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18/11/2017

Entre o útero e a casa – a metafísica é uma invenção masculina (*)


Falamos em filiação materna para um grupo nômade. Mas com grupos do início da economia agrária, é a filiação paterna que importa. Numa situação de deslocamento constante, filhos são identificados pela mãe. Em situação de fim do nomadismo, passa-se a contar a posse da terra, e então a prole ganha filiação paterna, a ligação se faz com dono do lugar. Assim, houve um tempo para úteros e filhos, depois um tempo para casas e filhos.

Com a filiação paterna se fixando, um pensamento transcendente se fez presente. A filiação ao útero dava ao homem sua verdade em situação imanente. Qual a sua verdade? E na resposta da pergunta, o homem podia apontar para um determinado útero. Qual a sua verdade? E na resposta a essa pergunta, mais tarde, o homem passou a apontar para a casa do pai. Desse modo, o pensamento imanente foi substituído pelo pensamento que valoriza o transcendente. A religião do pai entrou em jogo para valer. Se tivéssemos permanecido ligados ao útero, não teríamos criado nenhuma metafísica, nenhuma meta-física.

Milhões de anos depois, os gregos perceberam essa situação humana inicial. Eles logo notaram que a mulher está ligada à natureza, e dá origem ao imanente, enquanto que o homem, sem encargos de ciclos naturais pessoais, está associado à cultura, e dá origem ao transcendente. Mantiveram a cultura, então, como serviço de homens. O homem olha para a caça, lá longe, vai buscá-la, e depois olha para sua casa, a casa do pai, para voltar. A mulher olha para o filho, para o arredor, para as pequenas coisas. Viaje de carro com filhas pequenas e tente fazê-las observar o distante, a paisagem. Não obterá sucesso senão em poucos casos. Perca algo em casa e tente achar, não conseguirá sem a ajuda de uma mulher, mesmo pequena.

Essa antropologia do perto e do longe nos deu linguagens próprias e criou a metafísica e, nisso, uma epistemologia própria. A metafísica é tipicamente masculina. Mas a epistemologia guarda traços do “feminino” e do “masculino”. A cognição voltada para o perto é feminina. Os gregos deixaram a marca dessa descoberta para todo o sempre: Platão é feminino, Aristóteles é masculino. O quadro A Escola de Atenas, de Rafael, mostra bem isso: Platão aponta a verticalidade, Aristóteles o chão, a horizontalidade. Sócrates deixou bem claro que não fazia parte da cultura de todos os outros, ao mostrar que só mulheres o ensinaram. De fato, ele não era um metafísico. Platão sim, foi metafísico. Tentou solucionar as aporias socráticas criando a teoria das formas, os dois mundos. Praticamente foi o criador da metafísica. Conhecemos Platão como o eterno homoerótico masculino, completamente metafísico. Pensar além, colocar a verdade no Lá, na casa do pai, tirar a verdade do homem da referência ao Aqui. Essa revolução antropológica só se fez histórica, mesmo, em Atenas.

A própria religião grega era feminina e, portanto, nunca cultivou o além, o meta. Os oráculos tinham pitonisas, e elas não falavam de um além mundo, mas davam charadas para serem interpretadas e serem resolvidas. Era uma religião de apelo à inteligência. Os deuses do Olimpo, aliás, nunca estiveram no além, mas na Terra mesma, no Monte Olimpo. A religião grega nada tinha de metafísica.

Quando o cristianismo veio com a ideia de Casa do Pai, logo viu que isso não coadunava com a religião grega. Coadunava, sim, com o pensamento metafísico. Assim, os primeiros padres cristãos não se indispuseram contra a filosofia. Foram criando uma empatia com Platão. O masculino se casava com o masculino. O homoerotismo se casava bem com Paulo. Tudo é homem, disseram. O que era feminino, não metafísico ou pão-pão-queijo-queijo, era a religião grega. Por isso o cristianismo, uma vez dono da situação, combateu o paganismo, ao passo que incorporou o helenismo filosófico. É belo ver Agostinho e Boécio louvando Platão. O importante era manter a ideia do Lá, do lugar longe, a casa do pai. Ora, não oramos até hoje pensando mais na casa do pai, do nosso pai terreno? Oramos para o Lá. O Lá celeste existe por conta do Lá terrestre. Não oramos para úteros, embora devêssemos.

Se olharmos as coisas por aí, veremos os laços que masculino e feminino possuem com a filosofia, e começaremos a desfazer a noção de “patriarcado”, que entra nesse meio pelo feminismo moderno, e que acaba antes nublando que ajudando a entendermos nossos afazeres intelectuais.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 25, 11/2016.

(*) As ideias deste texto estão desenvolvidas em dois livros recentes: Sócrates: pensador e educador (Cortez, 2015) e Para ler Sloterdijk (Via Verita, 2017)

Gravura: Pitonisa, de Gustave Klint

 

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7 Responses “Entre o útero e a casa – a metafísica é uma invenção masculina (*)”

  1. 26/04/2017 at 12:53

    Muiti bom o artigo, ótimo o contéudo!!! Muito Obrigado!!!

  2. Ramiro
    14/12/2016 at 17:49

    O útero pode servir como metáfora para a Physis pré-socrática?

  3. Roberto Carvalho
    12/12/2016 at 13:43

    Poderíamos também pensar: a experiência do mundo uterino como uma experiência sonora; já o mundo metafísico de ordem masculina, a experiência visionária? A mudança de metáfora sinestésica a partir da metafísica? A importância do amplo olhar é bem conhecida na filosofia, tendo seu auge em Hegel – a coruja de minerva; na ciência também, vide as lunetas revolucionárias. Mas hoje estamos aprendendo a ouvir os sons que vêm do universo… Acho que algo vem mudando.

  4. 02/12/2016 at 10:02

    As feministas odeiam serem contrariadas!!

  5. Leonardo
    25/11/2016 at 16:19

    Interessante. A metafísica existiu em quase todas as culturas, em que muitas nem tiveram contato entre elas, mas se desenvolveram de forma paralela. Hoje, temos uma herança metafísica com nossos antepassados assim como os romanos tiveram com os gregos.
    Mas depois com as idéias do iluminismo a perspectiva científica toma conta do que é entendido como conhecimento. Estaríamos rumo à um olhar feminino outra vez?

    • 25/11/2016 at 20:39

      Leonardo, a metafísica é nossa, ocidental somente. Não confunda metafísica com pensamento transcendente de outros povos. Pode aplicar o termo metafísica a eles, mas com permissão da filosofia, licença poética, digamos.

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