, talvez esse comentário meu seja útil.

    • ghiraldelli
      27/05/2015 at 10:23

      O texto do Davidson citado já faz isso. O meu é um verbete.

  3. bony
    27/05/2015 at 04:06

    “é sobre o como a metáfora é suposta produzir os seus efeitos” Parece sintaxe do inglês, vale a pena dar uma mudada nessa frase. Esse texto me interessa pois eu ultimamente estou tentando encontrar maneiras novas de pensar textos litúrgicos chineses do século XIII. Uma questão nesses textos é que neles divindades chinesas são descritas por meio de uma linguagem parecida com a de textos tântricos. Uma coisa que eu me pergunto é se essas “formas culturais” transplantadas de um universo cultural para outro podem ser vistas como “metáfora”. Uma outra coisa que me deixa interessado nesse texto é o seguinte: você diz que a linguagem não está em função do conhecer, mas do requisitar e atender. Ao mesmo tempo, no entanto, eu tenho a sensação de ter aprendido, por meio do texto e, logo, por meio da linguagem, um monte de coisas sobre como metáforas funcionam. Isso quer dizer que o pensar e o falar não-filosóficos são metafóricos? Ou será que a frase não ficaria melhor caso se enfatize que a metáfora não está em função do conhecer? A filosofia é uma forma de pensar e dizer que não faz mais do que botar as estruturas do pensar e do falar em questão? Lendo este texto e um outro sobre metáfora (metaphors we live by) do Lakoff a sensação que se tem é que se está obtendo conhecimento positivo sobre como a linguagem funciona. Quer dizer, parece que é possível usar a linguagem ela mesma como evidência para conhecer… a linguagem. Eu me pergunto como isso influenciaria pessoas que, como eu, lidam com textos antigos. Ou seja, eu me pergunto se você vê caminhos por meios dos quais essas discussões filosóficas sobre metáfora possam influenciar outras disciplinas.

    • ghiraldelli
      27/05/2015 at 10:24

      Não Bony, a sintaxe do inglês aí é proposital e sair disso perde o sentido filosófico característico da filosofia analítica e particular em Davidson e Rorty. Temos de nos adaptar e não ceder à tentação que você teve.

  4. Julio Castanheira
    26/05/2015 at 18:12

    Paulo, muito bom artigo. O presidente Lula foi um dos nossos grandes produtores de falas metafóricas . Daquelas falas que buscavam a adesão fácil a idéias rasteiras e sem argumentos (pelo menos assim eu as via), pode-se dizer de fato que são metáforas, ou são uma degeneração do discurso, uma outra coisa, que é ignóbil de nascença?

    • ghiraldelli
      26/05/2015 at 20:42

      Julio obrigado pelo elogio. Sinto desapontá-lo, mas meu artigo é técnico, não é sobre o Lula.

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